#BolsonaroNão 26.10.2018

Jair Bolsonaro
Imagem: Folha de São Paulo

Es­tive para dar o tí­tulo de Vol­de­mort” a este post. Não o fiz, pois con­si­dero que isso seria con­tri­buir para um dos erros da cam­panha dos opo­si­tores ao can­di­dato a di­tador, a da adopção das hash­tags#EleNão” e „#Ele­Nunca”, que me dava ganas de res­ponder a cada um dos posts com uma outra, „#Ele­Quem?”. A ver­dade é que, neste caso, como em todos os que exigem uma de­fi­nição clara da ameaça, há que tratar os bois pelos nomes. E a ameaça, neste caso uma ameaça séria e com grande pos­si­bi­li­dade de se con­cre­tizar, chama-se Di­ta­dura, chama-se Re­pressão, chama-se Fas­cismo, chama-se Jair Bol­so­naro. Ele” é de­ma­si­a­da­mente vago, quase so­bre­na­tural. Mais va­leria usar um outro pro­nome, como Aquilo”. „#Aqui­loNão” talvez fosse uma opção mais acer­tada, se não que­remos no­mear a ameaça que um in­di­víduo re­pre­senta. Mas, como disse, sou da opi­nião que de­vemos tratar os bois pelos nomes, e fico-me pelo mais sim­ples, ime­diato, inequí­voco „#Bol­so­na­roNão”, de resto já (e tar­di­a­mente) usada.

LER MAIS

Ronaldo 06.10.2018

Imagem: Der Spi­egel

Não tenho opi­nião for­mada acerca da ve­ra­ci­dade das acu­sa­ções de vi­o­lação que pendem sobre Cris­tiano Ro­naldo (.pdf), e deixo que a jus­tiça faça o seu tra­balho – em­bora sai­bamos que a jus­tiça norte-ame­ri­cana pode trans­formar-se ra­pi­da­mente num circo me­diá­tico de grandes pro­por­ções, pleno de tru­ques e te­ch­ni­ca­li­ties para Cor­reio da Manhã ver. Por outro lado, tenho uma ideia bas­tante clara sobre o que a opi­nião pú­blica pensa acerca do as­sunto. Uma boa forma de a de­mons­trar é a do cos­tume: con­sultar o Twitter. Sendo ainda o me­lhor men­ti­dero co­nhe­cido, é por lá que po­demos sentir o pulso da po­pu­laça, en­con­trando pé­rolas como as se­guintes, apenas uns parcos exem­plos entre tantos, ob­tidos hoje:




