Master of Business Administration

Ima­gem: Autor Des­co­nhe­ci­do

São todos iguais: homens de meia idade, cabe­lo rapa­do, cami­sas de cola­ri­nho curto ou ita­li­a­no de corte slim fit, fato três tama­nhos abai­xo do ego. Movem-se entre sor­ri­sos e hash­tags, dis­pa­ran­do pole­ga­res ergui­dos à esquer­da e à direi­ta, trans­pi­ran­do con­fi­an­ça por todos os poros. O dis­cur­so, sim­plis­ta, con­tém pala­vre­a­do obri­ga­tó­rio, todo ele posi­ti­vo: desa­fio”, opor­tu­ni­da­de”, solu­ção”, cola­bo­ra­ção”, mudan­ça”, glo­bal”, futu­ro”, são algu­mas das mui­tas expres­sões obri­ga­tó­ri­as, sem as quais um power­point será vali­da­do como sendo espec­ta­cu­lar”, e obter assim as dese­já­veis pal­mas ou o tão ger­mâ­ni­co bater os nós dos dedos no tampo da mesa. Usam expres­sões de acção como fazer”, con­se­guir”, caçar”, mudar”, que lhes empres­tam atri­bu­tos de homens pro-acti­vos, faze­do­res, pre­da­do­res. Deci­dem. Deci­dem muito. Deci­dem sem­pre. Dizem que mais vale uma má deci­são do que deci­são algu­ma. Usam ana­lo­gi­as mili­ta­res, como força-tare­fa”, força espe­ci­al”, quar­tel-gene­ral”, for­ças no ter­re­no”, eli­mi­nar o alvo”, con­quis­tar ter­re­no”. E dizem tudo isto em inglês. Pra­ti­cam cross-fit, vão a des­ti­nos exó­ti­cos nas féri­as, per­ten­cem a uma orga­ni­za­ção de apoio comu­ni­tá­rio, a um clube de ges­to­res e a outro de golfe, de ténis ou de squash. São con­ser­va­do­res ins­ti­tu­ci­o­nais, libe­rais eco­nó­mi­cos, liber­tá­ri­os indi­vi­du­ais, e liber­ti­nos após o quar­to whisky no hotel da con­fe­rên­cia. Lêem muito, espe­ci­al­men­te livros de ges­tão e de mar­ke­ting, e reci­tam estra­té­gi­as e case stu­di­es de cor. E quan­do o pro­ble­ma, pala­vra proi­bi­da, é aflo­ra­do por alguém, expli­cam que a pala­vra chi­ne­sa para ame­a­ça é a mesma que para opor­tu­ni­da­de”, que não há pro­ble­ma que não tenha pelo menos duas solu­ções”, que atin­gir uma meta é uma deci­são indi­vi­du­al”, etc., etc., aca­ban­do por per­gun­tar se és um faze­dor?”, como se não exis­ta outra res­pos­ta pos­sí­vel, e como se a solu­ção para o pro­ble­ma depen­da uni­ca­men­te da tua von­ta­de de ven­cer”, dei­xan­do implí­ci­to que, se não é o caso, tal­vez este­jas no local erra­do. Pra­ti­cam a lide­ran­ça moti­va­ci­o­nal”, fenó­me­no que não dis­pen­sa enge­nhei­ros da feli­ci­da­de” e arqui­tec­tos de solu­ções”. Bara­lham e tor­nam a dar, expli­can­do que depen­dem de ti”, como se essa fosse uma con­clu­são a que nin­guém che­ga­ria por si pró­prio, como se tal depen­dên­cia fosse, de repen­te, uma espé­cie de pro­mo­ção. Lem­bram-se, de vez em quan­do, de te per­gun­ta­rem como vão as coi­sas em casa”, mas não sabem nada de ti, nem que­rem saber, e fazem-no ape­nas para ini­ci­ar a con­ver­sa do tenho um desa­fio para ti”.

Os velhos ges­to­res, aque­les que apren­de­mos a abo­mi­nar como sendo os explo­ra­do­res”, os velhos bur­gue­ses”, exi­gin­do que uma nova gera­ção” tomas­se o lugar, estão quase todos mor­tos. Essa nova gera­ção tomou agora o lugar, vinda das busi­ness scho­ols” e colo­can­do um MBA” no final do nome, como se per­ten­cen­do todos a uma única e exclu­si­va famí­lia. E de facto todos eles per­ten­cem a uma única e exclu­si­va famí­lia, aque­la cujo conhe­ci­men­to assen­ta num sór­di­do con­jun­to de luga­res comuns repre­sen­ta­ti­vos exclu­si­va­men­te de his­tó­ri­as de suces­so, um conhe­ci­men­to inca­paz de lidar com a adver­si­da­de em ter­mos tác­ti­cos e ope­ra­ci­o­nais, trei­na­dos ape­nas para criar” visões e estra­té­gi­as que, não dando resul­ta­do, ape­nas redun­dam em mais uma série de des­pe­di­men­tos da cam­ba­da de incom­pe­ten­tes que não soube com­pre­en­dê-los e ali­nhar” na ele­va­da causa em que se empe­nha­ram. Ao con­trá­rio dos velhos ges­to­res, não conhe­cem a força de tra­ba­lho, não conhe­cem os meios de pro­du­ção, e nem sequer tra­ba­lham para um patrão – são escra­vos da cor­po­ra­ção, e os seus donos são um con­jun­to anó­ni­mo de acci­o­nis­tas. Ao con­trá­rio dos velhos ges­to­res, não têm ide­o­lo­gia, moral, ética, sejam elas cer­tas ou erra­das. Não assu­mem ris­cos. Não têm espi­nha. Nada mais são do que pas­sa­gei­ros de pri­mei­ra clas­se num cru­zei­ro à deri­va, cujos salva vidas estão quase todos ali, no con­vés supe­ri­or. Ao con­trá­rio dos velhos ges­to­res, não são res­pon­sá­veis pelo fra­cas­so, são ape­nas sau­da­dos pelos peque­nos suces­sos que vão con­se­guin­do, pro­fu­sa­men­te espe­lha­dos nos power­points das reu­niões da ges­tão, pro­mo­vi­das vezes sem conta ao dia, nas comu­ni­ca­ções inter­nas, no Lin­ke­dIn. Os novos ges­to­res são os homens do sis­te­ma, tra­ba­lham para o sis­te­ma, cres­cem no sis­te­ma, vivem do sis­te­ma, ape­nas enten­dem a rea­li­da­de den­tro do sis­te­ma, nada fora dele é váli­do. São eles quem, quan­do algo corre mal, entram em pâni­co, pois não con­se­guem enten­der o que falhou. Não foram edu­ca­dos para o falhan­ço, não enten­dem sequer o con­cei­to excep­to se enqua­dra­do num meme do géne­ro falha outra vez, falha melhor”. São todos iguais: pra­ti­ca­men­te inú­teis. E isso expli­ca tanta coisa.

