Livro dos Dias: Aborrecimento


Cada vez mais fre­quen­te­men­te dou comi­go a pen­sar por pen­sar, indo­len­te, sem con­sequên­cia que não se tra­du­za na desis­tên­cia a curto prazo, dei­xan­do de lado a tra­ba­lhei­ra de dali tirar con­clu­sões ou novas per­gun­tas sequer. A ver­da­de é que já pou­cas coi­sas me inte­res­sam ver­da­dei­ra­men­te e o meu pen­sa­men­to foge cada vez mais para um sem núme­ro de abs­trac­ções que, como jogos de pala­vras, vão toman­do forma sem con­teú­do defi­ni­do. Some-se a esse desin­te­res­se gene­ra­li­za­do a minha carac­te­rís­ti­ca difi­cul­da­de de con­cen­tra­ção e foco, e temos o que se sabe de mim. Esta con­di­ção tem vindo a sur­tir um efei­to cada vez mais per­ni­ci­o­so à saúde das minhas rela­ções com os que me rodei­am. A ver­da­de é que estou a parir um velho iras­cí­vel e irri­tan­te na sua impa­ci­ên­cia para com a deman­da alheia, por­que de repen­te tudo é alheio e deman­da, e nesta arro­gân­cia nega­tó­ria da mais sim­ples con­tra­di­ção, por­que tudo se con­tra­diz com sim­pli­ci­da­de. Enfim, este não há pachor­ra” per­ma­nen­te cha­teia qual­quer um, espe­ci­al­men­te a mim pró­prio – e eis que, ao sabor da von­ta­de da cane­ta, chego a uma con­clu­são ful­cral: abor­re­ço-me a mim pró­prio.

Diga-se porém, que esta con­di­ção tem tam­bém cau­sas exter­nas, como não pode­ria dei­xar de ser, uma vez que somos o soma­tó­rio de todas as coi­sas que nos rodei­am, as exis­ten­tes e as ine­xis­ten­tes. Pode­ría­mos dizer que, no que ao pen­sa­men­to con­cer­ne, nada é bom ou mau até que assim o jul­gue­mos, como um dia expli­cou Ham­let a Rozen­crantz, mas per­mi­to-me dis­cor­dar. A His­tó­ria ensi­na-nos que cada con­sequên­cia pro­vém de uma acção, e que cada acção é resul­ta­do de um pen­sa­men­to – e que o pen­sa­men­to, na His­tó­ria, nada mais é do que a inter­sub­jec­ti­vi­da­de que o zeit­geist ofe­re­ceu em deter­mi­na­da época. E ensi­na-nos que exis­tem con­sequên­ci­as benig­nas e malig­nas, em todo o seu espec­tro de benig­ni­da­de ou malig­ni­da­de. Quero desta forma ata­ba­lho­a­da dizer que exis­te um sem núme­ro de pen­sa­men­tos cor­ren­tes que aju­da­ram a este meu com­por­ta­men­to, a esta coisa do não há pachor­ra” que osci­la entre o san­guí­neo e o bili­o­so. Na ver­da­de, são mais modas do que pen­sa­men­tos: o nihi­lis­mo frí­vo­lo do baco­co-bur­guês, o mono­cro­ma­tis­mo con­fun­di­do com radi­ca­lis­mo ser­vi­do em memes revo­lu­ci­o­ná­ri­os, o pen­sa­men­to žiže­ko-face­bo­o­ki­a­no.

Nada disto me inco­mo­da­ria se eu não me reco­nhe­ces­se em cada uma des­sas modas, e se não sou­bes­se que elas não são mais do que con­sequên­cia da igno­rân­cia galo­pan­te que nos assal­ta com cada vez mais força. E inco­mo­dar-me-ia ainda menos se não sou­bes­se que estas modas tra­zem con­sequên­ci­as que são já visí­veis e cuja impor­tãn­cia não pode ape­nas ser medi­da pelo nosso jul­ga­men­to, aqui e agora, já que não pas­sa­mos de meros acto­res ama­do­res da His­tó­ria do tempo pre­sen­te. Mas a His­tó­ria é cir­cu­lar, e o dese­nho de cada ciclo ape­nas dife­re na ampli­tu­de do seu arco. Deve­ría­mos já ter apren­di­do algo, mas a igno­rân­cia tolda-nos e o espí­ri­to crí­ti­co não passa de um tolo achis­mo ou de uma cha­la­ça ama­re­la­da. É real­men­te mais sim­ples dis­cor­dar por­que acha­mos que. Ou de dife­rir a com­ple­xi­da­de de um assun­to para uma pia­do­la de enfant ter­ri­ble. Ou de reci­tar um mani­fes­to comu­nis­ta, capi­ta­lis­ta, anti-racis­ta, queer, ou fas­cis­ta, a pro­pó­si­to de qual­quer coisa ou de coisa algu­ma. Ou de dizer, em pose decla­ra­ti­va, que nada disso inte­res­sa, vamos todos mor­rer. Nada como usar uma más­ca­ra de cir­cuns­tân­cia e man­ter o esti­lo.

