bLógica: Retalhos da Vida Anónima

barbearia
Foto dis­po­ní­vel em Pixa​bay​.com

Esta série de posts no Pan­das e Demó­ni­os é um blog em si e é o que este semi​o​se​.net deve­ria ser. O que Bjorn Pal faz por lá é, na ver­da­de, o géne­ro de coisa que mais me apraz fazer e para a qual tenho mais jeito. Mas as coi­sas são o que são, e aque­le vaipe anda muito fugi­dio. Gra­ças aos céus dos blogs, vai­pes não fal­tam ao Bjorn, e o pro­du­to lá está dis­po­ní­vel para o meni­no e para a meni­na, de borla. Vá, então saia daqui e vá ler algo de jeito.

Koko

Koko tinha um gato cha­ma­do All Ball. Se um gato e o seu nome não são rele­van­tes, já o facto de uma gori­la ter um gato como amigo não é tão cor­ren­te assim, espe­ci­al­men­te quan­do o nome do gato é esco­lhi­do pela pró­pria gori­la. Koko con­se­guiu arran­jar um nome para o gato devi­do à sua apren­di­za­gem lin­guís­ti­ca: sabia mais de mil ges­tos da Lin­gua­gem Ges­tu­al Ame­ri­ca­na, e enten­dia mais de duas mil pala­vras em Inglês cor­ren­te. Koko veio a ser repre­sen­ta­ti­va de duas coi­sas extre­ma­men­te impor­tan­tes.

A pri­mei­ra, quase óbvia, trata-se da pos­si­bi­li­da­de de comu­ni­ca­ção inter-espé­ci­es. Com efei­to, tor­nou-se claro que outros ani­mais são capa­zes de apren­der a nossa lin­gua­gem e de comu­ni­car efec­ti­va­men­te. Koko não se limi­ta­va a uma comu­ni­ca­ção bási­ca, con­se­guin­do expres­sar raci­o­cí­ni­os intei­ros de uma com­ple­xi­da­de que não jul­gá­va­mos pos­sí­vel nou­tros ani­mais, o que nos leva à segun­da coisa muito impor­tan­te que Koko repre­sen­ta­va.

Koko ver­ba­li­za­va sen­ti­men­tos, por vezes com­ple­xos, de amor ou desa­gra­do, de medo, de aviso e de perda, como se veri­fi­cou pelo luto que fez à morte dos seus ami­gos Micha­el, um gori­la, e Robin Wil­li­ams, um huma­no. Pas­sou a ser, de algu­ma forma, a repre­sen­tan­te da alma” dos ani­mais, esses mes­mos que con­ti­nu­a­mos a matar por moti­vos que nos colo­cam a nós, huma­nos, uns quan­tos degraus abai­xo deles na esca­la moral da Natu­re­za.

Koko nas­ceu Hana­bi-ko („Filha do Fogo de Arti­fí­cio”, em tra­du­ção apres­sa­da) no tão ame­ri­ca­no Dia da Inde­pen­dên­cia de 1971, e foi jun­tar-se a Micha­el em 10 de Junho deste ano, num céu que, a exis­tir, já é de todos os ani­mais. Koko mor­reu e com ela mor­reu mais um pouco da huma­ni­da­de. Resta-nos Ndume e todos os outros ani­mais, incluin­do os huma­nos. Apro­vei­te­mos.

Psicodiscografia: A Private Understanding

Pode­mos socor­rer-nos das já mui­tas entre­vis­tas a Joe Casey, ou pas­sar pelo Genius e con­fi­ar nos con­tri­bu­tos que por lá são escri­tos, na ten­ta­ti­va de desen­crip­tar a letra de A Pri­va­te Unders­tan­ding” dos Pro­to­martyr, e ainda assim ficar­mos com algu­mas dúvi­das. That’s how I bar my door”, diz-nos o autor, após escla­re­cer que tudo o que se pas­sa­rá além dessa porta dei­xou de ser da sua res­pon­sa­bi­li­da­de – Not by my own hand; Nor by my own voice” -, e des­pe­din­do-se o nar­ra­dor outros acto­res tomam o palco.