Navegar ao Sul

Em 83 todos éra­mos jovens e boni­tos, nin­guém enve­lhe­cia ou mor­ria, e con­ti­nuá­va­mos ainda a expe­ri­men­tar a liber­da­de ofe­re­ci­da em 74. Foi por essa altu­ra que Gló­ria” sur­giu, fican­do eu sem saber o que pen­sar daqui­lo, se esta­va a assis­tir ao nas­ci­men­to de uns meros suce­dâ­ne­os dos Heróis do Mar, enchar­ca­dos de roman­tis­mo naci­o­na­lis­ta baco­co, ou se era real­men­te algo novo que dava à costa, como a músi­ca pare­cia suge­rir. Um pouco mais tarde surge o A Um Deus Des­co­nhe­ci­do” e a coisa pare­ceu des­lin­dar-se: os Séti­ma Legião eram, sem som­bra para dúvi­das, român­ti­cos, naci­o­na­lis­tas, mas de pacó­vi­os nada tinham. Letras de mes­tre eram envol­vi­das numa sofis­ti­ca­ção que como nunca ia tocar as raí­zes da músi­ca popu­lar sem se dei­xar absor­ver por estas, num resul­ta­do niti­da­men­te urba­no, bur­guês, fres­co. Era, por assim dizer, uma espé­cie de con­tra-ciclo. Eram bons, eram boni­tos, tinham tudo para o suces­so comer­ci­al. A coisa não ficou por ali e, pas­sa­dos uns dois ou três anos, brin­da­vam-nos com Mar de Outu­bro” que é, para todos os efei­tos, uma das obras pri­mas da músi­ca pop por­tu­gue­sa. E fize­ram mais, bas­tan­te mais, mas eu fiquei por ali, por entre deu­ses des­co­nhe­ci­dos que nave­ga­vam para sul. O Ricar­do Cama­cho zar­pou hoje, bons ven­tos o levem.

Livro dos Dias: Aborrecimento

Cada vez mais fre­quen­te­men­te dou comi­go a pen­sar por pen­sar, indo­len­te, sem con­sequên­cia que não se tra­du­za na desis­tên­cia a curto prazo, dei­xan­do de lado a tra­ba­lhei­ra de dali tirar con­clu­sões ou novas per­gun­tas sequer. A ver­da­de é que já pou­cas coi­sas me inte­res­sam ver­da­dei­ra­men­te e o meu pen­sa­men­to foge cada vez mais para um sem núme­ro de abs­trac­ções que, como jogos de pala­vras, vão toman­do forma sem con­teú­do defi­ni­do. Some-se a esse desin­te­res­se gene­ra­li­za­do a minha carac­te­rís­ti­ca difi­cul­da­de de con­cen­tra­ção e foco, e temos o que se sabe de mim. Esta con­di­ção tem vindo a sur­tir um efei­to cada vez mais per­ni­ci­o­so à saúde das minhas rela­ções com os que me rodei­am. A ver­da­de é que estou a parir um velho iras­cí­vel e irri­tan­te na sua impa­ci­ên­cia para com a deman­da alheia, por­que de repen­te tudo é alheio e deman­da, e nesta arro­gân­cia nega­tó­ria da mais sim­ples con­tra­di­ção, por­que tudo se con­tra­diz com sim­pli­ci­da­de. Enfim, este não há pachor­ra” per­ma­nen­te cha­teia qual­quer um, espe­ci­al­men­te a mim pró­prio – e eis que, ao sabor da von­ta­de da cane­ta, chego a uma con­clu­são ful­cral: abor­re­ço-me a mim pró­prio.

Diga-se porém, que esta con­di­ção tem tam­bém cau­sas exter­nas, como não pode­ria dei­xar de ser, uma vez que somos o soma­tó­rio de todas as coi­sas que nos rodei­am, as exis­ten­tes e as ine­xis­ten­tes. Pode­ría­mos dizer que, no que ao pen­sa­men­to con­cer­ne, nada é bom ou mau até que assim o jul­gue­mos, como um dia expli­cou Ham­let a Rozen­crantz, mas per­mi­to-me dis­cor­dar. A His­tó­ria ensi­na-nos que cada con­sequên­cia pro­vém de uma acção, e que cada acção é resul­ta­do de um pen­sa­men­to – e que o pen­sa­men­to, na His­tó­ria, nada mais é do que a inter­sub­jec­ti­vi­da­de que o zeit­geist ofe­re­ceu em deter­mi­na­da época. E ensi­na-nos que exis­tem con­sequên­ci­as benig­nas e malig­nas, em todo o seu espec­tro de benig­ni­da­de ou malig­ni­da­de. Quero desta forma ata­ba­lho­a­da dizer que exis­te um sem núme­ro de pen­sa­men­tos cor­ren­tes que aju­da­ram a este meu com­por­ta­men­to, a esta coisa do não há pachor­ra” que osci­la entre o san­guí­neo e o bili­o­so. Na ver­da­de, são mais modas do que pen­sa­men­tos: o nihi­lis­mo frí­vo­lo do baco­co-bur­guês, o mono­cro­ma­tis­mo con­fun­di­do com radi­ca­lis­mo ser­vi­do em memes revo­lu­ci­o­ná­ri­os, o pen­sa­men­to žiže­ko-face­bo­o­ki­a­no.

