Homens de Palha

Dizia-me Torben, du­rante uma con­versa acerca do Porto ser gay fri­endly”, que a ci­dade era também porto de pe­do­filia e que esta é mesmo ce­le­brada em es­tátua plan­tada ali mesmo ao lado dos Clé­rigos. Sor­ri­dente, sacou do te­le­móvel e deixou o Go­ogle pro­curá-la pelos termos es­tátua porto perto clé­rigos homem cri­ança”, seja lá qual for a forma como isso se es­creve em di­na­marquês, e mos­trou-me o re­sul­tado: a imagem era nada menos do que a da es­cul­tura Amor de Per­dição”, da au­toria de Fran­cisco Si­mões, que a doou à ci­dade por al­tura do 11º ani­ver­sário do con­su­lado de Rui Rio ao vo­lante da câ­mara mu­ni­cipal tri­peira, em 2012.

Amor de Perdição
Imagem: Amor de Per­dição”, no Poto – © Fer­nando Veludo/​Infactos/​Público

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Com al­guma pa­ci­ência para com a bra­vata lá lhe ex­pli­quei que os re­tra­tados são Ca­milo e Ana, amantes proi­bidos, ali feitos em liga me­tá­lica frente à prisão que os al­bergou. Ele aceitou tal como ver­da­deiro, acres­cen­tando um es­pan­tado mas a miúda também foi presa?”

A ver­dade é que, dada uma volta à es­tátua, o que ali vemos é um velho que agarra uma jovem pouco mais do que cri­ança, ten­tando es­conder os pre­paros com a capa que não con­segue co­brir o corpo nu da me­nina. A coisa fica ainda mais di­fícil de en­tender se fi­zermos uma busca de ilus­tra­ções da Ana Plá­cido à época. Mesmo com a maior bon­dade, não con­se­gui­remos en­con­trar uma me­nina como a re­tra­tada na es­tátua. Em suma, o que ali temos é um velho de capa sus­peita que aca­ricia uma me­nina, e a não ser que lhe demos um en­qua­dra­mento his­tó­rico que dis­traia os olhos da inépcia do es­cultor, di­fi­cil­mente la­va­remos essa im­pressão da re­tina.

Já na es­tátua do Padre An­tónio Vi­eira, plan­tada no Largo Trin­dade Co­elho em Lisboa, tais equí­vocos são são per­mi­tidos: os re­tra­tados são o padre e três cri­anças ín­dias. O porte do je­suíta não en­gana, de cruz ao alto leva a Boa Nova aos povos des­co­bertos”, ali re­pre­sen­tados pelas três cri­anças, numa con­fi­gu­ração que em tudo pa­rece cum­prir os có­digos do sim­bo­lismo co­lo­nial do Es­tado Novo.

Padre António Vieira
Imagem: Padre An­tónio Vi­eira”, em Lisboa – © Nuno Fox/​Expresso

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Uma rá­pida con­sulta acerca do Padre An­tónio Viera dir-nos‑à que este je­suíta não era, de todo, o exem­plar por­tador de novos mundos ao mundo”, mas sim um lu­tador pelos di­reitos dos povos in­dí­genas do Brasil – onde lhe cha­mavam Paiaçu, pai” em tupi – e pelos di­reitos dos ju­deus na Eu­ropa, foi per­se­guido pela In­qui­sição, contra a qual lutou em de­vido tempo, tendo con­se­guido atear a chama que desta vez ex­tin­guiria a or­ga­ni­zação que tantas ou­tras fo­gueiras ateou.

Não obs­tante esse co­nhe­ci­mento, a es­tátua foi pi­chada a cor de sangue e viu ins­crita no pe­destal a pa­lavra des­co­lo­niza” – sem dú­vida um re­flexo do que se passa pelo mundo em re­volta contra os abusos po­li­ciais e o ra­cismo que, de forma ge­ne­ra­li­zada, tem vindo a mos­trar a face de forma cada vez mais des­ca­rada, muito por via da re­la­ti­vi­zação cons­tante com que ide­o­lo­gias do início do sé­culo XX são brin­dadas em nome da­quilo a que chamam li­ber­dade. Uma re­volta que, como todas as re­voltas, tem o seu nú­mero de danos co­la­te­rais.

Pen­semos no que têm estas es­tá­tuas em comum. Ambas são ícones de per­so­na­gens im­por­tantes que vi­veram em mo­mentos im­por­tantes da his­tória; ambas são sím­bolos do poder que mandou ins­talá-las en­quanto obra feita”; ambas per­pe­tuam so­li­da­mente essas duas con­di­ções tra­du­zidas pela in­ter­pre­tação do ar­tista e pela per­cepção do pú­blico. Po­demos dizer isto de qual­quer es­tátua ou de qual­quer ícone his­tó­rico no mundo, seja ele re­pre­sen­ta­tivo de uma pessoa, tempo, es­paço, ou si­tu­ação no­tadas no pas­sado ou pre­sente his­tó­rico, ou de­se­jadas para o fu­turo. Não faltam exem­plos exis­tentes, assim como não faltam exem­plos de des­truição desses ícones.

