Os Filhos do Homem


Em Chil­dren of Men fica­mos a conhe­cer uma huma­ni­da­de infér­til e já sem cri­an­ças, des­ti­na­da à extin­ção a breve prazo. Essa mesma huma­ni­da­de recu­sa a entra­da de imi­gran­tes, pren­den­do-os em cam­pos de con­cen­tra­ção enquan­to não são expul­sos do ter­ri­tó­rio. O filme é bem des­cri­ti­vo dessa rea­li­da­de: gente enjau­la­da e cer­ca­da por polí­ci­as e cães, sujei­ta a toda abru­ta­li­da­de de polí­ci­as e civis, e final­men­te encar­ce­ra­da em ghet­tos, esque­ci­da pela rea­li­da­de quo­ti­di­a­na da urbe. Para­do­xal­men­te, a notí­cia da pos­sí­vel sal­va­ção desta huma­ni­da­de surge pela bar­ri­ga grá­vi­da de Kee, uma imi­gran­te ile­gal – e eis a aven­tu­ra, quase secun­dá­ria. A fic­ção passa-se em 2027.

Na rea­li­da­de de 2018, a For­ta­le­za Euro­pa sofre uma crise de nata­li­da­de, acom­pa­nhan­do a ten­dên­cia dos paí­ses do hemis­fé­rio Norte. Esti­ma-se que, man­ten­do os parâ­me­tros actu­ais, possa haver uma perda de pelo menos 5 milhões de pes­so­as até 2050, o equi­va­len­te a 50 milhões na popu­la­ção acti­va. Por­tu­gal per­de­rá 1,1 milhões de pes­so­as, pas­san­do para os 9,2 milhões na tota­li­da­de. Enquan­to isso, o Norte de Áfri­ca pode­rá ver a sua popu­la­ção aumen­tar em 130 milhões de pes­so­as, o que sem dúvi­da repre­sen­ta uma exce­len­te opor­tu­ni­da­de para o equi­lí­brio das con­tas euro­pei­as. Demo­gra­fia, pura e sim­ples, a ape­lar às moti­va­ções eco­nó­mi­cas para a cap­ta­ção de imi­gra­ção.

O pro­ble­ma é que esta moti­va­ção não é sufi­ci­en­te, já que essa é a que pre­si­de agora ao nume­rus clau­sus euro­peu, por con­ve­ni­ên­cia e, dizem alguns, pela limi­ta­ção da capa­ci­da­de de aco­lhi­men­to. Este tipo de moti­va­ção, a eco­nó­mi­co-finan­cei­ra, ape­nas serve para limi­tar o aco­lhi­men­to a quem foge da guer­ra, da per­se­gui­ção polí­ti­ca, do geno­cí­dio, da misé­ria, da doen­ça e da morte, dando con­ti­nui­da­de ao que sem­pre fize­mos dos povos do hemis­fé­rio sul, espe­ci­al­men­te dos afri­ca­nos: são nada mais do que recur­sos, quer sejam usa­dos local­men­te como mão de obra bara­ta, quer sejam usa­dos na Euro­pa, pelos mes­mos moti­vos.

Este tipo de limi­ta­ções agra­dam espe­ci­al­men­te à extre­ma-direi­ta euro­peia e às fai­xas popu­la­ci­o­nais onde o défi­ce de edu­ca­ção é pal­pá­vel, e que assu­mem cada vez mais impor­tân­cia como fac­tor de deci­são polí­ti­ca. Essa pres­são é facil­men­te veri­fi­ca­da pela cedên­cia de Mer­kel aos báva­ros que a acom­pa­nham no poder e, com ela, a Euro­pa que assim se trans­for­ma na mais ridí­cu­la hipo­cri­sia jamais vista na His­tó­ria: con­de­na Trump em unís­so­no pela impo­si­ção de muros e deten­ção de famí­li­as intei­ras em cam­pos de con­cen­tra­ção, enquan­to asso­bia para o lado des­lo­ca­li­zan­do os seus pró­pri­os cam­pos de con­cen­tra­ção.

Como se isso não bas­tas­se, a Ale­ma­nha, com toda a sua His­tó­ria pela qual pede des­cul­pas recor­ren­te­men­te, deci­de agora cons­truir três cam­pos de con­cen­tra­ção na Bavi­e­ra. O eco bafi­en­to do pas­sa­do resi­de agora por ali, na zona Aus­tro-Hún­ga­ro-Ger­ma­no-Ita­li­a­na, com o habi­tu­al apoio da Tur­quia. Não apren­de­mos nada com a His­tó­ria, e a prova disso é a forma como os gover­nan­tes euro­peus saú­dam a solu­ção”, que por enquan­to não é final”, como uma vitó­ria da Euro­pa, como o desen­ve­ci­lhar de uma crise, como o sal­va­men­to do Euro, da Euro­pa e, enfim, da huma­ni­da­de que se resu­me, afi­nal, ao Velho Con­ti­nen­te.

Isto já não são sinais. São cla­ras evi­dên­ci­as da vitó­ria de extre­mis­tas como Orbán, Erdoğan, Kurz, Wil­ders, Sal­vi­ni, ou Pol­son sobre o supos­to huma­nis­mo euro­peu. Não são mais do que um regres­so à idade das tre­vas euro­peia, a não ser que faça­mos algo, já. No pró­xi­mo ano de 2019, em Maio, tere­mos novas elei­ções euro­pei­as, e é altu­ra de os par­ti­dos que não ali­nhem nesta polí­ti­ca assas­si­na se reve­la­rem e faze­rem uma cam­pa­nha de sen­si­bi­li­za­ção para o curso que a His­tó­ria está a tomar, e com­ba­ter o popu­lis­mo fácil da segre­ga­ção com men­sa­gens efi­ca­zes acer­ca dos bene­fí­ci­os da inclu­são e do huma­ni­ta­ris­mo.

Afi­nal, qual de nós está livre de um dia ser um refu­gi­a­do? Eu, não estou cer­ta­men­te. E tu?