Nada disto me inco­mo­da­ria se eu não me reco­nhe­ces­se em cada uma des­sas modas, e se não sou­bes­se que elas não são mais do que con­sequên­cia da igno­rân­cia galo­pan­te que nos assal­ta com cada vez mais força. E inco­mo­dar-me-ia ainda menos se não sou­bes­se que estas modas tra­zem con­sequên­ci­as que são já visí­veis e cuja impor­tãn­cia não pode ape­nas ser medi­da pelo nosso jul­ga­men­to, aqui e agora, já que não pas­sa­mos de meros acto­res ama­do­res da His­tó­ria do tempo pre­sen­te. Mas a His­tó­ria é cir­cu­lar, e o dese­nho de cada ciclo ape­nas dife­re na ampli­tu­de do seu arco. Deve­ría­mos já ter apren­di­do algo, mas a igno­rân­cia tolda-nos e o espí­ri­to crí­ti­co não passa de um tolo achis­mo ou de uma cha­la­ça ama­re­la­da. É real­men­te mais sim­ples dis­cor­dar por­que acha­mos que. Ou de dife­rir a com­ple­xi­da­de de um assun­to para uma pia­do­la de enfant ter­ri­ble. Ou de reci­tar um mani­fes­to comu­nis­ta, capi­ta­lis­ta, anti-racis­ta, queer, ou fas­cis­ta, a pro­pó­si­to de qual­quer coisa ou de coisa algu­ma. Ou de dizer, em pose decla­ra­ti­va, que nada disso inte­res­sa, vamos todos mor­rer. Nada como usar uma más­ca­ra de cir­cuns­tân­cia e man­ter o esti­lo.

Ima­gem: The His­tory Bluff

Um burro car­re­ga­do de livros é um dou­tor, diz a sabe­do­ria popu­lar fre­quen­te­men­te erra­da. Um burro car­re­ga­do de livros é ape­nas um burro que pode­ria estar car­re­ga­do de outra coisa qual­quer, pois mais não faz do que car­re­gar o objec­to sem saber da sua essên­cia. Para esse burro, os livros repre­sen­tam ape­nas peso, assim como para quan­tos de nós o conhe­ci­men­to nada mais é do que um fardo de cujo peso ten­ta­mos liber­tar-nos assim que pos­sí­vel, osten­tan­do a arro­gân­cia devi­da ao acto, dizen­do algo como vou ter de ver isso com mais aten­ção”, como se efec­ti­va­men­te o fôs­se­mos fazer, como se efec­ti­va­men­te seja­mos capa­zes de apoi­ar o nosso achis­mo com novas e impres­si­o­nan­tes des­co­ber­tas entre dois perío­dos de tra­ba­lho, duran­te uma pausa para um cigar­ro. Eu tenho a sorte de conhe­cer pes­so­as que sabem mais do que eu acer­ca da mai­o­ria das coi­sas. São essas pes­so­as quem, com enor­me paci­ên­cia, atu­ram o meu achis­mo e tra­tam de con­tex­tu­a­li­zar as coi­sas, expli­can­do-me como elas se apre­sen­tam na minha rea­li­da­de. E se, no míni­mo, reco­nhe­ço a minha igno­rân­cia, a eles o devo e agra­de­ço. São esses os meus paci­en­tes ami­gos.

Fora eles, nada mais me auxi­lia a enten­der o mundo e, em suma, a minha vida. A esco­la que fre­quen­tei espo­ra­di­ca­men­te e que nunca aca­bei por­que sem­pre detes­tei salas de aula que mais não são do que uma espé­cie de Reader’s Digest onde não cabe um míni­mo de curi­o­si­da­de ou crí­ti­ca, a elite infor­ma­da que não gosta de trans­fe­rir o conhe­ci­men­to por­que este é poder e por­que o poder, sabe­mos, não pode ser entre­gue à praça, a comu­ni­ca­ção soci­al entre­ti­da no fait-divers e inca­paz de inves­ti­ga­ção, de jor­na­lis­mo pro­pri­a­men­te dito, ou de mini­ma­men­te con­tex­tu­a­li­zar o facto na rea­li­da­de do lei­tor, ou mesmo os cien­tis­tas e filó­so­fos que, agora trans­for­ma­dos em rock-stars, enten­dem que para a popu­la­ça nada mais é neces­sá­rio do que um meme publi­ca­do numa das redes soci­ais, que de meme em meme se vende um livro ou uma con­fe­rên­cia, os polí­ti­cos inca­pa­zes de uma solu­ção, de pre­sos que estão na real poli­tik dos com­pro­mis­sos e rea­li­da­des estra­té­gi­cas que mais não são do que cedên­ci­as à per­pe­tu­a­ção do sta­tus quo e à manu­ten­ção do lugar na fila para a entra­da no mundo dos VIP do poder. Na ver­da­de há muito mais gente a abor­re­cer-me.

Cada vez mais fre­quen­te­men­te dou comi­go a pen­sar por pen­sar, indo­len­te, sem con­sequên­cia que não se tra­du­za na desis­tên­cia a curto prazo, dei­xan­do de lado a tra­ba­lhei­ra de dali tirar con­clu­sões ou novas per­gun­tas sequer. A ver­da­de é que já pou­cas coi­sas me inte­res­sam ver­da­dei­ra­men­te e o meu pen­sa­men­to foge cada vez mais para um sem núme­ro de abs­trac­ções que, como jogos de pala­vras, vão toman­do forma sem con­teú­do defi­ni­do. Como se fos­sem um post num blog qual­quer.

