Choose Life.


Acon­te­ceu no pas­sa­do São João eu che­gar a uma con­ver­sa no momen­to em que eram dis­cu­ti­das as decla­ra­ções de um artis­ta que con­fes­sou o con­su­mo de coca e outras subs­tân­ci­as a um órgão de comu­ni­ca­ção soci­al. Um dos con­vi­vas era da opi­nião de que o artis­ta não deve­ria ter pro­fe­ri­do tais decla­ra­ções, algo que reba­ti dizen­do que, se é uma ver­da­de, não exis­te moti­vo para que o omita. O homem res­pon­deu-me dou­to­ral­men­te como se as suas pala­vras saís­sem agora mesmo da agi­li­da­de da sua mente, pres­tes a serem talha­das em pedra, dizen­do que A minha liber­da­de acaba onde come­ça a dos outros”. Con­tes­tei, dizen­do sim­ples­men­te que, pelo con­trá­rio, a minha liber­da­de pro­lon­ga-se na dos outros e que, se assim não for, aca­ba­re­mos numa situ­a­ção em que nin­guém é livre, um con­jun­to de liber­da­de­zi­nhas peque­ni­nas cons­tan­te­men­te sufo­ca­das umas pelas outras. Ia explo­rar isto quan­do ele me res­pon­deu o fami­ge­ra­do É a minha opi­nião”, que é aque­la expres­são que acaba com qual­quer con­ver­sa, não por­que não o seja ou ele não tenha direi­to à sua opi­nião, mas por­que impli­ca a con­di­ção de que sendo-o não está sujei­ta a dis­cus­são. Esta­va na hora de virar as cos­tas à con­ver­sa e pro­cu­rar a sau­dá­vel con­ver­se­ta junto à gre­lha, que é onde me sinto melhor nes­tes even­tos.

Igualdade, fraternidade, liberdade _ Paris, setembro_2008. _ Flickr
Foto: Cris­ti­a­no Sca­bel­lo

Con­si­de­ro a frase A minha liber­da­de acaba onde come­ça a dos outros” como uma espé­cie de adá­gio popu­lar que, por falta de aná­li­se, é repe­ti­da­men­te dita enquan­to ver­da­de fun­da­men­tal, na ten­ta­ti­va de expli­car ao outro a res­pon­sa­bi­li­da­de no exer­cí­cio da liber­da­de indi­vi­du­al face ao grupo, porém esque­cen­do que abre a pos­si­bi­li­da­de do opos­to, dei­xan­do poder ser dito que A liber­da­de dos outros acaba onde a minha come­ça”. Enfim, é uma frase tris­te, pró­pria de quem con­fun­de limi­ta­ções com res­pon­sa­bi­li­da­de e, sobre­tu­do, de quem não enten­de que só exis­te liber­da­de indi­vi­du­al numa soci­e­da­de tam­bém ela livre. Fra­ses como A minha liber­da­de acaba onde come­ça a dos outros” vêm da mesma lavra que, por exem­plo, O res­pei­ti­nho é muito boni­to”. São resquí­ci­os de uma men­ta­li­da­de que per­du­rou mui­tas déca­das e que se veri­fi­ca estar ainda embe­bi­da na cul­tu­ra pre­sen­te, pelo menos nos gru­pos em que a dis­tân­cia ao poder é ainda muito gran­de, e cujas expec­ta­ti­vas para a vida são fre­quen­te­men­te gera­das exter­na­men­te, e não de moto pró­prio. Fra­ses como esta são, de resto, per­fei­ta­men­te com­pa­tí­veis com a fabu­lo­sa É a minha opi­nião” que, vendo bem, me diz Esta é a minha liber­da­de, limi­ta lá a tua por­que a par­tir deste momen­to não a podes exer­cer”.

