Os Invisíveis

Sem-abrigo
Imagem: Sem-abrigo no Porto, autor des­co­nhe­cido

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Es­tamos fartos de ser tra­tados como in­vi­sí­veis. Agora, com a covid, as pes­soas apro­veitam para dar ordem de des­pejo e o Go­verno pro­mete, pro­mete e não dá nada”, diz Tiago, desde os 33 na rua, agora com mais dez, ao que acres­centa Para eles só exis­timos no Natal e nas qua­dras fes­tivas. Já chega”, ar­re­mes­sando a Mar­celo e Me­dina. Já vivi em ins­ti­tui­ções, mas as re­gras são pi­ores do que as pri­sões. Não temos con­di­ções, há roubos, os mo­ni­tores batem-nos e a Santa Casa ganha ba­lúr­dios com isso. É pre­fe­rível ficar na rua”, es­cla­rece Sandra. E há ainda o José, há três anos a aguardar um sub­sídio pela in­ca­pa­ci­dade que um aci­dente lhe pro­vocou. Aguarda sen­tado numa ca­deira de rodas. O sub­sídio ou, quem sabe, a rua onde ainda não está porque ainda não foi des­pe­jado.

São ob­jectos quo­ti­di­anos, es­pé­cies ar­qui­tec­tó­nicas da pai­sagem ur­bana, algo como um mupi que nos in­forma da exis­tência de ou­tras li­nhas de re­a­li­dade. Pas­samos por eles sem os ver à força de tanto serem vistos nos lo­cais ha­bi­tuais e, quando calha re­pa­rarmos num deles, ra­pi­da­mente se trans­formam em in­trusos. É por isso que não nos im­por­tamos muito com a sua con­dição de mo­bi­liário ur­bano, com essa in­vi­si­bi­li­dade sempre vista através de fil­tros co­lo­ridos como luzes de Natal e co­letes re­flec­tores em noites frias de In­verno, ou na lu­mi­no­si­dade que sai de uma montra re­cuada que não tenha ainda os picos dis­su­a­sores da per­noita.

Sem-abrigo no Porto
Imagem: Sem-abrigo no Porto, autor des­co­nhe­cido

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Como, porque nos surgem eles, esses ob­jectos pe­nados da ci­dade? Há es­tudos que o es­cla­recem, feitos por cen­tenas, se não mi­lhares de es­ta­giá­rios, mes­trandos e dou­to­randos, mais os se­nhores da câ­mara e mais o Mar­celo que os ouve uma vez por ano, mas a ver­dade é que existem mo­tivos a mais para o seu sur­gi­mento, fa­ci­li­dade de­ma­siada para que qual­quer um de nós se trans­forme em mais um ob­jecto ur­bano, in­vi­sível, in­de­se­jado. Talvez por isso nos in­co­mode a sua pre­sença. E, sa­bemos bem, os olhos apenas veem o que querem ver. A nossa tão fa­lada nor­ma­li­dade é uma cons­trução em pa­ta­mares e, no que res­peita à com­pa­ração co­migo e com a mai­oria dos que se dão ao tra­balho de ver isto, eles estão bem lá abaixo.

Con­se­guimos, desde sempre, enfiá-los num cír­culo vi­cioso. Perdem o tra­balho, perdem a casa, não con­se­guem tra­balho porque não têm casa, de­sistem. In­te­grámo-los no cir­cuito das ins­ti­tui­ções onde, antes de seres hu­manos, são vistos como o tra­balho” de lhes dar co­mida, um banho oca­si­onal, dor­mida se houver vaga e, porque não, maus tratos. E in­ven­tamos-lhes causas para o seu opó­brio: são anti-so­ciais, não querem tra­ba­lhar, querem viver do sub­sídio, são bê­bedos e dro­gados – sem cui­darmos que tantas das vezes esses são efeitos e não as causas, porque nós, for­mi­gui­nhas ati­nadas do pa­tamar de cima, nós damos o con­tri­buto para a eco­nomia e para a so­ci­e­dade, para além de des­con­tarmos para os ali­mentar, para além de vermos o jantar de Natal na te­le­visão.

Ontem saíram para a luz numa ten­ta­tiva de vi­si­bi­li­dade, frente à casa da de­mo­cracia. Ten­ta­tiva vã. De­pois de muito exi­girem a pre­sença de um po­lí­tico que fosse, lá apa­receu uma, uma única, Jo­a­cine, para dizer não mais do que umas pa­la­vras ób­vias acerca do di­reito cons­ti­tu­ci­onal que lhes de­veria ga­rantir ha­bi­tação. Os já menos de cin­quenta, entre sem-abrigo e apoi­antes, foram em­bora de se­guida, para se en­fi­arem nos re­cantos lá onde cos­tumam en­fiar-se, longe dos olhares, longe da luz, quem sabe na por­taria de um prédio aban­do­nado à es­pera de um alo­ja­mento local que o salve da de­mo­lição.