Os Filhos do Homem

Em Chil­dren of Men fica­mos a conhe­cer uma huma­ni­da­de infér­til e já sem cri­an­ças, des­ti­na­da à extin­ção a breve prazo. Essa mesma huma­ni­da­de recu­sa a entra­da de imi­gran­tes, pren­den­do-os em cam­pos de con­cen­tra­ção enquan­to não são expul­sos do ter­ri­tó­rio. O filme é bem des­cri­ti­vo dessa rea­li­da­de: gente enjau­la­da e cer­ca­da por polí­ci­as e cães, sujei­ta a toda abru­ta­li­da­de de polí­ci­as e civis, e final­men­te encar­ce­ra­da em ghet­tos, esque­ci­da pela rea­li­da­de quo­ti­di­a­na da urbe. Para­do­xal­men­te, a notí­cia da pos­sí­vel sal­va­ção desta huma­ni­da­de surge pela bar­ri­ga grá­vi­da de Kee, uma imi­gran­te ile­gal – e eis a aven­tu­ra, quase secun­dá­ria. A fic­ção passa-se em 2027.

Na rea­li­da­de de 2018, a For­ta­le­za Euro­pa sofre uma crise de nata­li­da­de, acom­pa­nhan­do a ten­dên­cia dos paí­ses do hemis­fé­rio Norte. Esti­ma-se que, man­ten­do os parâ­me­tros actu­ais, possa haver uma perda de pelo menos 5 milhões de pes­so­as até 2050, o equi­va­len­te a 50 milhões na popu­la­ção acti­va. Por­tu­gal per­de­rá 1,1 milhões de pes­so­as, pas­san­do para os 9,2 milhões na tota­li­da­de. Enquan­to isso, o Norte de Áfri­ca pode­rá ver a sua popu­la­ção aumen­tar em 130 milhões de pes­so­as, o que sem dúvi­da repre­sen­ta uma exce­len­te opor­tu­ni­da­de para o equi­lí­brio das con­tas euro­pei­as. Demo­gra­fia, pura e sim­ples, a ape­lar às moti­va­ções eco­nó­mi­cas para a cap­ta­ção de imi­gra­ção.

O pro­ble­ma é que esta moti­va­ção não é sufi­ci­en­te, já que essa é a que pre­si­de agora ao nume­rus clau­sus euro­peu, por con­ve­ni­ên­cia e, dizem alguns, pela limi­ta­ção da capa­ci­da­de de aco­lhi­men­to. Este tipo de moti­va­ção, a eco­nó­mi­co-finan­cei­ra, ape­nas serve para limi­tar o aco­lhi­men­to a quem foge da guer­ra, da per­se­gui­ção polí­ti­ca, do geno­cí­dio, da misé­ria, da doen­ça e da morte, dando con­ti­nui­da­de ao que sem­pre fize­mos dos povos do hemis­fé­rio sul, espe­ci­al­men­te dos afri­ca­nos: são nada mais do que recur­sos, quer sejam usa­dos local­men­te como mão de obra bara­ta, quer sejam usa­dos na Euro­pa, pelos mes­mos moti­vos.

Este tipo de limi­ta­ções agra­dam espe­ci­al­men­te à extre­ma-direi­ta euro­peia e às fai­xas popu­la­ci­o­nais onde o défi­ce de edu­ca­ção é pal­pá­vel, e que assu­mem cada vez mais impor­tân­cia como fac­tor de deci­são polí­ti­ca. Essa pres­são é facil­men­te veri­fi­ca­da pela cedên­cia de Mer­kel aos báva­ros que a acom­pa­nham no poder e, com ela, a Euro­pa que assim se trans­for­ma na mais ridí­cu­la hipo­cri­sia jamais vista na His­tó­ria: con­de­na Trump em unís­so­no pela impo­si­ção de muros e deten­ção de famí­li­as intei­ras em cam­pos de con­cen­tra­ção, enquan­to asso­bia para o lado des­lo­ca­li­zan­do os seus pró­pri­os cam­pos de con­cen­tra­ção.

Como se isso não bas­tas­se, a Ale­ma­nha, com toda a sua His­tó­ria pela qual pede des­cul­pas recor­ren­te­men­te, deci­de agora cons­truir três cam­pos de con­cen­tra­ção na Bavi­e­ra. O eco bafi­en­to do pas­sa­do resi­de agora por ali, na zona Aus­tro-Hún­ga­ro-Ger­ma­no-Ita­li­a­na, com o habi­tu­al apoio da Tur­quia. Não apren­de­mos nada com a His­tó­ria, e a prova disso é a forma como os gover­nan­tes euro­peus saú­dam a solu­ção”, que por enquan­to não é final”, como uma vitó­ria da Euro­pa, como o desen­ve­ci­lhar de uma crise, como o sal­va­men­to do Euro, da Euro­pa e, enfim, da huma­ni­da­de que se resu­me, afi­nal, ao Velho Con­ti­nen­te.

Isto já não são sinais. São cla­ras evi­dên­ci­as da vitó­ria de extre­mis­tas como Orbán, Erdoğan, Kurz, Wil­ders, Sal­vi­ni, ou Pol­son sobre o supos­to huma­nis­mo euro­peu. Não são mais do que um regres­so à idade das tre­vas euro­peia, a não ser que faça­mos algo, já. No pró­xi­mo ano de 2019, em Maio, tere­mos novas elei­ções euro­pei­as, e é altu­ra de os par­ti­dos que não ali­nhem nesta polí­ti­ca assas­si­na se reve­la­rem e faze­rem uma cam­pa­nha de sen­si­bi­li­za­ção para o curso que a His­tó­ria está a tomar, e com­ba­ter o popu­lis­mo fácil da segre­ga­ção com men­sa­gens efi­ca­zes acer­ca dos bene­fí­ci­os da inclu­são e do huma­ni­ta­ris­mo.

Afi­nal, qual de nós está livre de um dia ser um refu­gi­a­do? Eu, não estou cer­ta­men­te. E tu?