LER MAIS

Surpresa 26.09.2018

Ca­lhou-lhe mal, o salto. De­pois da cor­rida, de­pois da ca­co­fonia en­sur­de­ce­dora do sangue a mar­telar nos ou­vidos, acabou por aterrar aí uns dez cen­tí­me­tros atrás, ou à frente, con­so­ante a po­sição do ob­ser­vador, dez cen­tí­me­tros dis­tante do alvo quero dizer, e, de­vido à ro­tação re­pen­tina do homem na sua di­recção, acabou por ter de lhe es­petar a faca ali na boca do estô­mago em vez de lhe es­ca­ra­fun­char a base do oc­ci­pital, tal como lhe ti­nham en­si­nado para um re­sul­tado limpo e si­len­cioso. Ficou ali, por uma fracção de se­gundo, a olhá-lo nos olhos. Não havia neles, por ora, al­guma ex­pressão de so­fri­mento ou de terror; havia, isso sim, uma sur­presa, a mesma sur­presa que surge quando uma bom­binha de car­naval ex­plode ao nosso lado ou, me­lhor ainda, aquela sur­presa de quando nos dizem que es­tamos des­pe­didos e fi­camos a tentar saber porquê, o que fi­zemos de er­rado, não foram todos os ob­jec­tivos cum­pridos, não foi a le­al­dade com­pro­vada, então o que se passou; e os olhos ar­re­galam por de­baixo das so­bran­ce­lhas ar­que­adas num ricto apar­va­lhado, sem fito que não seja o de fazer cor­res­ponder a tal sur­presa à re­acção fi­si­o­ló­gica pro­gra­mada ge­ne­ti­ca­mente, velha como o mundo. E como acon­tece de cada vez que uma sur­presa não cumpre com as nossas ex­pec­ta­tivas, e es­pe­ci­al­mente nos casos em que a sur­presa nos causa uma dor lan­ci­nante nas en­tra­nhas, uma su­cessão de ondas ex­cru­ci­antes pau­tadas por cada re­vi­ra­volta da na­valha nas tripas já des­feitas, o su­jeito acaba por es­tre­bu­char em dor e pro­testo, em in­com­pre­ensão e de­ses­pero, afinal o que se passa, vou morrer aqui, no meio da lama e su­fo­cado pela minha pró­pria merda, eu agarro-te, eu furo-te os olhos com os meus dedos, filho da puta, que eu vou mas tu vais co­migo, eu aos berros a agarrar as tripas, tu aos gritos por não con­se­guires ver. Teve de o ma­ni­etar e tapar-lhe a boca, sus­sur­rando vá lá, deixa-te ir, vai em paz, chiu, chiu, chiu…”; e olhando-o uma vez mais nos olhos re­parou que o luto es­tava feito, a acei­tação era plena. E nesse mo­mento, nesse pre­ciso mo­mento em que en­frentou uns olhos que pa­re­ciam en­tender tudo, estar acima de tudo, que pa­re­ciam mesmo en­tender o mo­tivo de toda esta pro­vação, deu por si a pensar que, não fosse a su­ji­dade de sangue e lama, ja­mais pen­saria estar numa si­tu­ação de vida e morte, antes es­taria a dar con­forto a um ne­ces­si­tado na hora da sua ver­dade úl­tima. Aca­bados os es­ter­tores que anun­ciam a pas­sagem das úl­timas gotas de sangue pelas veias já pu­tres­centes, deitou-se a seu lado. Abraçou-o e deixou-se ador­mecer. Este dia teria de passar sem ele.

Sa­ludos desde el exilio a una ge­ne­ra­ción de des­truc­tores,
se­gui­remos si­endo in­vi­si­bles por que vi­a­jamos con poco equi­paje,
bai­lando con nu­es­tros ojos cer­rados cu­ando eso sea po­sible
a lo largo de la fron­tera,
a lo largo del ca­mino…

– Fe­de­rico García Lorca

Apneia 25.09.2018

Apneia - Paula Huven
Paula Huven, Ap­neia

Sentou-se com um ar can­sado e ficou a olhar para a rua. Então, pá? Estás cá com um can­saço…”, disse-lhe. Ele apagou o ci­garro e ex­pirou len­ta­mente o fumo que lhe so­brava nos pul­mões, olhando-me com um meio sor­riso. Voltou a olhar para a rua. Não é can­saço, sabes? Não é can­saço. É uma es­pécie de ap­neia. Tenho a im­pressão de que se res­pirar, morro.”

We shall remain invisible, for we travel light 25.09.2018

The Accident of Gesture - Rome

You were wrong
You let Hell in­vade you
And you let me go
Love wants to be both gentle and cruel
You were a fool
You should have known
And would you wear be­rets in your hair
For this bat­ta­lion of lo­vers?
And would you share this table
Set among the stones of your brothers?
I thought I had no wish to pro­tect you, to con­quer you
But now I have turned to you
So leave death and come to me
You will see, I will leave no scar on you

Yes, for you were meant to be with me
Here
For we are built, trained, con­di­ti­oned to di­sap­pear
We shall stay in the sha­dows
In the me­a­dows afire
As thi­eves for hire
And we shall re­main in­vi­sible, for we travel light
For we do not rush toward the light
And we dance if we can
With our eyes closed
All along the bor­ders
All along the road

And we shall make our mo­ve­ments lighter
Like the boys on the wire
To re­gain the joy and fi­er­ce­ness
Of the es­sen­tial man
Cool out here, be­side me
Cool out in the sands of Spain
Cool out and wash your­self in milk again

And now you shall moan and you shall weep
And you shall lo­athe the other cheek
My friend you can’t pre­tend to know life in every breath
To wound my pride, to envy death
You didn’t come up with this cure and rest as­sured
Your lon­gings never se­emed pure
And each time I will come
Each time I will be another
A sinner, a saint, your enemy, brother
I shall make you say please
I shall have you on your knees

Wir haben un­sere welt ver­loren
Was übrig bleibt sch­leppen wir jetzt in kof­fern
Durch halb Eu­ropa
An alle welt uns aus­ges­chenkt!
Vom leben un­be­siegt
Was uns eint ist der ver­zicht!