Ima­gem: The His­tory Bluff

Um burro car­re­ga­do de livros é um dou­tor, diz a sabe­do­ria popu­lar fre­quen­te­men­te erra­da. Um burro car­re­ga­do de livros é ape­nas um burro que pode­ria estar car­re­ga­do de outra coisa qual­quer, pois mais não faz do que car­re­gar o objec­to sem saber da sua essên­cia. Para esse burro, os livros repre­sen­tam ape­nas peso, assim como para quan­tos de nós o conhe­ci­men­to nada mais é do que um fardo de cujo peso ten­ta­mos liber­tar-nos assim que pos­sí­vel, osten­tan­do a arro­gân­cia devi­da ao acto, dizen­do algo como vou ter de ver isso com mais aten­ção”, como se efec­ti­va­men­te o fôs­se­mos fazer, como se efec­ti­va­men­te seja­mos capa­zes de apoi­ar o nosso achis­mo com novas e impres­si­o­nan­tes des­co­ber­tas entre dois perío­dos de tra­ba­lho, duran­te uma pausa para um cigar­ro. Eu tenho a sorte de conhe­cer pes­so­as que sabem mais do que eu acer­ca da mai­o­ria das coi­sas. São essas pes­so­as quem, com enor­me paci­ên­cia, atu­ram o meu achis­mo e tra­tam de con­tex­tu­a­li­zar as coi­sas, expli­can­do-me como elas se apre­sen­tam na minha rea­li­da­de. E se, no míni­mo, reco­nhe­ço a minha igno­rân­cia, a eles o devo e agra­de­ço. São esses os meus paci­en­tes ami­gos.

Fora eles, nada mais me auxi­lia a enten­der o mundo e, em suma, a minha vida. A esco­la que fre­quen­tei espo­ra­di­ca­men­te e que nunca aca­bei por­que sem­pre detes­tei salas de aula que mais não são do que uma espé­cie de Reader’s Digest onde não cabe um míni­mo de curi­o­si­da­de ou crí­ti­ca, a elite infor­ma­da que não gosta de trans­fe­rir o conhe­ci­men­to por­que este é poder e por­que o poder, sabe­mos, não pode ser entre­gue à praça, a comu­ni­ca­ção soci­al entre­ti­da no fait-divers e inca­paz de inves­ti­ga­ção, de jor­na­lis­mo pro­pri­a­men­te dito, ou de mini­ma­men­te con­tex­tu­a­li­zar o facto na rea­li­da­de do lei­tor, ou mesmo os cien­tis­tas e filó­so­fos que, agora trans­for­ma­dos em rock-stars, enten­dem que para a popu­la­ça nada mais é neces­sá­rio do que um meme publi­ca­do numa das redes soci­ais, que de meme em meme se vende um livro ou uma con­fe­rên­cia, os polí­ti­cos inca­pa­zes de uma solu­ção, de pre­sos que estão na real poli­tik dos com­pro­mis­sos e rea­li­da­des estra­té­gi­cas que mais não são do que cedên­ci­as à per­pe­tu­a­ção do sta­tus quo e à manu­ten­ção do lugar na fila para a entra­da no mundo dos VIP do poder. Na ver­da­de há muito mais gente a abor­re­cer-me.

Cada vez mais fre­quen­te­men­te dou comi­go a pen­sar por pen­sar, indo­len­te, sem con­sequên­cia que não se tra­du­za na desis­tên­cia a curto prazo, dei­xan­do de lado a tra­ba­lhei­ra de dali tirar con­clu­sões ou novas per­gun­tas sequer. A ver­da­de é que já pou­cas coi­sas me inte­res­sam ver­da­dei­ra­men­te e o meu pen­sa­men­to foge cada vez mais para um sem núme­ro de abs­trac­ções que, como jogos de pala­vras, vão toman­do forma sem con­teú­do defi­ni­do. Como se fos­sem um post num blog qual­quer.

Arquivo: livro dos dias

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