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Whataboutery
  cjt | 15.06.2020

Acon­tece-me a mim e aos ou­tros, e a coisa tem ra­zões so­be­ja­mente co­nhe­cidas: a fa­ci­li­dade da par­tilha de con­teúdos que digam tanto ou mais do que eu po­deria dizer, e de forma ins­tan­tânea – e por isso su­jeita às ondas pro­du­toras do zeit­geist da bolha em que vi­vemos. Nunca antes houve tanto mundo, nunca antes saímos tão pouco para lá da fron­teira. Apenas a vo­ragem da opi­nião ins­tan­tânea, do meme, da in­dig­nação ao se­gundo me obri­ga­riam a es­crever o texto an­te­rior, que foi par­ti­lhado por aí, em nú­mero que me sur­pre­endeu. Na re­a­li­dade, não penso ter con­tri­buído muito para aquilo que de­veria estar a ser dis­cu­tido; antes caí na es­par­rela de ar­ra­nhar a su­per­fície em vez de es­cavar fundo, até ao sub­ter­râneo onde toda esta re­volta fer­menta – o ra­cismo, a xe­no­fobia, o clas­sismo.

Portugal é branco!
Imagem de autor des­co­nhe­cido

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Quase sem sur­presa, esses três temas in­con­tor­ná­veis foram afinal quase es­que­cidos. A dis­cussão é agora acerca de es­tá­tuas, dos tais ho­mens de palha. Em plena luta pelo pro­gresso ci­vi­li­za­ci­onal e pelos di­reitos hu­manos mais bá­sicos de qual­quer ser hu­mano, dis­cute-se o valor do totem. E en­quanto dis­cu­timos, por cá neste Por­tugal de brandos cos­tumes onde o ra­cismo não existe, pintam-se as pa­redes com ódio aos re­fu­gi­ados, os bairros so­ciais são in­va­didos pela po­lícia para fe­char cafés ou fazer testes de des­pis­tagem do vírus, um bairro de ci­ganos sofre con­fi­na­mento for­çado, mesmo ali ao lado de um ar­mazém que, por falta de con­di­ções de trans­porte pú­blico e de de­fi­ci­ente pro­tecção dos tra­ba­lha­dores se tornou um foco de pro­pa­gação.

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