Voz

18.Mai.2012


Quando era miúdo falava com a voz do Antó­nio Sér­gio e can­tava com a voz de Peter, Gabriel ou Ham­mill. Mas isso era só na minha cabeça.
Agora escrevo com a voz do Fer­nando Alves.

Dictaphone

Quando era miúdo, nas pou­cas opor­tu­ni­da­des que tive de falar com um micro­fone frente a mim, a minha voz era a de Antó­nio Sér­gio. Quando can­tava em noi­tes de fumo na praia, a minha voz era a de Peter, uma vezes Gabriel, outras vezes Ham­mill. Claro que isto acon­te­cia somente na minha cabeça, e ape­nas os meus ouvi­dos escu­ta­vam os neu­ró­nios que os encan­ta­vam.
Agora, escrevo com a voz do Fer­nando Alves. E tam­bém aqui o resul­tado final é muito mais ridí­culo do que a minha per­cep­ção me ofe­rece.
Enfim, o meu cére­bro é um tur­bi­lhão de sereias cuja voz é melhor do que a rea­li­dade. Dizem-me «Escreve, isto é mais trans­pi­ra­ção do que ins­pi­ra­ção, e o que inte­ressa é o con­teúdo e não a forma». Pois sim. Eu quero lá saber do con­teúdo! O que eu quero é a voz, ter a voz com que escre­ver o que na mai­o­ria das vezes não digo falando.
Mas falta-me o tim­bre, falta-me a cadên­cia, a ênfase da sílaba tónica, o sus­pen­der de uma vír­gula. Um dia que saiba escre­ver assim, garanto-vos que não que­re­reis escu­tar outra coisa.

Templos e Tapas

14.Mai.2012


Se é para andar a pé dias a fio, pre­firo ir a San­ti­ago de Com­pos­tela, que o cami­nho é mais bonito, a cidade é bela, e o tem­plo é mag­ní­fico. Para além disso, há lá bares de tapas muito bons.

Deus

Pes­soas como eu, que se con­si­de­ram ateias, ten­dem a tornar-se mais tole­ran­tes e, por vezes, per­meá­veis às mani­fes­ta­ções reli­gi­o­sas. Creio que tal será facil­mente expli­cá­vel pela tomada de cons­ci­ên­cia da cada vez mais pró­xima morte («Son wat­ches his father scan the obi­tu­ary column in search of absent school fri­ends», terá escrito um ins­pi­rado Fish), a par de uma tor­tu­ra­dora ideia de fim gra­tuito, sem objec­tivo que não seja o de aca­bar, o da ter­rí­vel não-existência, a pro­vo­car a per­gunta «Mas para quê, afi­nal, tudo isto?», seguida de uma ténue espe­rança de que «Isto não pode aca­bar assim, deve exis­tir algo mais». Afi­nal de con­tas, somos huma­nos, ateus e cren­tes, e cada um de nós pro­fessa, à sua maneira, uma fé.
Claro que a ques­tão de fé é dife­rente con­so­ante nos colo­que­mos de um ou de outro lado da bar­ri­cada, e é essa mesma dife­rença que dá, tan­tas vezes, azo às mais diver­sas for­mas de falá­cias. Dizer, por exem­plo, que «A ausên­cia de prova não faz prova da ausên­cia» é, mui­tas das vezes, invo­cada como teo­ria raci­o­nal para a exis­tên­cia de uma divin­dade. Com efeito, qual de nós poderá pro­var a não exis­tên­cia de um deus? Res­pon­der a uma falá­cia des­tas resulta fre­quen­te­mente num des­per­dí­cio de ener­gia. É extre­ma­mente difí­cil dis­cu­tir com um crente, pre­ci­sa­mente por­que ele, ao con­trá­rio de mim, pos­sui uma fé ina­ba­lá­vel, longe do mundo físico e das leis que o regu­lam. E como «A fé move mon­ta­nhas», em casos como o meu, de cul­tura insu­fi­ci­ente para uma argu­men­ta­ção ple­na­mente raci­o­nal em rela­ção ao objecto — a exis­tên­cia de uma divin­dade — a coisa torna-se uma arma­di­lha. Não rara­mente sinto-me enre­dado na minha pró­pria argu­men­ta­ção pois, ao não con­se­guir desen­vol­ver uma teo­ria raci­o­nal, com pro­vas empí­ri­cas, caio na arma­di­lha de, tam­bém eu, pas­sar a argu­men­tar ape­nas a minha fé no raci­o­na­lismo e no ateísmo.
Na ver­dade, fácil é ter fé. Não a ter, pelo menos em divin­da­des que se imis­cuem nos nos­sos assun­tos mor­tais, é que é difí­cil. E essa difi­cul­dade nota-se ainda mais em perío­dos de intensa pro­va­ção. Supo­nho que, por algum motivo cul­tu­ral ou mesmo gené­tico, seja mesmo pos­sí­vel que a huma­ni­dade esteja “pro­gra­mada” para ser um ani­mal de fé. A nossa cons­ci­ên­cia da mor­ta­li­dade assim o parece exi­gir. … ver “Tem­plos e Tapas” »

Pêndulo de Foucault

8.Mai.2012


Ah… tudo seria mais sim­ples se as elei­ções res­pei­tas­sem um calen­dá­rio uni­ver­sal fixo. Quase pode­ría­mos ler o futuro.

