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Anacoreta
  cjt | 17.09.2018

A Erudita - Priscila Cler
Imagem: Pris­cila Cler, A Eru­dita”, via O Tempo

Po­derá ter sido um jovem bri­lhante, aquele que, para além de ler os li­vros certos e atender às con­fe­rên­cias e eventos que alargam os ho­ri­zontes, aprendeu a vida como ela deve ser apren­dida – pelo mé­todo ex­pe­ri­mental, da ten­ta­tiva e erro, mais dos se­gundos do que dos pri­meiros e, assim, di­ver­tindo-se quanto baste no seu usu­fruto. Mas se assim foi, a vida ac­tual do Ana­co­reta nada disso deixa trans­pa­recer. Diga-se em abono da ver­dade que as coisas não lhe cor­reram da me­lhor forma: em vez de poeta, fi­ló­sofo ou, vá lá, po­lí­tico de re­nome, coisas que lhe pa­re­ciam certas vir a ser, o Ana­co­reta vê a sua vida re­par­tida entre dois mundos: o do pe­queno ga­bi­nete de sub-sub-sub-chefe de uma re­par­tição sem ob­jecto digno de re­fe­rência, onde sen­tado por de­baixo do ar con­di­ci­o­nado que não pode re­gular, já que a re­gu­lação do ar con­di­ci­o­nado per­tence à ma­nu­tenção, aguarda pa­ci­en­te­mente a pro­moção a sub-sub-chefe desta ou de outra re­par­tição qual­quer; e o das redes so­ciais onde dá asas à sua re­volta, pois a re­volta é filha da sub­missão e, vendo bem, o Ana­co­reta é o per­feito exemplo dessa tão ado­les­cente re­lação.
Foi essa re­clusão num mundo dis­tante, o da re­a­li­dade, que lhe deu as ganas que dão aos ex-fu­ma­dores e ex-to­xi­co­de­pen­dentes, às mu­lheres abu­sadas pelos ma­ridos sem pos­si­bi­li­dade de re­volta, aos pa­ci­entes em torno da morte, ou aos após­tatas, essas ganas de per­tencer a algo maior do que ele pró­prio, a uma causa, ou vá­rias delas, a uma ide­o­logia, talvez. E sem re­parar, trans­formou-se num mi­nion, um idiota útil, uma es­pécie de car­teiro de Ne­ruda morto in­dis­cri­mi­na­da­mente e sem aviso na cor­rida à pos­si­bi­li­dade de gritar uma me­tá­fora no palco maior. Deixou de ter ad­ver­sá­rios, passou a ter ini­migos. Passou a ter cer­tezas, e ainda por cima ab­so­lutas, na vo­ra­ci­dade re­dun­dante de quem tem tudo a provar e nada a perder. E quem não está com ele, está contra ele. Vo­ci­fera os afo­rismos. Ca­ta­loga as fa­lá­cias. Cor­rige a gra­má­tica. Dita leis. In­sulta com a di­plo­macia do es­cri­tu­rário. E grita Li­ber­dade como a gri­taram todos os di­ta­dores. E likelike, de adoro em adoro, vai as­cen­dendo so­li­tário ao re­gaço de pedra dos seus novos deuses.

Para ler:   Ipse Dixit \ Cioran