Info

a vida na óptica do utilizador

Posts tagged exploração

De como as al­mas mor­tas são be­ne­fí­cios fis­cais para uns e for­tuna para ou­tros: uma me­tá­fora do tempo pre­sente, es­crita no sé­culo XIX por Gogol.

É usual cha­mar­mos as ex­pres­sões dos ou­tros em so­corro das nos­sas ideias. Não ra­ra­mente penso que tudo está es­crito e que a nós, es­cri­bas de oca­sião, ape­nas nos resta ler o mais pos­sí­vel e or­ga­ni­zar a in­for­ma­ção de forma a que, ba­ra­lhando e tor­nando a dar, esta se ali­nhe na nar­ra­tiva que pre­ten­de­mos dar a co­nhe­cer. Penso mesmo que a Grande Obra, o clás­sico, foi ape­nas pos­sí­vel até ao tempo em que a có­pia era tra­ba­lhosa e es­cassa, fi­cando as ideias à mercê dos que do­mi­na­vam o mundo das letras.

Co­pis­tas e ti­pó­gra­fos par­ti­ci­pa­ram in­vo­lun­ta­ri­a­mente numa es­pé­cie de di­ta­dura, pas­sando para o pa­pel as ideias que so­bre­vi­ve­ram até aos nos­sos dias, as­sas­si­nando pelo ca­mi­nho toda uma tra­di­ção oral e pic­tó­rica que a "cul­tura" mas­sa­crou, es­pe­ci­al­mente nos ter­ri­tó­rios em que fés mo­no­teís­tas sin­gra­ram. A bom ver, a es­crita e a re­li­gião sem­pre an­da­ram de mãos da­das, e não é à toa que cris­tãos, mu­çul­ma­nos, bu­dis­tas ou hin­dus ba­seiam a sua fé em "li­vros sagrados".

Na ver­dade, mais do que o que se pensa ou diz, conta o que está es­crito, ver­da­deiro ou falso. Como tan­tos, de cada vez que me ex­presso con­for­ta­vel­mente com pa­la­vras de ou­tros, pro­curo fazê-​lo re­cor­rendo à Fi­lo­so­fia, à Li­te­ra­tura e à Po­e­sia - se é que são coi­sas es­tan­ques - em de­tri­mento da His­tó­ria: é nas pri­mei­ras que en­con­tro o vi­ver dos dias e a imen­si­dão da vida, em vez da can­ção dos ven­ce­do­res que a se­gunda canta, que dos fra­cos não resta reza. Quanto mais ler­mos, mais fá­cil é a es­crita. Para o bem e para o mal.

Po­de­mos, por isso, fa­zer re­fe­rên­cia ao meu que­rido Wilde ou usar qual­quer uma das sua ci­ta­ções, que elas es­tão aí para to­das as oca­siões - Os­car transformou-​se, com o tempo, no Paulo pre­fe­rido dos pseudo-​intelectuais de Fa­ce­book -, ou di­zer coi­sas no ale­mão de Go­ethe ou no fran­cês de Bau­de­laire - como zeit­geist ou hé­las! - ou, que­rendo adop­tar o ar de en­fant tér­ri­ble, sa­car de um Bu­kowski re­pen­tino. Ou po­de­mos, como te­nho visto muito, sim­ples­mente con­ju­rar o au­tor di­zendo "como nos diz Pes­soa".

Para mim, os pesos-​pesados dos ci­ta­dos e con­ju­ra­dos são os rus­sos do sé­culo XIX. Existe um peso dado ao es­crito pela uti­li­za­ção do nome Dos­toyevsky, por exem­plo. Quase não é ne­ces­sá­rio men­ci­o­nar a obra ou ci­tar o que quer que seja. Di­zer Dos­toyevsky no meio seja do que for é con­fe­rir a gra­vi­dade má­xima ao es­crito. Leia co­migo: "A sim­ples men­ção de um es­cri­tor russo do sé­culo XIX, como Dos­toyevsky, pa­rece dar a im­por­tân­cia de­se­jada a esta ba­na­li­dade".

Eu de­testo ci­tar ou fa­zer re­fe­rên­cias a au­to­res. Num blog como este, fa­zer tais re­fe­rên­cias é um as­somo de pompa ig­no­rante. E, con­tudo, faço-​o fre­quen­te­mente. É algo a que não con­sigo es­ca­par. Como este post, por exem­plo, que de­ve­ria co­me­çar no pa­rá­grafo se­guinte, onde se ini­cia, na re­a­li­dade, o que eu vi­nha aqui dizer.

