9: A Sombra de Phaeton – IV

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Religious toleration rightly requires that you must let your neighbour practise his religion without fear of persecution or reprisal. In the light of the West's awful history of religious warfare, if nothing else, that is a hard won and admirable principle. But there is also a prevalent attitude—call it religious correctness—with which genuine toleration is easily confused: a polite and well-meaning reluctance to engage believers in the sort of robust clash of ideas that might discomfit them.
The Economist, 10 de Novembro de 2001, "The perils of religious correctness"

O século passado foi marcado pelo surgimento das mais diversas revoluções sociais e tecnológicas, a par de guerras à escala global. Durante todo esse século o Homem viu o seu papel ser relegado para segundo plano pela Ciência, ao mesmo tempo que a Filosofia dirigia a metafísica para um turbilhão de ideias que retiravam ao ser humano a importância que este julgava ter: a consciência, os processos de decisão e, enfim, o Livre Arbítrio passam pelo filtro apertado das ciências antes de chegarem à Filosofia e são agora considerados um mecanismo. O Homem não é, afinal, mais do que um "asset", um "standard-issue", um "gadget". Creio que esse é o principal motivo para o retrocesso verificado, o da religião estar novamente a ocupar o lugar da Metafísica.
Mas a religião não supre apenas a ligação do Homem ao divino. A religião actua ainda de duas outras formas: oferece recompensa e castigo consoante o cumprimento dos seus códigos morais sob a forma de danação ou vida eterna, renascimento contínuo ou descanso eterno, ou imaginações ainda mais confusas; e, mais importante ainda, alimenta a ânsia humana de fazer parte de algo que a transcenda, compondo dessa forma o sentido último da vida - somos porque fazemos parte de um Grande Plano que está para além do nosso entendimento.

Em tempos de incerteza e caos relativo como os que vivemos estes dias, estão desta forma reunidas as condições para o que se observa: o (re) surgimento de uma quantidade de Maniqueus empossados pelo divino e detentores da Verdade Suprema, verdade essa que, se posta em causa, só o pode ser pela boca de gente que, a partir desse momento, é sua inimiga. E se é sua inimiga, é inimiga dos praticantes da religião.
Esse maniqueísmo é sobejamente aproveitado pelos dirigentes das nações, como pudemos ver na Alemanha da década de 30 do século passado, como vemos actualmente na Arábia Saudita, em Israel ou no Irão, e como vemos acontecer, finalmente, nos Estados unidos da América - entre outros exemplos de aproveitamento do ideário, da moral e da manipulação das massas que a religião fundamenta: ou és por mim, ou és contra mim; se és por mim é teu o paraíso, se és contra mim, caia-te o inferno em cima, e de preferência já. Daí os conflitos, daí as segregações, daí as mortes, daí a destruição de ícones culturais, daí o que vivemos neste mundo actual que tantos acreditam ser de Deus.

Desde que a crença no divino ou a religião praticada não esteja na origem de danos à pessoa, sociedade ou natureza em geral, sou firme defensor da liberdade de qualquer um de vós acreditar e acatar seja qual for a ordem divina que fordes capazes de escutar, sentir, ou imaginar. A liberdade religiosa é uma das mais importantes conquistas da modernidade, sendo a meu ver um dos baluartes da democracia moderna e dos direitos humanos. Fartos da segregação, perseguição e morte em nome de deuses andamos todos, pessoas de bem.
Mas é precisamente em nome da dignidade humana, da preservação da cultura, e de muitas outras questões sociais que me envolvo em discussões com religiosos e crentes no sobrenatural. Com efeito, é-me muito difícil encontrar crença ou religião que, de uma forma ou de outra, não segregue, mutile ou mate, desde os nacionalismos exacerbados do neo-paganismo às decapitações do daesh, passando pela segregação de gays, mulheres, adúlteros, etc. no seio das religiões monoteístas ou pelo sistema de castas de algumas politeístas. Nessas discussões, tento deixar de fora a trama da existência de deuses e demónios para me concentrar nas causas e efeitos desses azimutes morais ou, mais levemente, tentar entender e discutir a necessidade de um livro de instruções para a vida ditado por iluminados que se arrogam estar em contacto com o divino.

Disse anteriormente que "É-me indiferente que os deuses existam ou não - se não existirem, está tudo com dantes; se existirem não passam de uns psicopatas que não me merecem um segundo de consideração. Nada há a perder aqui.", e reafirmo-o: não me interessa se existem deuses ou não. Mas interessa-me muito o que se faz em seu nome e as formas humanas que eles assumem - e essa é uma discussão a que nunca me furto, à qual ninguém deveria fugir.

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