A Pri­va­te Unders­tan­ding” é, por outro lado, uma daque­las can­ções que bene­fi­ci­am do vídeo. Foi por aí, aliás, que me apai­xo­nei por esta can­ção. O moti­vo para tal é sim­ples e banal: iden­ti­fi­co-me com o per­so­na­gem que ali fala de forma apa­ren­te­men­te des­co­ne­xa acer­ca dos mais dís­pa­res assun­tos a uma audi­ên­cia que com ele pouco mais par­ti­lha do que o espa­ço, rode­an­do-os de refe­rên­ci­as polí­ti­cas, reli­gi­o­sas, filo­só­fi­cas, por entre o fumo do taba­co e o aroma da cer­ve­ja, sen­ta­do numa cadei­ra que mais não faz do que supor­tar o seu enve­lhe­ci­men­to.

É ver­da­de que tudo o que pos­sa­mos dizer tem um sig­ni­fi­ca­do ínti­mo. É o caso da frase She’s just trying to reach you”, incluí­da na letra sem moti­vo apa­ren­te senão o de ter sur­gi­do por acaso na cabe­ça de Casey. Para além da músi­ca em si, é esta ale­a­to­ri­e­da­de apa­ren­te tor­na­da poe­sia que trans­for­ma A Pri­va­te Unders­tan­ding” numa des­sas can­ções que me acom­pa­nham desde que a ouvi pela pri­mei­ra vez. Junte-se-lhe ima­gem e obte­mos este fabu­lo­so vídeo que é já uma das minhas cur­tas metra­gens pre­fe­ri­das dos últi­mos tem­pos.

Não à Censura pelo rebanho de Marinhos Pintos

Ganhou a Censura

Já nin­guém lê blogs, e pou­cos têm paci­ên­cia para os man­ter. Ambos têm razões váli­das para as suas esco­lhas, quase inva­ri­a­vel­men­te liga­das ao uso cons­tan­te de redes soci­ais e agre­ga­do­res de con­teú­dos. Já quase nin­guém acres­cen­ta valor ao que par­ti­lha – sha­ring is caring! sha­ring is caring! [smile] – e inte­res­sa-nos sobre­tu­do o valor que nos é atri­buí­do no ran­king da popu­la­ri­da­de mais popu­la­ru­cha deste lado da felis:cida­de. Da dis­cus­são nasce a luz, dizia alguém pro­va­vel­men­te no tempo em que se lia à luz da vela, sem ima­gi­nar que o futu­ro tra­ria nem dis­cus­são, quan­to mais luz, antes a acei­ta­ção implí­ci­ta do que nos é dita­do pen­sar. Mas diva­go…

artigo 13

Foi hoje a votos a pro­pos­ta de lei que pre­ten­de regu­lar diver­sos aspec­tos da pro­du­ção publi­ca­da na Inter­net, sendo os arti­gos 1113 os mais rele­van­tes de entre eles. Ganhou o sim. Desta forma, depois de os 700 e tal depu­ta­dos euro­peus vota­rem após ple­ná­rio, pode­re­mos vir a ver apro­va­da a Lei das Taxas” que, segun­do o Arti­go 11, sig­ni­fi­ca uma ame­a­ça para uma soci­e­da­de infor­ma­da e letra­da já que os links para notí­ci­as, o uso de títu­los, cabe­ça­lhos ou frag­men­tos de infor­ma­ção pode­rão estar sujei­tos a neces­si­da­de de licen­ça; e pode­re­mos ver apro­va­da o Arti­go 13 que trans­for­ma­rá a Inter­net numa fer­ra­men­ta de vigi­lân­cia e con­tro­le, já que os con­teú­dos serão fil­tra­dos antes da sua publi­ca­ção e eli­mi­na­dos sem con­sen­ti­men­to do autor.

artigo 13

Não estra­nho que Mari­nho Pinto, o depu­ta­do do ALDE que há pou­cos dias publi­ca­va isto, seja favo­rá­vel a esta lei. Afi­nal, sabe­mos que ele não é nem o mais pre­pa­ra­do dos depu­ta­dos para a dis­cus­são desta maté­ria (nem para fazer seja o que for na UE) e que, para além disso, tem ordens a cum­prir, ainda que a cen­su­ra que apro­va seja con­trá­ria às suas pre­o­cu­pa­ções libe­rais. Con­fu­so? Tam­bém eu. Mas estra­nho muito a quase total ausên­cia de comen­tá­ri­os dos res­tan­tes polí­ti­cos e, sobre­tu­do, o quase silên­cio dos uti­li­za­do­res da Inter­net que, apa­ren­te­men­te, vivem ainda per­di­dos entre o seu direi­to à livre troca de infor­ma­ção e os abu­sos de poder cons­tan­tes das gran­des pla­ta­for­mas de agre­ga­ção e dis­tri­bui­ção, sejam elas a Goo­gle ou o Face­bo­ok, na ver­da­de não nos inte­res­sa enquan­to forem gra­tui­tas. Não é? E la nave va.