You were meant to be with me
Here
For we are built, trained, con­di­ti­oned to di­sap­pear
We shall stay in the sha­dows
In the me­a­dows afire
As thi­eves for hire
And we shall re­main in­vi­sible, for we travel light
For we do not rush toward the light
And we dance if we can
With our eyes closed
All along the bor­ders
All along the road

And we shall make our mo­ve­ments lighter
Like the boys on the wire
We shall make our mo­ve­ments lighter

– Rome, The Ac­ci­dents of Ges­ture

Mappelthorpe 24.09.2018

Este ar­tigo contém links para ima­gens de con­teúdo ex­plí­cito, seja lá isso o que for. Con­si­dere-se avi­sado.

Self Portrait 1985 by Robert Mapplethorpe
Ro­bert Map­pelthorpe, Auto Re­trato”, 1985 – © Ro­bert Map­pelthorpe Foun­da­tion

Ro­bert Map­pelthorpe é, antes de tudo, um es­pí­rito do tempo que viveu, e essa con­dição pode ser-lhe in­grata na me­dida em que muita da sua obra, vista sim­ples­mente com os olhos, pode so­frer uma des­con­tex­tu­a­li­zação pe­na­li­za­dora da arte com que ainda nos pro­voca. De­pois, para além de fo­tó­grafo (e pintor, e es­cultor), Map­perthorpe é um por­nó­grafo, no sen­tido da re­pre­sen­tação do corpo e do acto sem filtro e, a par disso, Map­pelthorpe é um amo­ra­lista, no sen­tido da por­no­grafia que se torna arte para os que ousem olhá-la mais de perto. Map­pelthorpe é um fo­tó­grafo de flores, pes­soas e es­tados de alma, co­lo­cando umas e ou­tros em es­túdio, como se de nada mais se tra­tassem do que o ob­jecto de tra­ta­mento pela luz e sombra. E, por fim, Map­pelthorpe é ele pró­prio o ob­jecto desse tra­ta­mento, atrás ou à frente da câ­mara. Sem com­pro­missos ou con­ces­sões.
Falo de Map­pelthorpe como po­deria falar de Diane Arbus, Fran­cesca Wo­odman, Ru­dolf Schwarz­ko­gler, Craigie Hors­field, David Woj­na­rowicz, ou Ana Men­dieta – para men­ci­onar apenas uns poucos fo­tó­grafos que, num ou noutro ponto da sua obra re­tratam com a crueza que, se não é por­no­grá­fica no sen­tido mais se­xual do termo, é-o ainda assim no ex­po­sição da cir­cuns­tância sem re­curso a ou­tros fil­tros que não sejam os da sua es­té­tica. É mais o que os une do que aquilo que os se­para. A um dado mo­mento, a sua obra de­verá ter sido cho­cante ao ponto da sua não acei­tação pela men­ta­li­dade mais pro­vin­ciana, aquela que vê a arte uni­ca­mente como in­ter­pre­tação do seu de­sejo e que, quando con­fron­tada com novas re­a­li­dades, entra em de­lírio iden­ti­tário. Mas di­vago.

