#4

Mupis
  cjt | 16.06.2020

São ob­jectos quo­ti­di­anos, es­pé­cies ar­qui­tec­tó­nicas da pai­sagem ur­bana, algo como um mupi que nos in­forma da exis­tência de ou­tras li­nhas de re­a­li­dade. Pas­samos por eles sem os ver à força de tanto serem vistos nos lo­cais ha­bi­tuais e, quando calha re­pa­rarmos num deles, ra­pi­da­mente se trans­formam em in­trusos. É por isso que não nos im­por­tamos muito com a sua con­dição de mo­bi­liário ur­bano, com essa in­vi­si­bi­li­dade sempre vista através de fil­tros co­lo­ridos como luzes de Natal e co­letes re­flec­tores em noites frias de In­verno, ou na lu­mi­no­si­dade que sai de uma montra re­cuada que não tenha ainda os picos dis­su­a­sores da per­noita.

Sem-abrigo
Imagem: Sem-abrigo no Porto, autor des­co­nhe­cido

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Como, porque nos surgem eles, esses ob­jectos pe­nados da ci­dade? Há es­tudos que o es­cla­recem, feitos por cen­tenas, se não mi­lhares de es­ta­giá­rios, mes­trandos e dou­to­randos, mais os se­nhores da câ­mara e mais o Mar­celo que os ouve uma vez por ano, mas a ver­dade é que existem mo­tivos a mais para o seu sur­gi­mento, fa­ci­li­dade de­ma­siada para que qual­quer um de nós se trans­forme em mais um ob­jecto ur­bano, in­vi­sível, in­de­se­jado. Talvez por isso nos in­co­mode a sua pre­sença. E, sa­bemos bem, os olhos apenas veem o que querem ver. A nossa tão fa­lada nor­ma­li­dade é uma cons­trução em pa­ta­mares e, no que res­peita à com­pa­ração co­migo e com a mai­oria dos que se dão ao tra­balho de ver isto, eles estão bem lá abaixo.

#3

Whataboutery
  cjt | 15.06.2020

Acon­tece-me a mim e aos ou­tros, e a coisa tem ra­zões so­be­ja­mente co­nhe­cidas: a fa­ci­li­dade da par­tilha de con­teúdos que digam tanto ou mais do que eu po­deria dizer, e de forma ins­tan­tânea – e por isso su­jeita às ondas pro­du­toras do zeit­geist da bolha em que vi­vemos. Nunca antes houve tanto mundo, nunca antes saímos tão pouco para lá da fron­teira. Apenas a vo­ragem da opi­nião ins­tan­tânea, do meme, da in­dig­nação ao se­gundo me obri­ga­riam a es­crever o texto an­te­rior, que foi par­ti­lhado por aí, em nú­mero que me sur­pre­endeu. Na re­a­li­dade, não penso ter con­tri­buído muito para aquilo que de­veria estar a ser dis­cu­tido; antes caí na es­par­rela de ar­ra­nhar a su­per­fície em vez de es­cavar fundo, até ao sub­ter­râneo onde toda esta re­volta fer­menta – o ra­cismo, a xe­no­fobia, o clas­sismo.

Portugal é branco!
Imagem de autor des­co­nhe­cido

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Quase sem sur­presa, esses três temas in­con­tor­ná­veis foram afinal quase es­que­cidos. A dis­cussão é agora acerca de es­tá­tuas, dos tais ho­mens de palha. Em plena luta pelo pro­gresso ci­vi­li­za­ci­onal e pelos di­reitos hu­manos mais bá­sicos de qual­quer ser hu­mano, dis­cute-se o valor do totem. E en­quanto dis­cu­timos, por cá neste Por­tugal de brandos cos­tumes onde o ra­cismo não existe, pintam-se as pa­redes com ódio aos re­fu­gi­ados, os bairros so­ciais são in­va­didos pela po­lícia para fe­char cafés ou fazer testes de des­pis­tagem do vírus, um bairro de ci­ganos sofre con­fi­na­mento for­çado, mesmo ali ao lado de um ar­mazém que, por falta de con­di­ções de trans­porte pú­blico e de de­fi­ci­ente pro­tecção dos tra­ba­lha­dores se tornou um foco de pro­pa­gação.

#2

Acabar a História
  cjt | 12.06.2020

Straw Man

Não per­tenço a um Nobre Povo, a uma Nação Va­lente e Imortal, e muito menos dou ou­vidos a Egré­gios Avós que le­vantam a voz es­cu­tada das brumas da me­mória. Sou anti-na­ci­o­na­lista e, por isso, não vivo em mundos pas­sados dos quais não fiz parte. E por isso não sinto dever al­guma coisa a al­guém, a não ser todo o res­peito pelo outro, seja ele quem for, de que cor, sexo, etnia ou re­li­gião for. É isso que pra­tico di­a­ri­a­mente. Não ne­ces­sito de am­putar a His­tória, não me in­te­ressam os ho­mens de palha.