artigo 13

Mas ainda há muito para fazer, caso não quei­ra­mos ser mais uma ove­lha no reba­nho de Mari­nhos Pin­tos. Deve­mos dizer não à cen­su­ra, a todo o custo. Sob pena de um dia ver­mos a Inter­net trans­for­mar-se num campo árido de feli­ci­da­de e opti­mis­mo, tão ao gosto chi­nês e core­a­no e, agora, euro­peu, sob pena de ver­mos a nossa expres­são con­di­ci­o­na­da e, com ela, o nosso pen­sa­men­to. Esta­mos cada vez mais perto dessa dis­to­pia, mas é ainda pos­sí­vel lutar. Então, às armas.

Ima­gens de e via: Save Your Inter­net, Qui­dos, e Julia Reda.

O que fazer?

O Fascismo nao se discute - destroi-se
Ima­gem Ori­gi­nal: Lia Kan­trowitz

Às vezes acho que o tempo de agir já pas­sou, que não nos resta outra via senão a da lenta espe­ra pelo ponto de não retor­no, sen­ta­dos fren­te a um lives­tre­am numa reti­na elec­tró­ni­ca qual­quer, duran­te uma pausa na nossa pró­pria sobre­vi­vên­cia.”

– digo eu, em tom de desa­ba­fo num post que mais do que desa­ba­fo não é, mas que tem moti­vos váli­dos: o fas­cis­mo regres­sou, é decla­ra­do, e se prá­ti­cas ainda mais opres­so­ras e assas­si­nas não estão ainda em vigor, é ape­nas uma ques­tão de tempo para que estas come­cem a povo­ar a nossa rea­li­da­de.

Como a mai­o­ria dos que vão andan­do mais ou menos aten­tos ao tur­bi­lhão noti­ci­o­so, e ape­sar de ter facil­men­te detec­ta­do alguns dos sinais que hoje se con­cre­ti­zam, tam­bém eu me dei­xei levar pela fé na huma­ni­da­de, nessa mesma huma­ni­da­de que tem sido capaz dos cri­mes mais hedi­on­dos, e por essa espé­cie de reac­ção fácil que é a da piada ligei­ra e do meme. Pode­mos ver agora que fazer cha­co­ta das pala­vras de Trump nada mais é do que dar-lhe poder, pode­mos ver que publi­car fotos de Orbán, de Kim ou de outros dita­do­res nada mais é do que pro­pa­gar a con­des­cen­dên­cia, con­des­cen­dên­cia essa ainda refor­ça­da pelos enfants tér­ri­bles do poli­ti­ca­men­te incor­rec­to” cuja prin­ci­pal acti­vi­da­de na vida é obter a satis­fa­ção gra­tui­ta de um smile em mais um post apo­lo­gé­ti­co do fas­cis­mo. Tem sido assim até hoje.

Mas agora fala­mos de outras coi­sas: de cam­pos de con­cen­tra­ção, de cen­sos higi­e­ni­za­do­res, de assas­sí­nio indis­cri­mi­na­do de mani­fes­tan­tes… e a lista não para aqui, está dis­po­ní­vel no feed infor­ma­ti­vo cons­tan­te a que quase todos temos aces­so. Basta um pouco de aten­ção para con­se­guir sepa­rar o trigo do joio – e isso é impor­tan­te, caso con­trá­rio con­ti­nu­a­re­mos a olhar para fogos-fátu­os no quin­tal enquan­to o incên­dio lavra nas tra­sei­ras da casa.

O Fas­cis­mo não se dis­cu­te – des­trói-se.”
Bue­na­ven­tu­ra Dur­ru­ti

Temos, por isso, de fazer algu­ma coisa. De ser acti­vos e de recor­dar do que se trata afi­nal decla­rar­mo-nos anti-fas­cis­tas, para além da oca­si­o­nal con­ver­sa de café, para além do rótu­lo na web, para além da t-shirt. É difí­cil, a maior parte de nós não está habi­tu­a­da a pen­sar nes­ses ter­mos, já que pas­sa­mos a maior parte das nos­sas vidas em demo­cra­cia e liber­da­de. É por isso que um manu­al de ins­tru­ções ini­ci­ais vem a calhar. Eu, se fosse a vocês, ia lê-lo. E depois toma­da par­ti­do – não há meio termo.

