But, as Guérin noted, ‘When you sing in chorus you don’t feel hunger; you aren’t tempted to seek out the how and why of things. You must be right since there are fifty of you side by side, crying out the same refrain.
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But, as Guérin noted, ‘When you sing in chorus you don’t feel hunger; you aren’t tempted to seek out the how and why of things. You must be right since there are fifty of you side by side, crying out the same refrain.
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São objectos quotidianos, espécies arquitectónicas da paisagem urbana, algo como um mupi que nos informa da existência de outras linhas de realidade. Passamos por eles sem os ver à força de tanto serem vistos nos locais habituais e, quando calha repararmos num deles, rapidamente se transformam em intrusos. É por isso que não nos importamos muito com a sua condição de mobiliário urbano, com essa invisibilidade sempre vista através de filtros coloridos como luzes de Natal e coletes reflectores em noites frias de Inverno, ou na luminosidade que sai de uma montra recuada que não tenha ainda os picos dissuasores da pernoita.

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Como, porque nos surgem eles, esses objectos penados da cidade? Há estudos que o esclarecem, feitos por centenas, se não milhares de estagiários, mestrandos e doutorandos, mais os senhores da câmara e mais o Marcelo que os ouve uma vez por ano, mas a verdade é que existem motivos a mais para o seu surgimento, facilidade demasiada para que qualquer um de nós se transforme em mais um objecto urbano, invisível, indesejado. Talvez por isso nos incomode a sua presença. E, sabemos bem, os olhos apenas veem o que querem ver. A nossa tão falada normalidade é uma construção em patamares e, no que respeita à comparação comigo e com a maioria dos que se dão ao trabalho de ver isto, eles estão bem lá abaixo.
Acontece-me a mim e aos outros, e a coisa tem razões sobejamente conhecidas: a facilidade da partilha de conteúdos que digam tanto ou mais do que eu poderia dizer, e de forma instantânea – e por isso sujeita às ondas produtoras do zeitgeist da bolha em que vivemos. Nunca antes houve tanto mundo, nunca antes saímos tão pouco para lá da fronteira. Apenas a voragem da opinião instantânea, do meme, da indignação ao segundo me obrigariam a escrever o texto anterior, que foi partilhado por aí, em número que me surpreendeu. Na realidade, não penso ter contribuído muito para aquilo que deveria estar a ser discutido; antes caí na esparrela de arranhar a superfície em vez de escavar fundo, até ao subterrâneo onde toda esta revolta fermenta – o racismo, a xenofobia, o classismo.

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Quase sem surpresa, esses três temas incontornáveis foram afinal quase esquecidos. A discussão é agora acerca de estátuas, dos tais homens de palha. Em plena luta pelo progresso civilizacional e pelos direitos humanos mais básicos de qualquer ser humano, discute-se o valor do totem. E enquanto discutimos, por cá neste Portugal de brandos costumes onde o racismo não existe, pintam-se as paredes com ódio aos refugiados, os bairros sociais são invadidos pela polícia para fechar cafés ou fazer testes de despistagem do vírus, um bairro de ciganos sofre confinamento forçado, mesmo ali ao lado de um armazém que, por falta de condições de transporte público e de deficiente protecção dos trabalhadores se tornou um foco de propagação.

Não pertenço a um Nobre Povo, a uma Nação Valente e Imortal, e muito menos dou ouvidos a Egrégios Avós que levantam a voz escutada das brumas da memória. Sou anti-nacionalista e, por isso, não vivo em mundos passados dos quais não fiz parte. E por isso não sinto dever alguma coisa a alguém, a não ser todo o respeito pelo outro, seja ele quem for, de que cor, sexo, etnia ou religião for. É isso que pratico diariamente. Não necessito de amputar a História, não me interessam os homens de palha.
Il ne faut pas s’astreindre à une œuvre, il faut seulement dire quelque chose qui puisse se murmurer à l’oreille d’un ivrogne ou d’un mourant.