Mappelthorpe 24.09.2018

Este ar­tigo contém links para ima­gens de con­teúdo ex­plí­cito, seja lá isso o que for. Con­si­dere-se avi­sado.

Self Portrait 1985 by Robert Mapplethorpe
Ro­bert Map­pelthorpe, Auto Re­trato”, 1985 – © Ro­bert Map­pelthorpe Foun­da­tion

Ro­bert Map­pelthorpe é, antes de tudo, um es­pí­rito do tempo que viveu, e essa con­dição pode ser-lhe in­grata na me­dida em que muita da sua obra, vista sim­ples­mente com os olhos, pode so­frer uma des­con­tex­tu­a­li­zação pe­na­li­za­dora da arte com que ainda nos pro­voca. De­pois, para além de fo­tó­grafo (e pintor, e es­cultor), Map­perthorpe é um por­nó­grafo, no sen­tido da re­pre­sen­tação do corpo e do acto sem filtro e, a par disso, Map­pelthorpe é um amo­ra­lista, no sen­tido da por­no­grafia que se torna arte para os que ousem olhá-la mais de perto. Map­pelthorpe é um fo­tó­grafo de flores, pes­soas e es­tados de alma, co­lo­cando umas e ou­tros em es­túdio, como se de nada mais se tra­tassem do que o ob­jecto de tra­ta­mento pela luz e sombra. E, por fim, Map­pelthorpe é ele pró­prio o ob­jecto desse tra­ta­mento, atrás ou à frente da câ­mara. Sem com­pro­missos ou con­ces­sões.
Falo de Map­pelthorpe como po­deria falar de Diane Arbus, Fran­cesca Wo­odman, Ru­dolf Schwarz­ko­gler, Craigie Hors­field, David Woj­na­rowicz, ou Ana Men­dieta – para men­ci­onar apenas uns poucos fo­tó­grafos que, num ou noutro ponto da sua obra re­tratam com a crueza que, se não é por­no­grá­fica no sen­tido mais se­xual do termo, é-o ainda assim no ex­po­sição da cir­cuns­tância sem re­curso a ou­tros fil­tros que não sejam os da sua es­té­tica. É mais o que os une do que aquilo que os se­para. A um dado mo­mento, a sua obra de­verá ter sido cho­cante ao ponto da sua não acei­tação pela men­ta­li­dade mais pro­vin­ciana, aquela que vê a arte uni­ca­mente como in­ter­pre­tação do seu de­sejo e que, quando con­fron­tada com novas re­a­li­dades, entra em de­lírio iden­ti­tário. Mas di­vago.

Self Portrait 1983 by Robert Mapplethorpe 1946-1989
Ro­bert Map­pelthorpe, Auto Re­trato”, 1983 – © Ro­bert Map­pelthorpe Foun­da­tion

Vem este post a pro­pó­sito da de­cisão que o Museu de Ser­ralves tomou, a de se­lec­ci­onar de­ter­mi­nadas peças para ex­po­sição em re­cinto ve­dado a me­nores de idade, dado o ca­rácter das obras con­si­de­radas de­ma­si­a­da­mente cho­cantes para o olhar de pes­soas com menos de 18 anos de idade. O facto é que, a par de fo­to­gra­fias de flores e re­tratos de per­so­na­li­dades, a par de nus e de auto-re­tratos, surgem ou­tras obras com o ca­rácter de Self Por­trait with Whip”, re­trato que me cau­saria muitas di­fi­cul­dades em ex­plicar a uma cri­ança, dada a minha ma­ni­festa falta de ha­bi­li­dade para ex­plicar o que quer que seja. Assim, a per­gunta torna-se mais do que le­gí­tima: deve ou não esta fo­to­grafia ficar longe dos olhares das cri­anças e ado­les­centes?