Ghetto Hygge

Danish Royals
– Tho­mas Kluge, Famí­lia Real Dina­mar­que­sa, Colec­ções Reais Dina­mar­que­sas

Come­ce­mos pelo que por enquan­to não vai acon­te­cer: as cri­an­ças não vão estar sujei­tas a reco­lher obri­ga­tó­rio a par­tir das 20:00 horas, con­tro­la­das por pul­sei­ra elec­tró­ni­ca, como propôs o Par­ti­do Popu­lar Dina­marquês. Agora, a expli­ca­ção acer­ca de quem são essas cri­an­ças: são as cri­an­ças do ghet­to”, assim cha­ma­das já ofi­ci­al­men­te pelo menos desde o dis­cur­so de ano novo de Ras­mus­sen, o pri­mei­ro minis­tro dina­marquês, que avisa: Rachas apa­re­cem no mapa da Dina­mar­ca. Estou pro­fun­da­men­te pre­o­cu­pa­do. Por­que os ghet­tos tam­bém esten­dem os seus ten­tá­cu­los nas ruas onde gru­pos cri­mi­no­sos criam inse­gu­ran­ça.” E, por fim, o que vai acon­te­cer: A par­tir do pri­mei­ro ano de idade, as cri­an­ças que vivam nos ghet­tos vão ser obri­ga­das a viver pelo menos 25 horas sema­nais sepa­ra­das dos pais, com o objec­ti­vo fre­quen­tar a for­ma­ção obri­ga­tó­ria acer­ca dos valo­res dina­mar­que­ses”, incluin­do as tra­di­ções do Natal e da Pás­coa, a par da lín­gua dina­mar­que­sa. A par desta medi­da, outras irão a votos no Outo­no pró­xi­mo, cons­tan­tes de um grupo de 22 pro­pos­tas. Uma delas é a de punir o crime ocor­ri­do nes­ses ghet­tos com o dobro da força, como pro­pos­to pelo minis­tro da Jus­ti­ça Pol­son, ou a de proi­bir visi­tas pro­lon­ga­das aos paí­ses de ori­gem, as cha­ma­das via­gens de re-edu­ca­ção”. O resto conta-se no The New York Times.

Mar­ce­lo disse dos por­tu­gue­ses que somos os nór­di­cos do sécu­lo XXI”. Mar­cel­lus disse a Horá­cio que Algo está podre no Reino da Dina­mar­ca”. Eu vou pelo segun­do, embo­ra ambos este­jam cer­tos.

Choose Life.

Acon­te­ceu no pas­sa­do São João eu che­gar a uma con­ver­sa no momen­to em que eram dis­cu­ti­das as decla­ra­ções de um artis­ta que con­fes­sou o con­su­mo de coca e outras subs­tân­ci­as a um órgão de comu­ni­ca­ção soci­al. Um dos con­vi­vas era da opi­nião de que o artis­ta não deve­ria ter pro­fe­ri­do tais decla­ra­ções, algo que reba­ti dizen­do que, se é uma ver­da­de, não exis­te moti­vo para que o omita. O homem res­pon­deu-me dou­to­ral­men­te como se as suas pala­vras saís­sem agora mesmo da agi­li­da­de da sua mente, pres­tes a serem talha­das em pedra, dizen­do que A minha liber­da­de acaba onde come­ça a dos outros”. Con­tes­tei, dizen­do sim­ples­men­te que, pelo con­trá­rio, a minha liber­da­de pro­lon­ga-se na dos outros e que, se assim não for, aca­ba­re­mos numa situ­a­ção em que nin­guém é livre, um con­jun­to de liber­da­de­zi­nhas peque­ni­nas cons­tan­te­men­te sufo­ca­das umas pelas outras. Ia explo­rar isto quan­do ele me res­pon­deu o fami­ge­ra­do É a minha opi­nião”, que é aque­la expres­são que acaba com qual­quer con­ver­sa, não por­que não o seja ou ele não tenha direi­to à sua opi­nião, mas por­que impli­ca a con­di­ção de que sendo-o não está sujei­ta a dis­cus­são. Esta­va na hora de virar as cos­tas à con­ver­sa e pro­cu­rar a sau­dá­vel con­ver­se­ta junto à gre­lha, que é onde me sinto melhor nes­tes even­tos.

Igualdade, fraternidade, liberdade _ Paris, setembro_2008. _ Flickr
Foto: Cris­ti­a­no Sca­bel­lo

Con­si­de­ro a frase A minha liber­da­de acaba onde come­ça a dos outros” como uma espé­cie de adá­gio popu­lar que, por falta de aná­li­se, é repe­ti­da­men­te dita enquan­to ver­da­de fun­da­men­tal, na ten­ta­ti­va de expli­car ao outro a res­pon­sa­bi­li­da­de no exer­cí­cio da liber­da­de indi­vi­du­al face ao grupo, porém esque­cen­do que abre a pos­si­bi­li­da­de do opos­to, dei­xan­do poder ser dito que A liber­da­de dos outros acaba onde a minha come­ça”. Enfim, é uma frase tris­te, pró­pria de quem con­fun­de limi­ta­ções com res­pon­sa­bi­li­da­de e, sobre­tu­do, de quem não enten­de que só exis­te liber­da­de indi­vi­du­al numa soci­e­da­de tam­bém ela livre. Fra­ses como A minha liber­da­de acaba onde come­ça a dos outros” vêm da mesma lavra que, por exem­plo, O res­pei­ti­nho é muito boni­to”. São resquí­ci­os de uma men­ta­li­da­de que per­du­rou mui­tas déca­das e que se veri­fi­ca estar ainda embe­bi­da na cul­tu­ra pre­sen­te, pelo menos nos gru­pos em que a dis­tân­cia ao poder é ainda muito gran­de, e cujas expec­ta­ti­vas para a vida são fre­quen­te­men­te gera­das exter­na­men­te, e não de moto pró­prio. Fra­ses como esta são, de resto, per­fei­ta­men­te com­pa­tí­veis com a fabu­lo­sa É a minha opi­nião” que, vendo bem, me diz Esta é a minha liber­da­de, limi­ta lá a tua por­que a par­tir deste momen­to não a podes exer­cer”.

