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Mupis
  cjt | 16.06.2020

São ob­jectos quo­ti­di­anos, es­pé­cies ar­qui­tec­tó­nicas da pai­sagem ur­bana, algo como um mupi que nos in­forma da exis­tência de ou­tras li­nhas de re­a­li­dade. Pas­samos por eles sem os ver à força de tanto serem vistos nos lo­cais ha­bi­tuais e, quando calha re­pa­rarmos num deles, ra­pi­da­mente se trans­formam em in­trusos. É por isso que não nos im­por­tamos muito com a sua con­dição de mo­bi­liário ur­bano, com essa in­vi­si­bi­li­dade sempre vista através de fil­tros co­lo­ridos como luzes de Natal e co­letes re­flec­tores em noites frias de In­verno, ou na lu­mi­no­si­dade que sai de uma montra re­cuada que não tenha ainda os picos dis­su­a­sores da per­noita.

Sem-abrigo
Imagem: Sem-abrigo no Porto, autor des­co­nhe­cido

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Como, porque nos surgem eles, esses ob­jectos pe­nados da ci­dade? Há es­tudos que o es­cla­recem, feitos por cen­tenas, se não mi­lhares de es­ta­giá­rios, mes­trandos e dou­to­randos, mais os se­nhores da câ­mara e mais o Mar­celo que os ouve uma vez por ano, mas a ver­dade é que existem mo­tivos a mais para o seu sur­gi­mento, fa­ci­li­dade de­ma­siada para que qual­quer um de nós se trans­forme em mais um ob­jecto ur­bano, in­vi­sível, in­de­se­jado. Talvez por isso nos in­co­mode a sua pre­sença. E, sa­bemos bem, os olhos apenas veem o que querem ver. A nossa tão fa­lada nor­ma­li­dade é uma cons­trução em pa­ta­mares e, no que res­peita à com­pa­ração co­migo e com a mai­oria dos que se dão ao tra­balho de ver isto, eles estão bem lá abaixo.

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