Diga-se em abono da ver­da­de que dizer, como eu disse, que A minha liber­da­de pro­lon­ga-se na dos outros” é tam­bém uma espé­cie de dee­pity, embo­ra mais inclu­si­va e, cha­me­mos-lhe assim, demo­crá­ti­ca. No entan­to, tam­bém ela não esca­pa a uma aná­li­se mais apro­fun­da­da a par­tir do momen­to em que con­si­de­re­mos que uma soci­e­da­de livre tem um con­jun­to de regras que per­mi­tem, entre outros, a puni­ção dos que não cum­prem esses pre­cei­tos, puni­ção essa que inclui pri­são e, por vezes, morte. Na ver­da­de, uma soci­e­da­de livre e demo­crá­ti­ca prevê nos seus códi­gos de con­du­ta que o indi­ví­duo que pre­va­ri­que seja iso­la­do dos res­tan­tes ele­men­tos. Exis­te, no entan­to, algo em favor desta frase: ela refe­re o usu­fru­to da liber­da­de res­pon­sá­vel que, a acon­te­cer, se trata da liber­da­de indi­vi­du­al usu­fruí­da em fun­ção de uma soci­e­da­de livre, uma soci­e­da­de em que cada um de nós exer­ce o seu papel con­so­an­te as suas pos­si­bi­li­da­des, con­tri­buin­do acti­va­men­te para o bem-estar comum. Mas a per­gun­ta impõe-se: é isso ser livre? Have­rá quem diga que não, que a par­tir do momen­to em que a menor das limi­ta­ções é impos­ta, então não há lugar para a pala­vra liber­da­de”. Com­pre­en­do e, em parte, acei­to essa ideia. No entan­to, neste caso as úni­cas limi­ta­ções são a res­pon­sa­bi­li­da­de indi­vi­du­al e a lei.

Constituição da República Portuguesa 1976
Foto: Par­la­men­to

Pondo de parte a res­pon­sa­bi­li­da­de indi­vi­du­al, fruto da edu­ca­ção do indi­ví­duo e da sua pre­dis­po­si­ção para a vida em grupo, cabe à lei o tra­ba­lho de nive­lar direi­tos e deve­res, garan­tin­do ao indi­ví­duo o direi­to à expres­são da sua liber­da­de enqua­dra­da na igual­da­de de direi­tos e deve­res de cada um de todos os que com­põem o grupo. Dizer­mo-nos indi­ví­du­os livres num grupo sem igual­da­de de direi­tos e deve­res é o mesmo que dizer­mos que, con­tra­ri­a­men­te aos outros, vemos o exer­cí­cio da nossa von­ta­de com­ple­ta­men­te cum­pri­do, mau grado uma parte do grupo não con­si­ga ver a sua von­ta­de satis­fei­ta – e dessa forma dize­mos que a liber­da­de des­ses ele­men­tos aca­bou onde come­çou a nossa, sendo espar­ti­lha­da por ela. Temos então dois sub-gru­pos, uma elite e a massa anó­ni­ma que se limi­ta a cum­prir as regras. Para­do­xal­men­te, este é um dos efei­tos da demo­cra­cia, o da dita­du­ra da mai­o­ria”. Mas é muito mais visí­vel em soci­e­da­des tota­li­tá­ri­as, em que na ver­da­de nem a elite é livre devi­do aos com­pro­mis­sos assen­tes para a manu­ten­ção do statu quo, mas cujas opor­tu­ni­da­des são muito mai­o­res e, con­se­quen­te­men­te, vêem as suas von­ta­des cum­pri­das muito mais facil­men­te. É nesse aspec­to que, numa soci­e­da­de demo­crá­ti­ca e livre, a lei cum­pre um papel fun­da­men­tal. A ano­mia não é garan­te de liber­da­de, por­que não garan­te a igual­da­de, e nem uma soci­e­da­de anar­quis­ta sobre­vi­ve sem lei.

Então, após este con­fu­so intrói­to, per­gun­te­mo-nos uma vez mais: somos livres? Exis­te a pos­si­bi­li­da­de de ser­mos real­men­te livres? Há quem diga que sim. São os casos de Sar­tre, Espi­no­za, Leib­niz ou Pecot­che quem, de uma ou de outra forma, ins­cre­vem a liber­da­de numa onto­lo­gia do ser. Já Scho­pe­nhau­er, Marx, Des­car­tes, Debord e Pet­tit abor­dam limi­ta­ções ao exer­cí­cio pleno da liber­da­de, desde logo pelas con­di­ções impos­tas exter­na­men­te ao indi­ví­duo, sejam elas polí­ti­cas, eco­nó­mi­cas ou mesmo do real conhe­ci­men­to dos fac­to­res que ori­gi­nam as expec­ta­ti­vas de cada um de nós. No meu caso, atri­buo espe­ci­al impor­tân­cia a Karl Marx, Guy Debord e Phi­lip Pet­tit que, de certa forma, recu­pe­ram as ques­tões semi­nais de Hegel e de Kant, com o pri­mei­ro a inda­gar acer­ca da vali­da­de meta­fí­si­ca da liber­da­de enquan­to opta por uma con­cep­ção prá­ti­ca do seu exer­cí­cio e, o segun­do, a pro­por o que é pro­va­vel­men­te a dúvi­da mais essen­ci­al de toda esta maté­ria: exis­te liber­da­de da von­ta­de? Digo isto por­que o trio Marx/​Debord/​Pettit pare­ce-me ser o que lida com a nossa actu­a­li­da­de de forma mais rea­lis­ta, empres­tan­do à Filo­so­fia uma per­so­na­li­da­de mais prá­ti­ca do que nunca. Por exem­plo, Debord diz-nos que a liber­da­de de esco­lha é uma ilu­são, já que nos limi­ta­mos a esco­lher de entre o que nos é pro­pos­to, como numa ida a um pron­to-a-ves­tir.