Diga-se em abono da ver­da­de que dizer, como eu disse, que A minha liber­da­de pro­lon­ga-se na dos outros” é tam­bém uma espé­cie de dee­pity, embo­ra mais inclu­si­va e, cha­me­mos-lhe assim, demo­crá­ti­ca. No entan­to, tam­bém ela não esca­pa a uma aná­li­se mais apro­fun­da­da a par­tir do momen­to em que con­si­de­re­mos que uma soci­e­da­de livre tem um con­jun­to de regras que per­mi­tem, entre outros, a puni­ção dos que não cum­prem esses pre­cei­tos, puni­ção essa que inclui pri­são e, por vezes, morte. Na ver­da­de, uma soci­e­da­de livre e demo­crá­ti­ca prevê nos seus códi­gos de con­du­ta que o indi­ví­duo que pre­va­ri­que seja iso­la­do dos res­tan­tes ele­men­tos. Exis­te, no entan­to, algo em favor desta frase: ela refe­re o usu­fru­to da liber­da­de res­pon­sá­vel que, a acon­te­cer, se trata da liber­da­de indi­vi­du­al usu­fruí­da em fun­ção de uma soci­e­da­de livre, uma soci­e­da­de em que cada um de nós exer­ce o seu papel con­so­an­te as suas pos­si­bi­li­da­des, con­tri­buin­do acti­va­men­te para o bem-estar comum. Mas a per­gun­ta impõe-se: é isso ser livre? Have­rá quem diga que não, que a par­tir do momen­to em que a menor das limi­ta­ções é impos­ta, então não há lugar para a pala­vra liber­da­de”. Com­pre­en­do e, em parte, acei­to essa ideia. No entan­to, neste caso as úni­cas limi­ta­ções são a res­pon­sa­bi­li­da­de indi­vi­du­al e a lei.

Constituição da República Portuguesa 1976
Foto: Par­la­men­to

Pondo de parte a res­pon­sa­bi­li­da­de indi­vi­du­al, fruto da edu­ca­ção do indi­ví­duo e da sua pre­dis­po­si­ção para a vida em grupo, cabe à lei o tra­ba­lho de nive­lar direi­tos e deve­res, garan­tin­do ao indi­ví­duo o direi­to à expres­são da sua liber­da­de enqua­dra­da na igual­da­de de direi­tos e deve­res de cada um de todos os que com­põem o grupo. Dizer­mo-nos indi­ví­du­os livres num grupo sem igual­da­de de direi­tos e deve­res é o mesmo que dizer­mos que, con­tra­ri­a­men­te aos outros, vemos o exer­cí­cio da nossa von­ta­de com­ple­ta­men­te cum­pri­do, mau grado uma parte do grupo não con­si­ga ver a sua von­ta­de satis­fei­ta – e dessa forma dize­mos que a liber­da­de des­ses ele­men­tos aca­bou onde come­çou a nossa, sendo espar­ti­lha­da por ela. Temos então dois sub-gru­pos, uma elite e a massa anó­ni­ma que se limi­ta a cum­prir as regras. Para­do­xal­men­te, este é um dos efei­tos da demo­cra­cia, o da dita­du­ra da mai­o­ria”. Mas é muito mais visí­vel em soci­e­da­des tota­li­tá­ri­as, em que na ver­da­de nem a elite é livre devi­do aos com­pro­mis­sos assen­tes para a manu­ten­ção do statu quo, mas cujas opor­tu­ni­da­des são muito mai­o­res e, con­se­quen­te­men­te, vêem as suas von­ta­des cum­pri­das muito mais facil­men­te. É nesse aspec­to que, numa soci­e­da­de demo­crá­ti­ca e livre, a lei cum­pre um papel fun­da­men­tal. A ano­mia não é garan­te de liber­da­de, por­que não garan­te a igual­da­de, e nem uma soci­e­da­de anar­quis­ta sobre­vi­ve sem lei.

Então, após este con­fu­so intrói­to, per­gun­te­mo-nos uma vez mais: somos livres? Exis­te a pos­si­bi­li­da­de de ser­mos real­men­te livres? Há quem diga que sim. São os casos de Sar­tre, Espi­no­za, Leib­niz ou Pecot­che quem, de uma ou de outra forma, ins­cre­vem a liber­da­de numa onto­lo­gia do ser. Já Scho­pe­nhau­er, Marx, Des­car­tes, Debord e Pet­tit abor­dam limi­ta­ções ao exer­cí­cio pleno da liber­da­de, desde logo pelas con­di­ções impos­tas exter­na­men­te ao indi­ví­duo, sejam elas polí­ti­cas, eco­nó­mi­cas ou mesmo do real conhe­ci­men­to dos fac­to­res que ori­gi­nam as expec­ta­ti­vas de cada um de nós. No meu caso, atri­buo espe­ci­al impor­tân­cia a Karl Marx, Guy Debord e Phi­lip Pet­tit que, de certa forma, recu­pe­ram as ques­tões semi­nais de Hegel e de Kant, com o pri­mei­ro a inda­gar acer­ca da vali­da­de meta­fí­si­ca da liber­da­de enquan­to opta por uma con­cep­ção prá­ti­ca do seu exer­cí­cio e, o segun­do, a pro­por o que é pro­va­vel­men­te a dúvi­da mais essen­ci­al de toda esta maté­ria: exis­te liber­da­de da von­ta­de? Digo isto por­que o trio Marx/​Debord/​Pettit pare­ce-me ser o que lida com a nossa actu­a­li­da­de de forma mais rea­lis­ta, empres­tan­do à Filo­so­fia uma per­so­na­li­da­de mais prá­ti­ca do que nunca. Por exem­plo, Debord diz-nos que a liber­da­de de esco­lha é uma ilu­são, já que nos limi­ta­mos a esco­lher de entre o que nos é pro­pos­to, como numa ida a um pron­to-a-ves­tir.