Livro dos Dias: Inconfessável

Buraco
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Almo­ço cedo numa espla­na­da junto à estra­da e, enquan­to tento enten­der como lidar com a mis­tu­ra de fran­go mal assa­do e o fumo do die­sel, os nati­vos olham-me de sos­laio, tal­vez pen­san­do que anda mouro na costa”, enquan­to embor­cam os mar­ti­nis com cer­ve­ja da manhã que já vai longa, e uma famí­lia que mais pare­ce um ran­cho entra no espa­ço, ocu­pan­do tudo e todos e mais o ar que nos falta no calor do meio dia, moven­do mesas e cadei­ras para acon­che­gar os cus sobre­di­men­si­o­na­dos delas e os raquí­ti­cos deles, povo­an­do o espa­ço com o carac­te­rís­ti­co almís­car ado­ci­ca­do que sudo­rí­pa­ras afo­ga­das em Axe dei­xam esca­par, essa espé­cie de doce sal­ga­do que se encon­tra nos mor­tos desde há algum tempo liber­ta­do pelas mulhe­res de cabe­lo pin­ta­do de raiz à mos­tra apa­nha­do no cocu­ru­to, ves­tin­do as nódo­as das cami­so­las cave­a­das e as pro­ver­bi­ais licras que dei­xam sair a orgu­lho­sa pro­tu­be­rân­cia que já há muito ultra­pas­sou o esta­do sim­ples de muf­fin top”, quase uma iden­ti­da­de, quase uma forma de vida, atas­ca­da entre o inú­til e o irre­le­van­te e esque­ci­das da prá­ti­ca da vida enquan­to ela o é… dizia eu que estou a ten­tar adi­vi­nhar como é pos­sí­vel não assar bem um fran­go e como se per­mi­te que uma espla­na­da este­ja tão em cima da estra­da e assim per­di­do nos meus pen­sa­men­tos e no inces­san­te chil­reio da prole da mesa ao lado e das impre­ca­ções delas e do autis­mo deles e dos nomes e pen­te­a­dos de joga­do­res de fute­bol e dos bonés leve­men­te assen­tes no telha­do da cabe­ça e dos fatos de trei­no da feira e dos víde­os da Ana Leal ali em alta­voz entre o nada feito e o nada a fazer excep­to a ida para casa ou para o tasco seguin­te ou um pas­seio ao Inter­mar­ché, chego a um ponto incon­fes­sá­vel e pro­va­vel­men­te injus­to em que me per­gun­to, ou per­gun­to a alguém de maior enten­di­men­to do que o meu, tal­vez um deus, per­gun­to então por­que nos calhou a nós per­der a vida.

Psicodiscografia: The Future Now

Here we are, sta­tic in the lat­ter half \ Of the twen­ti­eth cen­tury \ But it might as well be the Mid­dle Ages \ There’ll have to be some chan­ges \ But how they’ll come about foxes me
I want the futu­re now \ I want to hold it in my hands; \ All men equal and unbowed \ I want the Pro­mi­sed Land

But that doesn’t seem to get any clo­ser \ And Moses has had his day… \ The tablets of law are an adver­ti­sing pos­ter \ Civi­li­sa­ti­on here to stay \ And this is pro­gress? You must be joking! \ Me, I’m loo­king for any kind of hope

A Terra Prometida

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São milha­res, milhões já, os que todos os dias che­gam a cos­tas conhe­ci­das ape­nas pelo que delas ouvi­ram falar, essas Ter­ras Pro­me­ti­das aos que, como eles, pro­cu­ram a con­cre­ti­za­ção do man­tra Paz, Pão, Habi­ta­ção, Saúde e Edu­ca­ção”, ainda que a últi­ma não seja ainda uma pri­o­ri­da­de e a penúl­ti­ma se faça por ela pró­pria, com tempo. Essas pro­mes­sas de paz e maná nada mais são do que um cruel enga­no, um entre­te­ni­men­to de deu­ses ente­di­a­dos no lento anda­men­to do tempo, e nada mais ofe­re­cem senão cam­pos de con­cen­tra­ção, a divi­são de famí­li­as, a sau­da­de dos que fica­ram para trás, em terra ou no gelo do mar, ou do peda­ço de terra que outro­ra foi seu e que agora é ocu­pa­do por outros, tam­bém eles jus­tos aos olhos dos seus deu­ses. Esta é a his­tó­ria dos dias de hoje, dias negros de um sécu­lo que, pro­du­to dos ante­ri­o­res, nada apren­deu com a His­tó­ria.