O capi­ta­lis­mo pro­põe-nos a liber­da­de única do con­su­mo num quo­ti­di­a­no hie­rar­qui­za­do e divi­di­do entre tempo de tra­ba­lho para a pro­du­ção do lucro de outrem, e tempo de lazer que mais não é do que o tempo de rea­li­zar esco­lhas de entre aqui­lo que pro­du­zi­mos com o nosso tra­ba­lho. Com o adven­to da Inter­net e espe­ci­al­men­te depois do sur­gi­men­to das redes soci­ais, o con­su­mo e o tempo de lazer são, em gran­de parte, fei­tos e pas­sa­dos em pla­ta­for­mas gra­tui­tas onde, para além de con­ti­nu­ar­mos a com­prar o que pro­du­zi­mos, somos agora nós pró­pri­os um pro­du­to. É, por­tan­to, impor­tan­te repen­sar­mos a nossa liber­da­de den­tro deste qua­dro em que nos move­mos, o do capi­ta­lis­mo, das indús­tri­as cul­tu­rais, e da detur­pa­ção do con­cei­to de demo­cra­cia repu­bli­ca­na, já que a domi­na­ção é, mais do que nunca, pre­sen­te sob as mais vari­a­das for­mas e dis­far­ces, a come­çar pelo pro­ver­bi­al A minha liber­da­de acaba onde come­ça a dos outros” que, não sendo acer­ta­da, é ainda assim uma infe­liz rea­li­da­de. Esta refle­xão não pode, con­tu­do, levar a que o capi­ta­lis­mo venha a ser subs­ti­tui­do por qual­quer forma de opos­to tota­li­tá­rio, como tem vindo a acon­te­cer ao longo da His­tó­ria, mesmo da mais recen­te. Toda e qual­quer forma polí­ti­ca deve ser demo­crá­ti­ca, liber­tá­ria e igua­li­tá­ria, seja ela uma soci­al-demo­cra­cia, um soci­a­lis­mo ou um anar­quis­mo.

Há que rea­va­li­ar a actu­al forma de fazer a demo­cra­cia. Deter­mi­nar quais são os acto­res neces­sá­ri­os e eli­mi­nar o máxi­mo pos­sí­vel de medi­a­do­res da von­ta­de soci­al. Rea­va­li­ar os cen­tros de deci­são e torná-los estru­tu­ras ele­gan­tes para solu­ções ele­gan­tes. Dimi­nuir o esta­do, des­cen­tra­li­zan­do os seus pro­ces­sos medi­an­te a maior res­pon­sa­bi­li­za­ção das autar­qui­as ou comu­nas. Colo­car em prá­ti­ca medi­das efec­ti­vas de dis­tri­bui­ção de rique­za. Inves­tir mais na edu­ca­ção do que na defe­sa. Inves­tir mais na saúde públi­ca. Inves­tir na qua­li­da­de de vida dos tra­ba­lha­do­res. Inves­tir nos salá­ri­os. Inves­tir na nata­li­da­de. Temo que ape­sar da sua pos­sí­vel ambi­gui­da­de deva con­ti­nu­ar a defen­der a minha tese de que A minha liber­da­de pro­lon­ga-se na dos outros”, e temo que esta defe­sa não passe ao lado da pro­cu­ra de uma nova forma de ser polí­ti­co”, longe da doxa e do mono­li­tis­mo, de teo­ri­as eco­nó­mi­cas que ape­nas pre­vêm o suces­so do sis­te­ma, longe do finan­cei­ris­mo”, longe da limi­ta­ção da minha liber­da­de pela liber­da­de dos outros, e mais perto de cada um de nós, per­mi­tin­do-nos cum­prir a nossa von­ta­de e, com ela, a von­ta­de de toda a soci­e­da­de. Cho­o­se life, deman­dons l’impossible.

Arquivo: zeitgeist

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