A Física, ciên­cia maior, sem­pre teve um enorme peso no domí­nio do sim­bó­lico e, por isso, é alvo pre­fe­ren­cial de mís­ti­cos, pseudo-ciências, reli­gi­o­sos, enfim, pela mais alar­gada gama de char­la­tães que pos­sa­mos ima­gi­nar. O facto é que a Física, dadas as maté­rias que trata, rela­ci­o­na­das com a génese das coi­sas, a expli­ca­ção última conhe­cida para o que se conhece e mesmo para o que não se conhece, se põe a jeito. Este post, mais breve do que a intro­du­ção palerma, apro­veita a Física uni­ca­mente pelo seu sim­bo­lismo, e todo este tor­tu­oso intróito mais não é do que uma pre­cau­ção.

Pêndulo de FoucaultPosto isto, ape­nas que­ria dizer que, uma breve aná­lise às elei­ções euro­peias e, por­que não, mun­di­ais (nos res­tan­tes sítios onde as haja), revela uma liga­ção entre os resul­ta­dos elei­to­rais e o local para onde o pên­dulo aponta. Claro que o local para onde o pên­dulo aponta depende da lati­tude do local onde nos encon­tra­mos e de para onde está apon­tado, naquele momento, esse mesmo local.

Ah… tudo seria mais sim­ples se as elei­ções res­pei­tas­sem um calen­dá­rio uni­ver­sal fixo. Quase pode­ría­mos ler o futuro. Mas, por vezes, as elei­ções têm lugar num deter­mi­nado tempo que aponta o pên­dulo para luga­res ainda incer­tos. Nou­tras, ape­sar de tudo, o lugar apa­renta estar ainda virado para outro tempo. É esta a mís­tica da Física.

N.B.: não são con­si­de­ra­das aqui as situ­a­ções em que o pên­dulo é manupilado.

Amália vista de fora

3.Mai.2012


Amália com Cigarro

«I’ve been lis­te­ning to her for years, but I just wat­ched a docu­men­tary about her – so much raw emo­tion! And free of so many com­pli­ca­ti­ons that music has some­ti­mes. The music is just very direct, sim­ple and strong, free of fili­gree. She’s direct to the heart. Her inti­mate col­la­bo­ra­tion with Portugal’s poets is admi­ra­ble. She defi­ni­tely stuck by her rifles. And it’s good to know that she was part of making the fado style. I first came across it, I would guess, 15 years ago. It has the same raw­ness as fla­menco but it’s less flam­boyant, and more stern and stark somehow.» — Rebecca Nichol­son

Hoje, por exemplo

18.Abr.2012


A rea­li­dade é uma coisa curi­osa. Para apro­vei­tar o ritmo finan­ceiro a que nos move­mos, para o bem e mais para o mal, diga­mos que a rea­li­dade é como uma moeda. Tem duas faces, e só uma delas é visí­vel. Na rea­li­dade, só muito arti­fi­ci­al­mente, e não sem um certo esforço, man­te­mos a moeda na ver­ti­cal, sem apoio late­ral e, mesmo assim, não con­se­gui­mos ver direc­ta­mente as duas faces, inte­gral­mente e de forma igual. Por isso, se que­re­mos ver os dois lados da moeda, temos que mexer nela, que a virar. É assim a realidade.

Acordar, às sete, para um dia normal

Acordo a custo, can­sado do sono. Na sala, as pri­mei­ras notí­cias repor­tam ainda a comé­dia da assem­bleia madei­rense, com o depu­tado Coe­lho a defen­der a ocu­pa­ção popu­lar das ins­ti­tui­ções e, uma vez mais, a sua reti­rada da sala pela segu­rança, entre abra­ços for­ça­dos, pro­tes­tos do Coe­lho, e gri­tos da filha. Resolvo enfren­tar o dia.
Cá fora, já um homem vas­cu­lha os con­ten­to­res do lixo. Não é o pri­meiro, cer­ta­mente, pois ontem já mui­tos os vas­cu­lha­ram, dia e noite. Para além dele, na rua semi-deserta ape­nas estão os dois, que daqui a uma meia hora serão uns quan­tos, à espera da pri­meira dose do dia que os devolva ao con­for­tá­vel autismo.
Retiro o carro da gara­gem e aguardo a minha mulher. A TSF dá-me alguns núme­ros rela­ti­vos à devo­lu­ção de casas aos ban­cos por impos­si­bi­li­dade de paga­mento da dívida. Apa­ren­te­mente, se estou acor­dado há uma hora, por esta altura haverá já uma casa devol­vida, diz o locu­tor. … ver “Hoje, por exemplo” »

Ouvido na fila da Segurança Social

16.Abr.2012


Acendalhas

- Então quanto tempo tens ainda de sub­sí­dio de desem­prego?
– Mais dois meses…
– E depois? É o RSI?
– Em prin­cí­pio… é isso que venho aqui ver…
(pausa)
– Que idade tens?
– Cin­quenta e três.
– Cin­quenta e três?
– É ver­dade… cin­quenta e três…
(pausa)
– E o que vais fazer quando aca­ba­rem os sub­sí­dios?
(pausa)
– É que…
– Isso não sei. Mas já esco­lhi o gajo que vou matar primeiro.



COPY? RIGHT!
© 2003 - 2012 semiose.net

Pode copiar os conteúdos originais do autor, adaptá-los e republicá-los, total ou parcialmente, desde que não se destinem a fins comerciais e o faça sob as mesmas condições:
Licença Creative Commons BY-NC-SA


RSS/ATOM | NEWSLETTER