O capi­ta­lis­mo pro­põe-nos a liber­da­de única do con­su­mo num quo­ti­di­a­no hie­rar­qui­za­do e divi­di­do entre tempo de tra­ba­lho para a pro­du­ção do lucro de outrem, e tempo de lazer que mais não é do que o tempo de rea­li­zar esco­lhas de entre aqui­lo que pro­du­zi­mos com o nosso tra­ba­lho. Com o adven­to da Inter­net e espe­ci­al­men­te depois do sur­gi­men­to das redes soci­ais, o con­su­mo e o tempo de lazer são, em gran­de parte, fei­tos e pas­sa­dos em pla­ta­for­mas gra­tui­tas onde, para além de con­ti­nu­ar­mos a com­prar o que pro­du­zi­mos, somos agora nós pró­pri­os um pro­du­to. É, por­tan­to, impor­tan­te repen­sar­mos a nossa liber­da­de den­tro deste qua­dro em que nos move­mos, o do capi­ta­lis­mo, das indús­tri­as cul­tu­rais, e da detur­pa­ção do con­cei­to de demo­cra­cia repu­bli­ca­na, já que a domi­na­ção é, mais do que nunca, pre­sen­te sob as mais vari­a­das for­mas e dis­far­ces, a come­çar pelo pro­ver­bi­al A minha liber­da­de acaba onde come­ça a dos outros” que, não sendo acer­ta­da, é ainda assim uma infe­liz rea­li­da­de. Esta refle­xão não pode, con­tu­do, levar a que o capi­ta­lis­mo venha a ser subs­ti­tui­do por qual­quer forma de opos­to tota­li­tá­rio, como tem vindo a acon­te­cer ao longo da His­tó­ria, mesmo da mais recen­te. Toda e qual­quer forma polí­ti­ca deve ser demo­crá­ti­ca, liber­tá­ria e igua­li­tá­ria, seja ela uma soci­al-demo­cra­cia, um soci­a­lis­mo ou um anar­quis­mo.

Há que rea­va­li­ar a actu­al forma de fazer a demo­cra­cia. Deter­mi­nar quais são os acto­res neces­sá­ri­os e eli­mi­nar o máxi­mo pos­sí­vel de medi­a­do­res da von­ta­de soci­al. Rea­va­li­ar os cen­tros de deci­são e torná-los estru­tu­ras ele­gan­tes para solu­ções ele­gan­tes. Dimi­nuir o esta­do, des­cen­tra­li­zan­do os seus pro­ces­sos medi­an­te a maior res­pon­sa­bi­li­za­ção das autar­qui­as ou comu­nas. Colo­car em prá­ti­ca medi­das efec­ti­vas de dis­tri­bui­ção de rique­za. Inves­tir mais na edu­ca­ção do que na defe­sa. Inves­tir mais na saúde públi­ca. Inves­tir na qua­li­da­de de vida dos tra­ba­lha­do­res. Inves­tir nos salá­ri­os. Inves­tir na nata­li­da­de. Temo que ape­sar da sua pos­sí­vel ambi­gui­da­de deva con­ti­nu­ar a defen­der a minha tese de que A minha liber­da­de pro­lon­ga-se na dos outros”, e temo que esta defe­sa não passe ao lado da pro­cu­ra de uma nova forma de ser polí­ti­co”, longe da doxa e do mono­li­tis­mo, de teo­ri­as eco­nó­mi­cas que ape­nas pre­vêm o suces­so do sis­te­ma, longe do finan­cei­ris­mo”, longe da limi­ta­ção da minha liber­da­de pela liber­da­de dos outros, e mais perto de cada um de nós, per­mi­tin­do-nos cum­prir a nossa von­ta­de e, com ela, a von­ta­de de toda a soci­e­da­de. Cho­o­se life, deman­dons l’impossible.

Psicodiscografia: Saul Williams – Punk is the New Black

Saul Wil­li­ams, Burun­di”, do álbum Martyr Loser King” (álbum) (letras) (filme)

Run­nin’ down a dark stre­et, app that got a flash­light
Nike swo­osh on bare feet, Whit­ney Houston’s crack pipe
The gre­a­test love of all, watch me rise to watch me fall
Con­tem­pla­ting, rent is late in hou­ses that I can’t afford
Show my papes at Heaven’s gates, they ask me for my visa
Lived a life without no hate so tell me what you need, sir?
Ques­ti­on your autho­rity, geno­ci­de and poverty
Tre­a­ti­es don’t nega­te the fact you’re dea­ling sto­len pro­perty
Hac­ker, I’m a hac­ker, I’m a hac­ker in your hard drive
Hun­dred thou­sand dol­lar Tesla rip­ping through your hard drive
Oh, Jesus, pull the cord, seat belt, what you stan­ding for?
Buc­kle up, let’s knuc­kle up and tell Moham­med bring his sword

I’m a can­dle, I’m a can­dle
Chop my neck a mil­li­on times, I still burn bright and stand, yo
Vigil in the mid­dle of your occu­pi­ed loca­ti­ons
One that burns for haters, one that burns for Hai­ti­ans
I’m a can­dle, I’m a can­dle
Chop my neck a mil­li­on times, I still burn bright and stand, yo
Stan­ding in the mid­dle of your syna­go­gue and cha­pel
Lic­king that for­bid­den fruit through bit­ten glowing apples

Fac­to­ri­es in China, col­tan from the Congo
Smug­gled to Burun­di hid­den in a bongo
We beat a mighty drum, chan­ge his login fore they come
Guns and ammu­ni­ti­on pay tui­ti­on for the deaths be young
Hac­ker, I’m a hac­ker, I’m a hac­ker in your hard drive
There ain’t no secu­rity, I’m hac­king through your hard drive
Infor­ma­ti­on highway, tun­nel visi­on highway
Exit 17, yo, bring them mother­fuc­kers my way
Virus, I’m a virus, I’m a virus in your sys­tem
Fuck your his­tory tea­cher, bitch, I’ve never been a vic­tim
I’m just a wit­ness, Hitler can come get this
Rab­bis in Ramal­lah throwing bur­kas on these bit­ches