LER MAIS

Zelota 18.09.2018

Deleatur

É fa­cí­limo, basta apa­nhar-lhe o jeito, quem olhar dis­trai­da­mente cui­dará que a mão vai traçar o ter­rível cír­culo, mas não, re­pare que não re­matei o mo­vi­mento aqui onde o tinha co­me­çado, passei-lhe ao lado, por dentro, e agora vou con­ti­nuar para baixo até cortar a parte in­fe­rior da curva, afinal o que pa­rece mesmo é a letra Q maiús­cula, nada mais

– José Sa­ra­mago, Me­mo­rial do Con­vento”

O que o Ze­lota pa­rece não en­tender é que a prin­cipal di­fe­rença entre nós não é cau­sada pela di­ver­gência de opi­niões. É antes cau­sada pela minha de­fesa in­tran­si­gente do seu di­reito ina­li­e­nável a ex­primir a sua opi­nião, apesar de saber que cer­ta­mente o Ze­lota me ca­laria mal sen­tisse o mais leve aroma do poder. Talvez cada um de nós tenha o que me­rece.

Os Pássaros e O Poeta 17.09.2018

corvo
Imagem: Kis­sPNG

The Birds

Spring came far too early this year:
May flowers blo­o­ming in Fe­bruary.
Should I be sad for the month,
or glad for the sky?
The birds don’t know which way to sing
and, my friend,
neither do I.

Two days ago, a girl I truly thought I loved
sud­denly didn’t seem to matter at all.
Should I sing sad fa­rewell to things
I’m re­ally glad I’ve left behind?
The birds don’t know which way to sing
and, my friend,
neither do I.

In another day, heavy snow will lie upon the ground
and buds pre­ma­tu­rely blo­omed shall fail;
and every cre­a­ture li­ving now,
then will su­rely die…
The birds don’t know which way to sing
and, my friend,
neither do I.
The birds don’t know if it’s time yet to fly;
they don’t know which way to go
and, my friend,
neither do I.

I Once Wrote Some Poems

I once wrote some poems of still­ness and si­lence,
stan­ding by ri­vers of re­flected light;
my thoughts were on being loved and yet un­loved, too -
I sur­ren­dered to the warmth of the night.
And now I feel like dying,
and if the water were still here, it would
hold me close.

I once wrote a poem while wal­king on gra­ves­tones,
as cob­bles, rain and tears lashed down my face;
I then felt my whole world was fa­ding
as me­mo­ries jos­tled and fell into place.
And now I feel like dying,
and the pain of old fires still burns.

I never wrote poems when I bit my knuc­kles
and Death started slip­ping into my mouth…
but that was re­ally a long time ago,
and I’m not wri­ting poems now.
And though I don’t feel quite like dying,
there is so­mething deep in­side me
softly crying.

And though I don’t feel quite like dying
there is so­mething deep in­side me softly.…

– Peter Ham­mill, Fool’s Mate

Anacoreta 17.09.2018

A Erudita - Priscila Cler
Imagem: Pris­cila Cler, A Eru­dita”, via O Tempo

Po­derá ter sido um jovem bri­lhante, aquele que, para além de ler os li­vros certos e atender às con­fe­rên­cias e eventos que alargam os ho­ri­zontes, aprendeu a vida como ela deve ser apren­dida – pelo mé­todo ex­pe­ri­mental, da ten­ta­tiva e erro, mais dos se­gundos do que dos pri­meiros e, assim, di­ver­tindo-se quanto baste no seu usu­fruto. Mas se assim foi, a vida ac­tual do Ana­co­reta nada disso deixa trans­pa­recer. Diga-se em abono da ver­dade que as coisas não lhe cor­reram da me­lhor forma: em vez de poeta, fi­ló­sofo ou, vá lá, po­lí­tico de re­nome, coisas que lhe pa­re­ciam certas vir a ser, o Ana­co­reta vê a sua vida re­par­tida entre dois mundos: o do pe­queno ga­bi­nete de sub-sub-sub-chefe de uma re­par­tição sem ob­jecto digno de re­fe­rência, onde sen­tado por de­baixo do ar con­di­ci­o­nado que não pode re­gular, já que a re­gu­lação do ar con­di­ci­o­nado per­tence à ma­nu­tenção, aguarda pa­ci­en­te­mente a pro­moção a sub-sub-chefe desta ou de outra re­par­tição qual­quer; e o das redes so­ciais onde dá asas à sua re­volta, pois a re­volta é filha da sub­missão e, vendo bem, o Ana­co­reta é o per­feito exemplo dessa tão ado­les­cente re­lação.

LER MAIS