Surpresa 26.09.2018

Ca­lhou-lhe mal, o salto. De­pois da cor­rida, de­pois da ca­co­fonia en­sur­de­ce­dora do sangue a mar­telar nos ou­vidos, acabou por aterrar aí uns dez cen­tí­me­tros atrás, ou à frente, con­so­ante a po­sição do ob­ser­vador, dez cen­tí­me­tros dis­tante do alvo quero dizer, e, de­vido à ro­tação re­pen­tina do homem na sua di­recção, acabou por ter de lhe es­petar a faca ali na boca do estô­mago em vez de lhe es­ca­ra­fun­char a base do oc­ci­pital, tal como lhe ti­nham en­si­nado para um re­sul­tado limpo e si­len­cioso. Ficou ali, por uma fracção de se­gundo, a olhá-lo nos olhos. Não havia neles, por ora, al­guma ex­pressão de so­fri­mento ou de terror; havia, isso sim, uma sur­presa, a mesma sur­presa que surge quando uma bom­binha de car­naval ex­plode ao nosso lado ou, me­lhor ainda, aquela sur­presa de quando nos dizem que es­tamos des­pe­didos e fi­camos a tentar saber porquê, o que fi­zemos de er­rado, não foram todos os ob­jec­tivos cum­pridos, não foi a le­al­dade com­pro­vada, então o que se passou; e os olhos ar­re­galam por de­baixo das so­bran­ce­lhas ar­que­adas num ricto apar­va­lhado, sem fito que não seja o de fazer cor­res­ponder a tal sur­presa à re­acção fi­si­o­ló­gica pro­gra­mada ge­ne­ti­ca­mente, velha como o mundo. E como acon­tece de cada vez que uma sur­presa não cumpre com as nossas ex­pec­ta­tivas, e es­pe­ci­al­mente nos casos em que a sur­presa nos causa uma dor lan­ci­nante nas en­tra­nhas, uma su­cessão de ondas ex­cru­ci­antes pau­tadas por cada re­vi­ra­volta da na­valha nas tripas já des­feitas, o su­jeito acaba por es­tre­bu­char em dor e pro­testo, em in­com­pre­ensão e de­ses­pero, afinal o que se passa, vou morrer aqui, no meio da lama e su­fo­cado pela minha pró­pria merda, eu agarro-te, eu furo-te os olhos com os meus dedos, filho da puta, que eu vou mas tu vais co­migo, eu aos berros a agarrar as tripas, tu aos gritos por não con­se­guires ver. Teve de o ma­ni­etar e tapar-lhe a boca, sus­sur­rando vá lá, deixa-te ir, vai em paz, chiu, chiu, chiu…”; e olhando-o uma vez mais nos olhos re­parou que o luto es­tava feito, a acei­tação era plena. E nesse mo­mento, nesse pre­ciso mo­mento em que en­frentou uns olhos que pa­re­ciam en­tender tudo, estar acima de tudo, que pa­re­ciam mesmo en­tender o mo­tivo de toda esta pro­vação, deu por si a pensar que, não fosse a su­ji­dade de sangue e lama, ja­mais pen­saria estar numa si­tu­ação de vida e morte, antes es­taria a dar con­forto a um ne­ces­si­tado na hora da sua ver­dade úl­tima. Aca­bados os es­ter­tores que anun­ciam a pas­sagem das úl­timas gotas de sangue pelas veias já pu­tres­centes, deitou-se a seu lado. Abraçou-o e deixou-se ador­mecer. Este dia teria de passar sem ele.