Master of Business Administration


Ima­gem: Autor Des­co­nhe­ci­do

São todos iguais: homens de meia idade, cabe­lo rapa­do, cami­sas de cola­ri­nho curto ou ita­li­a­no de corte slim fit, fato três tama­nhos abai­xo do ego. Movem-se entre sor­ri­sos e hash­tags, dis­pa­ran­do pole­ga­res ergui­dos à esquer­da e à direi­ta, trans­pi­ran­do con­fi­an­ça por todos os poros. O dis­cur­so, sim­plis­ta, con­tém pala­vre­a­do obri­ga­tó­rio, todo ele posi­ti­vo: desa­fio”, opor­tu­ni­da­de”, solu­ção”, cola­bo­ra­ção”, mudan­ça”, glo­bal”, futu­ro”, são algu­mas das mui­tas expres­sões obri­ga­tó­ri­as, sem as quais um power­point será vali­da­do como sendo espec­ta­cu­lar”, e obter assim as dese­já­veis pal­mas ou o tão ger­mâ­ni­co bater os nós dos dedos no tampo da mesa. Usam expres­sões de acção como fazer”, con­se­guir”, caçar”, mudar”, que lhes empres­tam atri­bu­tos de homens pro-acti­vos, faze­do­res, pre­da­do­res. Deci­dem. Deci­dem muito. Deci­dem sem­pre. Dizem que mais vale uma má deci­são do que deci­são algu­ma. Usam ana­lo­gi­as mili­ta­res, como força-tare­fa”, força espe­ci­al”, quar­tel-gene­ral”, for­ças no ter­re­no”, eli­mi­nar o alvo”, con­quis­tar ter­re­no”. E dizem tudo isto em inglês. Pra­ti­cam cross-fit, vão a des­ti­nos exó­ti­cos nas féri­as, per­ten­cem a uma orga­ni­za­ção de apoio comu­ni­tá­rio, a um clube de ges­to­res e a outro de golfe, de ténis ou de squash. São con­ser­va­do­res ins­ti­tu­ci­o­nais, libe­rais eco­nó­mi­cos, liber­tá­ri­os indi­vi­du­ais, e liber­ti­nos após o quar­to whisky no hotel da con­fe­rên­cia. Lêem muito, espe­ci­al­men­te livros de ges­tão e de mar­ke­ting, e reci­tam estra­té­gi­as e case stu­di­es de cor. E quan­do o pro­ble­ma, pala­vra proi­bi­da, é aflo­ra­do por alguém, expli­cam que a pala­vra chi­ne­sa para ame­a­ça é a mesma que para opor­tu­ni­da­de”, que não há pro­ble­ma que não tenha pelo menos duas solu­ções”, que atin­gir uma meta é uma deci­são indi­vi­du­al”, etc., etc., aca­ban­do por per­gun­tar se és um faze­dor?”, como se não exis­ta outra res­pos­ta pos­sí­vel, e como se a solu­ção para o pro­ble­ma depen­da uni­ca­men­te da tua von­ta­de de ven­cer”, dei­xan­do implí­ci­to que, se não é o caso, tal­vez este­jas no local erra­do. Pra­ti­cam a lide­ran­ça moti­va­ci­o­nal”, fenó­me­no que não dis­pen­sa enge­nhei­ros da feli­ci­da­de” e arqui­tec­tos de solu­ções”. Bara­lham e tor­nam a dar, expli­can­do que depen­dem de ti”, como se essa fosse uma con­clu­são a que nin­guém che­ga­ria por si pró­prio, como se tal depen­dên­cia fosse, de repen­te, uma espé­cie de pro­mo­ção. Lem­bram-se, de vez em quan­do, de te per­gun­ta­rem como vão as coi­sas em casa”, mas não sabem nada de ti, nem que­rem saber, e fazem-no ape­nas para ini­ci­ar a con­ver­sa do tenho um desa­fio para ti”.

Os velhos ges­to­res, aque­les que apren­de­mos a abo­mi­nar como sendo os explo­ra­do­res”, os velhos bur­gue­ses”, exi­gin­do que uma nova gera­ção” tomas­se o lugar, estão quase todos mor­tos. Essa nova gera­ção tomou agora o lugar, vinda das busi­ness scho­ols” e colo­can­do um MBA” no final do nome, como se per­ten­cen­do todos a uma única e exclu­si­va famí­lia. E de facto todos eles per­ten­cem a uma única e exclu­si­va famí­lia, aque­la cujo conhe­ci­men­to assen­ta num sór­di­do con­jun­to de luga­res comuns repre­sen­ta­ti­vos exclu­si­va­men­te de his­tó­ri­as de suces­so, um conhe­ci­men­to inca­paz de lidar com a adver­si­da­de em ter­mos tác­ti­cos e ope­ra­ci­o­nais, trei­na­dos ape­nas para criar” visões e estra­té­gi­as que, não dando resul­ta­do, ape­nas redun­dam em mais uma série de des­pe­di­men­tos da cam­ba­da de incom­pe­ten­tes que não soube com­pre­en­dê-los e ali­nhar” na ele­va­da causa em que se empe­nha­ram. Ao con­trá­rio dos velhos ges­to­res, não conhe­cem a força de tra­ba­lho, não conhe­cem os meios de pro­du­ção, e nem sequer tra­ba­lham para um patrão – são escra­vos da cor­po­ra­ção, e os seus donos são um con­jun­to anó­ni­mo de acci­o­nis­tas. Ao con­trá­rio dos velhos ges­to­res, não têm ide­o­lo­gia, moral, ética, sejam elas cer­tas ou erra­das. Não assu­mem ris­cos. Não têm espi­nha. Nada mais são do que pas­sa­gei­ros de pri­mei­ra clas­se num cru­zei­ro à deri­va, cujos salva vidas estão quase todos ali, no con­vés supe­ri­or. Ao con­trá­rio dos velhos ges­to­res, não são res­pon­sá­veis pelo fra­cas­so, são ape­nas sau­da­dos pelos peque­nos suces­sos que vão con­se­guin­do, pro­fu­sa­men­te espe­lha­dos nos power­points das reu­niões da ges­tão, pro­mo­vi­das vezes sem conta ao dia, nas comu­ni­ca­ções inter­nas, no Lin­ke­dIn. Os novos ges­to­res são os homens do sis­te­ma, tra­ba­lham para o sis­te­ma, cres­cem no sis­te­ma, vivem do sis­te­ma, ape­nas enten­dem a rea­li­da­de den­tro do sis­te­ma, nada fora dele é váli­do. São eles quem, quan­do algo corre mal, entram em pâni­co, pois não con­se­guem enten­der o que falhou. Não foram edu­ca­dos para o falhan­ço, não enten­dem sequer o con­cei­to excep­to se enqua­dra­do num meme do géne­ro falha outra vez, falha melhor”. São todos iguais: pra­ti­ca­men­te inú­teis. E isso expli­ca tanta coisa.

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