Pri­meira res­posta: sim.
A ver­dade é que muitos dos con­teúdos de Map­pelthorpe não foram con­ce­bidos a pensar nas cri­anças en­quanto pú­blico. São, para qual­quer dos efeitos, con­teúdos de cariz se­xual ex­plí­cito e, em grande parte das vezes, ex­plí­citos de uma se­xu­a­li­dade un­der­ground” – peco por falta de me­lhor ex­pressão, cor­rendo o risco de estar a de­turpar a men­sagem – fo­cada em prá­ticas BDSM ou em actos se­xuais de maior agres­si­vi­dade. Uma vez mais, não creio existir muita gente capaz de ex­plicar con­ve­ni­en­te­mente a uma cri­ança aquilo que ela está a ver.

Se­gunda res­posta: sim, mas.
Mas a de­cisão de as mos­trar ou não cabe aos pais ou en­car­re­gados de edu­cação. Há pais e pais, há fi­lhos e fi­lhos, uns que, como eu, não con­se­guem ex­plicar as coisas, ou­tros que o fazem com mes­tria, sendo o mesmo vá­lido para os fi­lhos que, sa­bemos, podem ser mais ou menos re­cep­tivos a de­ter­mi­nados con­teúdos. A única res­salva re­la­ti­va­mente a este as­sunto é re­la­tiva ao anun­ciado pelo museu: as cri­anças devem poder en­trar na sala acom­pa­nhadas pelos pais ou en­car­re­gado de edu­cação e não à com­pa­nhia de um adulto” qual­quer, sa­bemos que isso pode ser muito pe­ri­goso.

Self Portrait 1983, printed 2005 by Robert Mapplethorpe 1946-1989
Ro­bert Map­pelthorpe, Auto Re­trato”, 1983 (i.2005) – © Ro­bert Map­pelthorpe Foun­da­tion

Ter­ceira res­posta: essa é a per­gunta er­rada.
A per­gunta cor­recta seria: devem estas peças ser se­pa­radas do res­tante por­te­fólio ex­posto para pro­tecção dos me­nores? E se me fi­zerem essa per­gunta cor­recta, a minha res­posta é não.
Pri­mei­ra­mente, porque ao se­parar estes con­teúdos, es­tamos a fazer o mesmo que se fazia nos clubes de vídeo de an­ti­ga­mente, que ti­nham a sala do fundo” aberta apenas para um pú­blico se­lec­ci­o­nado. Isto é, se as fi­guras de Map­pelthorpe podem, desde logo, ser por­no­grá­ficas, ao isolá-las da res­tante obra, es­tamos a dotá-las desse único sen­tido, re­ti­rando-lhes a pos­si­bi­li­dade de serem vistas num con­texto mais abran­gente e pro­pício a um olhar mais atento que per­mita o en­ten­di­mento da arte en­quanto tal. De­pois, porque não creio que al­guém vá ver uma ex­po­sição do Map­pelthorpe sem co­nhecer mi­ni­ma­mente a sua obra, pelo que sa­berá de an­temão se pode ou não levar uma cri­ança con­sigo.

E, por fim, aquela que é a questão de fundo: porque não cabe ao museu de­cidir o que os vi­si­tantes podem ou não ver, ca­bendo-lhe apenas expor.
Podem in­sistir nos avisos à en­trada, es­critos em boa letra, di­zendo aos vi­si­tantes ao que vão – e avi­sando ver­bal­mente os que forem acom­pa­nhados por cri­anças, le­van­tando um pouco o véu acerca do que os es­pera no in­te­rior – mas nunca al­terar o pro­pó­sito pró­prio, o de expor sem li­mi­ta­ções de ordem al­guma.
Os mu­seus são o re­po­si­tório ma­te­rial da His­tória e da Cul­tura e, como tal, são agente di­recto da ma­nu­tenção do Plu­ra­lismo e da De­mo­cracia. Não existe jus­ti­fi­cação al­guma, moral, po­lí­tica, re­li­giosa, ou outra, que possa jus­ti­ficar a se­gre­gação total ou par­cial de um autor ou da sua obra. Ati­tudes dessas de­ve­riam já per­tencer a um outro museu, o da mo­ra­li­dade dos dias.