Ter-se-á dado início há minutos ao Exame da Quarta Classe. Tal como há mais de três décadas, as crianças deverão, ao longo de determinado período de tempo, demonstrar o que sabem mediante teste que deverão resolver sem recurso ao telemóvel. Sim, porque há três décadas não existiam telemóveis.
Provar o que sabe é, para uma criança a rondar os dez anos de idade, mais ou menos o mesmo que provar o que vale. E provar o que vale resume-se a, não raramente, um quadro emocional particularmente violento, quadro esse a que uns resistem e outros nem por isso. Assim, as crianças arrancadas à sua zona de conforto - que um dia terão de provar o que valem lá fora - deverão satisfazer as exigências do enunciado da prova ao mesmo tempo que resolvem o emaranhado emocional em que se encontram. Talvez por isso ocorram as habituais anomalias do costume, com o Zézinho, que tanto sabe nas aulas, a resvalar prova abaixo num cataclismo ignorante, e o Joãozinho, aquele puto que passa a vida a olhar para ontem e que nem o livro abre nas aulas, obter uma nota de excepção.
Dizem-me aqui ao lado que se o aluno sabe as coisas demonstrará necessariamente um maior grau de auto-confiança, pelo que a prova tem todas as possibilidades de correr bem. Respondo que não é verdade, e que bem o sei.
Mas tudo isto não passaria de uma provação que as crianças passariam mas que, possivelmente, lhes forjaria o carácter. É certo que um destes dias terão de provar o que sabem sobre tudo e sobre nada. Filosofando de barato, diremos que a vida é isso mesmo, uma sucessão de provas, e que de pequenino se torce o pepino. Pois bem, torça-se com cuidado para não crescer torto.
Tudo isto não seria mais do que uma ligeira demonstração do que lhes está reservado, não fosse o caso de estas crianças verem o resultado do Exame da Quarta Classe significar um quarto da sua avaliação. A pergunta é, por isso, mas o que deve saber uma criança de dez anos que torne necessário um exame com toda a pompa e circunstância, declarações por honra à mistura? E uma outra ainda, é o exame, especialmente nesta idade, o meio mais eficaz de aferição dos seus conhecimentos?
Sou da opinião que não. Um exame, após uns meros quatro anos de aprendizagem, representa apenas um obstáculo. É tudo menos um estímulo. Trata-se apenas de uma violência gratuita.
Mas saibamos contextualizar as coisas. O programa de educação de Nuno Crato apresenta óbvios tiques passadistas. A resistência à tecnologia, o "saber de cor", os exames, a triagem dos alunos para o ensino profissional, entre outros, são parte de todo um fantasma educativo que pensávamos já definitivamente arrumado.
Fazer exames é uma exigência que se deve ter em conta por alturas de decisão: ou está habilitado ao exercício futuro ou não, ou avança ou se mantém, ou fica ou vai embora. Submeter crianças a um processo desses é dizer-lhes que será nestes minutos que decidirão grande parte das suas vidas com base na sua ainda tão curta existência. Faltará alguém dizer-lhes, como se dizia antigamente, "Se passar passou, se não passar vai para trolha", que é o que parece ser o grande desígnio de Crato e sua gente.
Como diria uma professora matosinhense - actualmente muito reconhecida no meio académico - "Para ser empregado dos meus filhos você não precisa de muitos estudos." Sim,eles andam por aí.




