A Terra Prometida


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São milha­res, milhões já, os que todos os dias che­gam a cos­tas conhe­ci­das ape­nas pelo que delas ouvi­ram falar, essas Ter­ras Pro­me­ti­das aos que, como eles, pro­cu­ram a con­cre­ti­za­ção do man­tra Paz, Pão, Habi­ta­ção, Saúde e Edu­ca­ção”, ainda que a últi­ma não seja ainda uma pri­o­ri­da­de e a penúl­ti­ma se faça por ela pró­pria, com tempo. Essas pro­mes­sas de paz e maná nada mais são do que um cruel enga­no, um entre­te­ni­men­to de deu­ses ente­di­a­dos no lento anda­men­to do tempo, e nada mais ofe­re­cem senão cam­pos de con­cen­tra­ção, a divi­são de famí­li­as, a sau­da­de dos que fica­ram para trás, em terra ou no gelo do mar, ou do peda­ço de terra que outro­ra foi seu e que agora é ocu­pa­do por outros, tam­bém eles jus­tos aos olhos dos seus deu­ses. Esta é a his­tó­ria dos dias de hoje, dias negros de um sécu­lo que, pro­du­to dos ante­ri­o­res, nada apren­deu com a His­tó­ria.

Os sinais estão aí. Melhor dizen­do, já nem sequer são sinais, são evi­dên­ci­as cla­ras como a água, que nos atin­gem a reti­na can­sa­da do scroll casu­al, entre dois gatos e um meme. Pales­ti­nos são dia­ri­a­men­te humi­lha­dos nas fron­tei­ras e mor­tos indis­cri­mi­na­da­men­te, refu­gi­a­dos são recu­sa­dos de país em país até ao pró­xi­mo campo de inter­na­men­to, ciga­nos são recen­se­a­dos para futu­ra expul­são, gays e lés­bi­cas são repri­mi­dos, tor­tu­ra­dos e mor­tos, cri­an­ças são sepa­ra­das das famí­li­as e encer­ra­das em jau­las, pre­si­den­tes alu­ci­na­dos dese­nham futu­ros de bíblia, corão, ou de tosta parei­dó­li­ca na mão, sem­pre com um algo maior do que nós” para ofe­re­cer, seja ele uma reli­gião ou uma nação, seja a sua His­tó­ria pas­sa­da real ou ima­gi­na­da, seja a sua His­tó­ria futu­ra escri­ta a tinta, san­gue ou dinhei­ro. Assis­ti­mos a tudo isso, assim, encan­de­a­dos na nossa pas­si­vi­da­de.

IOM Missing Migrants Project
– Fonte: IOM – Mis­sing Migrants Pro­ject – cli­que na ima­gem para ace­der ao site.

O pro­ble­ma da Terra Pro­me­ti­da é que os deu­ses sem­pre a ofe­re­ce­ram a nós, o Povo Justo, os Esco­lhi­dos. Eles, os outros, se não tive­ram os deu­ses do lado deles é por­que não o mere­ce­ram. Por­que eles têm usos e cos­tu­mes que não se enqua­dram na nossa rea­li­da­de ilu­mi­na­da, por­que eles tra­jam de forma ina­de­qua­da aos dita­mes da moda sofis­ti­ca­da da Pri­mark e do C&A, por­que eles são, veja­mos bem, pri­mi­ti­vos de cren­ças ana­cró­ni­cas em deu­ses fal­sos e cruéis. Nem sequer sen­tem a morte como nós, são mesmo capa­zes de viver a vida quan­do lhes falta um filho que ficou ali, a afun­dar len­ta­men­te nas águas gela­das do turís­ti­co Medi­ter­râ­neo. Sim, claro, se fosse um de nós, mor­re­ria ali mesmo. Con­ver­sas de café. Con­ver­sas que deci­dem que vêm para cá rou­bar-nos os empre­gos ou viver à custa de sub­sí­di­os, con­ver­sas que con­clu­em que tudo isto não passa de uma ocu­pa­ção.

Vive­mos numa terra onde cor­pos se enlei­am no arame far­pa­do de Meli­la, onde milí­ci­as civis arma­das caçam imi­gran­tes ile­gais em Rio Gran­de, onde navi­os recu­sam auxí­lio a botes sobre­lo­ta­dos de fome e frio. É uma terra onde polí­ti­cos se limi­tam à dança ceri­mo­ni­al e ao anún­cio pro­to­co­lar de indig­na­ção”, sem tomar o freio que mas­sa­cra os den­tes de alu­ci­na­dos, pro­pon­do san­ções objec­ti­vas, sem medo de serem jus­tos. Há muita guer­ra no mundo, se uma delas, só uma, fosse justa. Às vezes acho que o tempo de agir já pas­sou, que não nos resta outra via senão a da lenta espe­ra pelo ponto de não retor­no, sen­ta­dos fren­te a um lives­tre­am numa reti­na elec­tró­ni­ca qual­quer, duran­te uma pausa na nossa pró­pria sobre­vi­vên­cia. Por­que é essa a moder­na manei­ra de ver o mundo, medi­a­da. Para que neces­si­ta­mos da rea­li­da­de, se temos a sua repre­sen­ta­ção, sem toque ou chei­ro, poden­do mesmo des­li­gar o som?

A Terra Pro­me­ti­da é árida de huma­ni­da­de.

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