Almas Mortas

Al­mas Mortas

"Al­mas Mor­tas", es­crito em 1842 por Ni­co­lai Go­gol, não es­capa ao que as gran­des obras li­te­rá­rias rus­sas nos ha­bi­tu­a­ram: olha a na­tu­reza hu­mana de forma pe­ne­trante. É nesta obra que fi­ca­mos a co­nhe­cer uma das mais ex­tra­or­di­ná­rias per­so­na­gens que po­de­ría­mos ima­gi­nar: Pa­vel Iva­no­vich Chi­chi­kov, um ho­mem agra­dá­vel, nem muito gordo, nem muito ma­gro, nem par­ti­cu­lar­mente alto, nem inu­si­ta­da­mente baixo, que chega à ci­dade de N. para fa­zer negócio.

Uma vez ins­ta­lado no ho­tel lo­cal, Chi­chi­kov apressa-​se a dar uma volta pela ci­dade com o in­tuito de co­nhe­cer as pes­soas que lhe in­te­res­sam: fun­ci­o­ná­rios do es­tado, go­ver­na­dor, chefe da po­lí­cia, juiz, pro­cu­ra­dor ou chefe dos cor­reios, não há in­di­vi­du­a­li­dade que es­cape ao charme de Chi­chi­kov que passa a ser es­ti­mado pe­los no­tá­veis da ci­dade de N.

Ga­nho o res­peito das ins­ti­tui­ções, Chi­chi­cov dedica-​se en­tão a vi­si­tar os do­nos das ter­ras das re­don­de­zas e, com a des­culpa de apre­sen­tar cum­pri­men­tos, ini­cia a ta­refa que, afi­nal, o traz a es­sas pa­ra­gens. Na re­a­li­dade, o nosso he­rói é um ho­mem de ne­gó­cios, um com­pra­dor. Mas o que com­pra Chi­chi­cov? Pro­du­ção? Gado? Ter­reno? Não, nada disso. Chi­chi­cov vei a N. para com­prar "al­mas mortas".

Bu­ro­crata, des­co­briu um bu­raco na imensa bu­ro­cra­cia russa da época. O que pa­rece ser um inú­til fardo de im­pos­tos para os do­nos das ter­ras re­pre­senta para ele uma po­ten­cial for­tuna. O que Chi­chi­kov pede que os fa­zen­dei­ros lhe ven­dam deixa-​os de boca aberta: quer com­prar os no­mes dos tra­ba­lha­do­res mortos.

Es­tes ser­vos - "al­mas", como se di­zia na época - per­ma­ne­cem nos li­vros dos pa­trões até ao censo se­guinte pelo que, mesmo mor­tos, são ta­xá­veis. Chi­chi­kov ofe­rece aos pro­pri­e­tá­rios o alí­vio desse fardo, ao mesmo tempo que, pas­sando os no­mes agora de sua pro­pri­e­dade para uma terra dis­tante, con­se­gue do es­tado um em­prés­timo avul­tado, jun­tando uma pe­quena fortuna.

Vale a pena ler o li­vro, pu­bli­cado em dois vo­lu­mes, sendo o se­gundo in­com­pleto. Por en­tre toda a his­tó­ria re­pleta de de­ta­lhes e si­tu­a­ções re­la­ti­va­mente có­mi­cas, con­se­gui­mos ler uma crí­tica ao sis­tema feu­dal russo da época, adi­vi­nhando o seu co­lapso. É sin­to­má­tica disso, por exem­plo, a pas­sa­gem em que se lê "'De qual­quer forma, não é coisa acer­tada', disse Vish­ne­po­kro­mov, 'o ca­pi­tal não de­ve­ria es­tar nas mãos de um único ho­mem. Isso é mesmo o ob­jecto de tra­ta­dos que ac­tu­al­mente se fa­zem pela Eu­ropa. O se­nhor tem di­nheiro - en­tão, partilhe-​o com ou­tros.'" (tra­du­zido do inglês).

Mas é a fi­gura de Chi­chi­kov que, mais do que esta es­pé­cie de proto-​marxismo, me chama a aten­ção: a sua per­so­na­li­dade de "bu­ro­crata de ne­gó­cios" que com­pra "al­mas mor­tas" para, apa­ren­te­mente li­ber­tando uns do jugo do fisco, an­ga­riar uma for­tuna ape­nas pela ma­ni­pu­la­ção téc­nica de um furo na lei, não deixa de me pro­vo­car ar­re­pios: exis­tem aqui, de mui­tas for­mas pos­sí­veis, es­tra­nhas me­tá­fo­ras do tempo pre­sente. Mas tal­vez seja isso o que faz uma Grande Obra.

Bem vindo, uma vez mais, ao semiose.net

Facebook Twitter Plusone Tumblr Email
1 vote, 5.00 avg. ra­ting (100% score)