Cónego Melo
Imagem: Có­nego Melo”, em Braga – autor des­co­nhe­cido

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A imagem acima é um por­menor da es­tátua do Có­nego Melo, um padre com li­ga­ções ao MDLP, grupo ter­ro­rista de ex­trema-di­reita do pós-25 de abril, que está plan­tada em Braga, no topo de um al­tís­simo pe­destal. O que per­mite que esta es­tátua es­teja ali, como foi ela per­mi­tida? Se­gundo a jus­ti­fi­cação da al­tura, apro­vada pelo CDSPSD com abs­tenção do PS, er­guia-se a es­tátua em ho­me­nagem à luta pela li­ber­dade” que o Có­nego pro­moveu e pra­ticou, num ex­ce­lente exemplo da re­la­ti­vi­zação abor­dada an­te­ri­or­mente. Porque é que ainda lá está, in­teira e in­có­lume aos efeitos de gra­fitti? Talvez pela al­tura do pe­destal.

Este exemplo per­mite-me apenas ilus­trar o que digo acima: as es­tá­tuas e ou­tros sím­bolos ar­tís­ticos e ar­qui­tec­tó­nicos nada mais são do que uma amostra pe­rene do poder e da sua ide­o­logia da época. E há-as para todos os gostos e cores ide­o­ló­gicas, bas­tando uma volta pelo Alen­tejo para ve­ri­fi­carmos uma ino­no­grafia em sen­tido oposto.

A des­truição de sím­bolos é normal em tempos de re­volta. Per­so­ni­ficam o poder que que­remos com­bater, e por isso são aba­tidos em ca­tarse. Des­truíram-se até hoje mi­lhares de sím­bolos re­li­gi­osos e po­lí­ticos: ju­deus, cris­tãos, is­lâ­micos, sikhs, bu­distas, sa­ta­nistas, nazis, co­mu­nistas, fas­cistas, anar­quistas… a lista é enorme. Des­truíram-se ou da­ni­fi­caram-se, na vo­ragem das guerras, mo­nu­mentos in­subs­ti­tuí­veis como os re­cen­te­mente des­truídos pelo Daesh, em hor­ro­rosos aten­tados ao in­subs­ti­tuível e ir­re­cu­pe­rável pa­tri­mónio da Hu­ma­ni­dade.

Casa Africana, Porto - Folheto
Imagem: Fo­lheto da Casa Afri­cana, no Porto

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Como se trata de des­truição, in­te­ressa pensar bem no que es­tamos a des­truir e porque o fa­zemos. A me­mória his­tó­rica, sa­bemos, é ge­ral­mente es­crita pelos ven­ce­dores que a ditam ao sabor da sua ide­o­logia e in­te­resse, trans­for­mando muito da­quilo que sa­bemos do mundo num enorme pan­fleto que ce­lebra as con­quistas de poder. É so­mente pas­sado muito tempo que uma visão crí­tica se torna pos­sível, pro­ce­dendo-se então à sempre tra­ba­lhosa e fre­quen­te­mente do­lo­rosa ta­refa de lhe limar as arestas. Para que tal possa ser feito, é por vezes ne­ces­sário manter os ín­dices que ilus­tram essa His­tória, por muito de­sa­grado que eles possam causar.

Pes­so­al­mente não me causa es­tra­nheza a des­truição de al­guns dos sím­bolos de poder, já que não passam disso e o seu valor ar­tís­tico é nulo. Já não posso dizer o mesmo acerca da des­truição de sím­bolos cujo valor ar­tís­tico e/​ou his­tó­rico as­sume uma im­por­tância tal que, uma vez eli­mi­nados, per­demos uma re­fe­rência im­por­tante, seja ela de que na­tu­reza for. Es­pero, por exemplo, que mesmo o mais em­pe­der­nido re­vol­tado pense duas vezes antes de mandar abaixo o Mos­teiro dos Je­ró­nimos ou a Torre de Belém; já o mesmo não posso dizer de meia dúzia de es­tá­tuas que por aí andam, da di­reita à es­querda. São apenas ho­mens de palha, des­ti­nados à queima a cada volta da na­tu­reza hu­mana.

Re­la­ti­va­mente às obras li­te­rá­rias, como disse quando se an­teviu um Huc­kle­berry Finn sem a pa­lavra nigger”, como digo acerca da re­ti­rada de E Tudo O Vento Levou” do es­ca­pa­rate de um dos prin­ci­pais for­ne­ce­dores de filmes, como diria da cen­sura de Os Lu­síadas”, acho um dis­pa­rate. Isso nada mais é do que am­putar a obra, re­ti­rando-lhe o sen­tido do tempo e do modo da época. É, de resto, essa a minha grande pre­o­cu­pação: que de re­pa­ração em re­pa­ração, aca­bemos com um mundo que sempre foi lim­pinho e com a his­tória, uma vez mais, con­tada por um dos lados, o que con­quistou o poder. Que aca­bemos num país cujos go­vernos nunca glo­ri­fi­caram o co­lo­ni­a­lismo, sendo assim essa glo­ri­fi­cação feita pelo seu povo. Sinto-me à von­tade para dizer isto.

Não per­tenço a um Nobre Povo, a uma Nação Va­lente e Imortal, e muito menos dou ou­vidos a Egré­gios Avós que le­vantam a voz es­cu­tada das brumas da me­mória. Sou anti-na­ci­o­na­lista e, por isso, não vivo em mundos pas­sados dos quais não fiz parte. Não sinto dever al­guma coisa a al­guém, a não ser todo o res­peito pelo outro, seja ele quem for, de que cor, sexo, etnia ou re­li­gião for. É isso que pra­tico di­a­ri­a­mente. Não ne­ces­sito de am­putar a His­tória, não me in­te­ressam os ho­mens de palha.