I’m a can­dle, I’m a can­dle
Chop my neck a mil­li­on times, I still burn bright and stand, yo
Vigil in the mid­dle of your occu­pi­ed loca­ti­ons
One that burns for haters, one that burns for Hai­ti­ans
I’m a can­dle, I’m a can­dle
Chop my neck a mil­li­on times, I still burn bright and stand, yo
Bur­ning in the mid­dle of your mos­ques and in your cha­pel
Lic­king that for­bid­den fruit through bit­ten glowing apples

bLógica: Retalhos da Vida Anónima

barbearia
Foto dis­po­ní­vel em Pixa​bay​.com

Esta série de posts no Pan­das e Demó­ni­os é um blog em si e é o que este semi​o​se​.net deve­ria ser. O que Bjorn Pal faz por lá é, na ver­da­de, o géne­ro de coisa que mais me apraz fazer e para a qual tenho mais jeito. Mas as coi­sas são o que são, e aque­le vaipe anda muito fugi­dio. Gra­ças aos céus dos blogs, vai­pes não fal­tam ao Bjorn, e o pro­du­to lá está dis­po­ní­vel para o meni­no e para a meni­na, de borla. Vá, então saia daqui e vá ler algo de jeito.

Koko

Koko tinha um gato cha­ma­do All Ball. Se um gato e o seu nome não são rele­van­tes, já o facto de uma gori­la ter um gato como amigo não é tão cor­ren­te assim, espe­ci­al­men­te quan­do o nome do gato é esco­lhi­do pela pró­pria gori­la. Koko con­se­guiu arran­jar um nome para o gato devi­do à sua apren­di­za­gem lin­guís­ti­ca: sabia mais de mil ges­tos da Lin­gua­gem Ges­tu­al Ame­ri­ca­na, e enten­dia mais de duas mil pala­vras em Inglês cor­ren­te. Koko veio a ser repre­sen­ta­ti­va de duas coi­sas extre­ma­men­te impor­tan­tes.

A pri­mei­ra, quase óbvia, trata-se da pos­si­bi­li­da­de de comu­ni­ca­ção inter-espé­ci­es. Com efei­to, tor­nou-se claro que outros ani­mais são capa­zes de apren­der a nossa lin­gua­gem e de comu­ni­car efec­ti­va­men­te. Koko não se limi­ta­va a uma comu­ni­ca­ção bási­ca, con­se­guin­do expres­sar raci­o­cí­ni­os intei­ros de uma com­ple­xi­da­de que não jul­gá­va­mos pos­sí­vel nou­tros ani­mais, o que nos leva à segun­da coisa muito impor­tan­te que Koko repre­sen­ta­va.

Koko ver­ba­li­za­va sen­ti­men­tos, por vezes com­ple­xos, de amor ou desa­gra­do, de medo, de aviso e de perda, como se veri­fi­cou pelo luto que fez à morte dos seus ami­gos Micha­el, um gori­la, e Robin Wil­li­ams, um huma­no. Pas­sou a ser, de algu­ma forma, a repre­sen­tan­te da alma” dos ani­mais, esses mes­mos que con­ti­nu­a­mos a matar por moti­vos que nos colo­cam a nós, huma­nos, uns quan­tos degraus abai­xo deles na esca­la moral da Natu­re­za.

Koko nas­ceu Hana­bi-ko („Filha do Fogo de Arti­fí­cio”, em tra­du­ção apres­sa­da) no tão ame­ri­ca­no Dia da Inde­pen­dên­cia de 1971, e foi jun­tar-se a Micha­el em 10 de Junho deste ano, num céu que, a exis­tir, já é de todos os ani­mais. Koko mor­reu e com ela mor­reu mais um pouco da huma­ni­da­de. Resta-nos Ndume e todos os outros ani­mais, incluin­do os huma­nos. Apro­vei­te­mos.

Psicodiscografia: A Private Understanding

Pode­mos socor­rer-nos das já mui­tas entre­vis­tas a Joe Casey, ou pas­sar pelo Genius e con­fi­ar nos con­tri­bu­tos que por lá são escri­tos, na ten­ta­ti­va de desen­crip­tar a letra de A Pri­va­te Unders­tan­ding” dos Pro­to­martyr, e ainda assim ficar­mos com algu­mas dúvi­das. That’s how I bar my door”, diz-nos o autor, após escla­re­cer que tudo o que se pas­sa­rá além dessa porta dei­xou de ser da sua res­pon­sa­bi­li­da­de – Not by my own hand; Nor by my own voice” -, e des­pe­din­do-se o nar­ra­dor outros acto­res tomam o palco.

A Pri­va­te Unders­tan­ding” é, por outro lado, uma daque­las can­ções que bene­fi­ci­am do vídeo. Foi por aí, aliás, que me apai­xo­nei por esta can­ção. O moti­vo para tal é sim­ples e banal: iden­ti­fi­co-me com o per­so­na­gem que ali fala de forma apa­ren­te­men­te des­co­ne­xa acer­ca dos mais dís­pa­res assun­tos a uma audi­ên­cia que com ele pouco mais par­ti­lha do que o espa­ço, rode­an­do-os de refe­rên­ci­as polí­ti­cas, reli­gi­o­sas, filo­só­fi­cas, por entre o fumo do taba­co e o aroma da cer­ve­ja, sen­ta­do numa cadei­ra que mais não faz do que supor­tar o seu enve­lhe­ci­men­to.

É ver­da­de que tudo o que pos­sa­mos dizer tem um sig­ni­fi­ca­do ínti­mo. É o caso da frase She’s just trying to reach you”, incluí­da na letra sem moti­vo apa­ren­te senão o de ter sur­gi­do por acaso na cabe­ça de Casey. Para além da músi­ca em si, é esta ale­a­to­ri­e­da­de apa­ren­te tor­na­da poe­sia que trans­for­ma A Pri­va­te Unders­tan­ding” numa des­sas can­ções que me acom­pa­nham desde que a ouvi pela pri­mei­ra vez. Junte-se-lhe ima­gem e obte­mos este fabu­lo­so vídeo que é já uma das minhas cur­tas metra­gens pre­fe­ri­das dos últi­mos tem­pos.