Livro dos Dias: Inconfessável


Buraco
Foto dis­po­ní­vel no Uns­plash

Almo­ço cedo numa espla­na­da junto à estra­da e, enquan­to tento enten­der como lidar com a mis­tu­ra de fran­go mal assa­do e o fumo do die­sel, os nati­vos olham-me de sos­laio, tal­vez pen­san­do que anda mouro na costa”, enquan­to embor­cam os mar­ti­nis com cer­ve­ja da manhã que já vai longa, e uma famí­lia que mais pare­ce um ran­cho entra no espa­ço, ocu­pan­do tudo e todos e mais o ar que nos falta no calor do meio dia, moven­do mesas e cadei­ras para acon­che­gar os cus sobre­di­men­si­o­na­dos delas e os raquí­ti­cos deles, povo­an­do o espa­ço com o carac­te­rís­ti­co almís­car ado­ci­ca­do que sudo­rí­pa­ras afo­ga­das em Axe dei­xam esca­par, essa espé­cie de doce sal­ga­do que se encon­tra nos mor­tos desde há algum tempo liber­ta­do pelas mulhe­res de cabe­lo pin­ta­do de raiz à mos­tra apa­nha­do no cocu­ru­to, ves­tin­do as nódo­as das cami­so­las cave­a­das e as pro­ver­bi­ais licras que dei­xam sair a orgu­lho­sa pro­tu­be­rân­cia que já há muito ultra­pas­sou o esta­do sim­ples de muf­fin top”, quase uma iden­ti­da­de, quase uma forma de vida, atas­ca­da entre o inú­til e o irre­le­van­te e esque­ci­das da prá­ti­ca da vida enquan­to ela o é… dizia eu que estou a ten­tar adi­vi­nhar como é pos­sí­vel não assar bem um fran­go e como se per­mi­te que uma espla­na­da este­ja tão em cima da estra­da e assim per­di­do nos meus pen­sa­men­tos e no inces­san­te chil­reio da prole da mesa ao lado e das impre­ca­ções delas e do autis­mo deles e dos nomes e pen­te­a­dos de joga­do­res de fute­bol e dos bonés leve­men­te assen­tes no telha­do da cabe­ça e dos fatos de trei­no da feira e dos víde­os da Ana Leal ali em alta­voz entre o nada feito e o nada a fazer excep­to a ida para casa ou para o tasco seguin­te ou um pas­seio ao Inter­mar­ché, chego a um ponto incon­fes­sá­vel e pro­va­vel­men­te injus­to em que me per­gun­to, ou per­gun­to a alguém de maior enten­di­men­to do que o meu, tal­vez um deus, per­gun­to então por­que nos calhou a nós per­der a vida.

Arquivo: livro dos dias

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