Os sinais estão aí. Melhor dizen­do, já nem sequer são sinais, são evi­dên­ci­as cla­ras como a água, que nos atin­gem a reti­na can­sa­da do scroll casu­al, entre dois gatos e um meme. Pales­ti­nos são dia­ri­a­men­te humi­lha­dos nas fron­tei­ras e mor­tos indis­cri­mi­na­da­men­te, refu­gi­a­dos são recu­sa­dos de país em país até ao pró­xi­mo campo de inter­na­men­to, ciga­nos são recen­se­a­dos para futu­ra expul­são, gays e lés­bi­cas são repri­mi­dos, tor­tu­ra­dos e mor­tos, cri­an­ças são sepa­ra­das das famí­li­as e encer­ra­das em jau­las, pre­si­den­tes alu­ci­na­dos dese­nham futu­ros de bíblia, corão, ou de tosta parei­dó­li­ca na mão, sem­pre com um algo maior do que nós” para ofe­re­cer, seja ele uma reli­gião ou uma nação, seja a sua His­tó­ria pas­sa­da real ou ima­gi­na­da, seja a sua His­tó­ria futu­ra escri­ta a tinta, san­gue ou dinhei­ro. Assis­ti­mos a tudo isso, assim, encan­de­a­dos na nossa pas­si­vi­da­de.

IOM Missing Migrants Project
– Fonte: IOM – Mis­sing Migrants Pro­ject – cli­que na ima­gem para ace­der ao site.

O pro­ble­ma da Terra Pro­me­ti­da é que os deu­ses sem­pre a ofe­re­ce­ram a nós, o Povo Justo, os Esco­lhi­dos. Eles, os outros, se não tive­ram os deu­ses do lado deles é por­que não o mere­ce­ram. Por­que eles têm usos e cos­tu­mes que não se enqua­dram na nossa rea­li­da­de ilu­mi­na­da, por­que eles tra­jam de forma ina­de­qua­da aos dita­mes da moda sofis­ti­ca­da da Pri­mark e do C&A, por­que eles são, veja­mos bem, pri­mi­ti­vos de cren­ças ana­cró­ni­cas em deu­ses fal­sos e cruéis. Nem sequer sen­tem a morte como nós, são mesmo capa­zes de viver a vida quan­do lhes falta um filho que ficou ali, a afun­dar len­ta­men­te nas águas gela­das do turís­ti­co Medi­ter­râ­neo. Sim, claro, se fosse um de nós, mor­re­ria ali mesmo. Con­ver­sas de café. Con­ver­sas que deci­dem que vêm para cá rou­bar-nos os empre­gos ou viver à custa de sub­sí­di­os, con­ver­sas que con­clu­em que tudo isto não passa de uma ocu­pa­ção.

Vive­mos numa terra onde cor­pos se enlei­am no arame far­pa­do de Meli­la, onde milí­ci­as civis arma­das caçam imi­gran­tes ile­gais em Rio Gran­de, onde navi­os recu­sam auxí­lio a botes sobre­lo­ta­dos de fome e frio. É uma terra onde polí­ti­cos se limi­tam à dança ceri­mo­ni­al e ao anún­cio pro­to­co­lar de indig­na­ção”, sem tomar o freio que mas­sa­cra os den­tes de alu­ci­na­dos, pro­pon­do san­ções objec­ti­vas, sem medo de serem jus­tos. Há muita guer­ra no mundo, se uma delas, só uma, fosse justa. Às vezes acho que o tempo de agir já pas­sou, que não nos resta outra via senão a da lenta espe­ra pelo ponto de não retor­no, sen­ta­dos fren­te a um lives­tre­am numa reti­na elec­tró­ni­ca qual­quer, duran­te uma pausa na nossa pró­pria sobre­vi­vên­cia. Por­que é essa a moder­na manei­ra de ver o mundo, medi­a­da. Para que neces­si­ta­mos da rea­li­da­de, se temos a sua repre­sen­ta­ção, sem toque ou chei­ro, poden­do mesmo des­li­gar o som?

A Terra Pro­me­ti­da é árida de huma­ni­da­de.