A Tomada da Hungria 14.09.2018

As pre­o­cu­pa­ções com que o PCP jus­ti­fica o voto contra a ac­ti­vação do ar­tigo 7º do tra­tado eu­ropeu para pu­nição do go­verno hún­garo são le­gí­timas. Com efeito, a União Eu­ro­peia abre desta forma um ca­minho in­de­se­jável, o da sus­pensão da par­ti­ci­pação de um país no exer­cício de­mo­crá­tico, de­vido à po­lí­tica in­terna vi­gente nesse ter­ri­tório, o que se con­fi­gura, à pri­meira vista, como uma in­ge­rência na so­be­rania e no di­reito de um povo. Porque con­si­dero então que o PCP está er­rado nesta de­cisão?
Pri­mei­ra­mente, porque um país que pro­fessa o ra­cismo, a xe­no­fobia, a per­se­guição de ho­mos­se­xuais, a per­se­guição de aca­dé­micos, e o con­trole do sis­tema de jus­tiça em favor dessas po­lí­ticas, não pode ser re­pre­sen­ta­tivo de uma Eu­ropa que se quer plural, de­mo­crá­tica e in­clu­siva. Em se­gundo lugar, pa­ra­fra­se­ando Bu­e­na­ven­tura Dur­ruti, O fas­cismo não se dis­cute, des­trói-se.” – e assim sendo, porque dar o di­reito de voto dentro de uma co­mu­ni­dade aos que o con­trolam dentro de portas?

É certo que esta minha opi­nião pode su­gerir que muitos dos ac­tuais re­pre­sen­tantes com as­sento nas as­sem­bleias eu­ro­peias de­ve­riam, também eles, ter essa mesma pos­si­bi­li­dade de voto sus­pensa, já que en­con­tramos entre estes al­guns dos mais gri­tantes exem­plares de fas­cistas e neo-nazis. A di­fe­rença entre os casos é a de os úl­timos não re­pre­sen­tarem países onde, em prin­cípio, tais vi­o­la­ções ocorram, pelo menos sob o ponto de vista não ne­ces­sa­ri­a­mente im­par­cial das normas eu­ro­peias. Existem nestas, como em todas as normas, fra­gi­li­dades que podem ser sus­tento de am­bi­gui­dades, esse ter­ri­tório pan­ta­noso onde se ins­talam in­te­resses po­lí­ticos e eco­nó­micos ou fi­nan­ceiros. Mas, em todo o caso, a de­mo­cracia ainda vai vin­gando na as­sem­bleia re­pre­sen­ta­tiva da von­tade dos eu­ro­peus, não que­rendo isto dizer que as im­po­si­ções eu­ro­peias sejam, de al­guma forma, sau­dá­veis para os países fora das re­la­ções eco­nó­micas e po­lí­ticas mais di­rectas com o eixo cen­tral da união.

Scienza della fantasia - Davide Coero Borga
Imagem: Sci­enza Della Fan­tasia” (por­menor), Da­vide Coero Borga, Co­dice Edi­zione

Se existe pro­ble­má­tica que de­veria ser bem pen­sada, essa é a da trans­for­mação de uma união po­lí­tica num diktat eco­nó­mico-fi­nan­ceiro, e em como re­verter esse curso. Talvez o caso da Hun­gria pu­desse ser um pri­meiro passo para a sua re­so­lução. Talvez esta ameaça – que mais se­gu­ra­mente de tal não pas­sará, já que a vo­tação pela apli­cação do ar­tigo 7º de­certo não irá pro­duzir re­sul­tados – pu­desse servir de aviso, como se di­zendo que A partir deste mo­mento a Eu­ropa é, antes de mais, uma co­mu­ni­dade de países que co­mungam ideais de Li­ber­dade, Igual­dade e Fra­ter­ni­dade, aberta ao mundo e a todos os que ve­nham por bem, sem dis­tinção de cor, credo, sexo ou se­xu­a­li­dade – e não uma sim­ples com­monwe­alth ser­vi­dora do im­pério centro-norte.”
O mais certo é nada disto acon­tecer, nem as san­ções à Hun­gria, nem a trans­for­mação da Eu­ropa num farol da tri­color, sei que peco por uma certa in­ge­nui­dade.

Em todo o caso, o fas­cismo é um ini­migo que se com­bate per­ma­nen­te­mente, que es­pera sen­tado até que a pró­xima crise surja e com ela a opor­tu­ni­dade de, uma vez mais, en­con­trar os cul­pados do cos­tume: po­lí­ticos, aca­dé­micos e os ou­tros”. A guerra contra o fas­cismo é uma guerra per­ma­nente que deve ser tra­vada com­bate a com­bate, ter­reno a ter­reno, tác­tica a tác­tica, sem ceder ao tempo. Carl Von Clau­sewitz dizia que se com­ba­termos um ini­migo du­rante muito tempo, ele aca­bará por se adaptar às nossas tác­ticas. Dizia também que, en­quanto não o der­ro­tarmos, ele impor-nos-á as suas leis, na mesma me­dida em que nós lhe im­pomos as nossas e que a única forma de o der­ro­tarmos é ir ao seu centro de poder, con­quistá-lo e de­sarmá-lo. E dizia ainda que o re­sul­tado de uma acção só pode ser me­dido pelo re­sul­tado final do so­ma­tório de todas elas.

Para ler:   #BolsonaroNão

Creio que o PCP – e a Es­querda em geral – de­ve­riam ler mais Von Clau­sewitz. Esta é uma pe­quena acção, num ter­ri­tório par­ti­cular. Ou­tras devem ser de­sen­vol­vidas, em di­fe­rentes ter­ri­tó­rios e com tác­ticas di­versas. E sempre, sempre, atacar onde dói mais, con­quistar e de­sarmar. Pode ser que o re­sul­tado final seja, um dia, a vi­tória.
A cen­sura inequí­voca ao go­verno hún­garo e a ameaça de san­ções ao país nada mais é do que uma pe­quena acção, se con­si­de­rarmos a guerra que se nos apre­senta: contra um ini­migo pa­ci­ente e bem pre­pa­rado, longa, em ter­reno di­fícil, e com muitos danos co­la­te­rais. Talvez com­pense. Talvez não. Mas há riscos que devem ser to­mados.