
Pessoas como eu, que se consideram ateias, tendem a tornar-se mais tolerantes e, por vezes, permeáveis às manifestações religiosas. Creio que tal será facilmente explicável pela tomada de consciência da cada vez mais próxima morte («Son watches his father scan the obituary column in search of absent school friends», terá escrito um inspirado Fish), a par de uma torturadora ideia de fim gratuito, sem objectivo que não seja o de acabar, o da terrível não-existência, a provocar a pergunta «Mas para quê, afinal, tudo isto?», seguida de uma ténue esperança de que «Isto não pode acabar assim, deve existir algo mais». Afinal de contas, somos humanos, ateus e crentes, e cada um de nós professa, à sua maneira, uma fé.
Claro que a questão de fé é diferente consoante nos coloquemos de um ou de outro lado da barricada, e é essa mesma diferença que dá, tantas vezes, azo às mais diversas formas de falácias. Dizer, por exemplo, que «A ausência de prova não faz prova da ausência» é, muitas das vezes, invocada como teoria racional para a existência de uma divindade. Com efeito, qual de nós poderá provar a não existência de um deus? Responder a uma falácia destas resulta frequentemente num desperdício de energia. É extremamente difícil discutir com um crente, precisamente porque ele, ao contrário de mim, possui uma fé inabalável, longe do mundo físico e das leis que o regulam. E como «A fé move montanhas», em casos como o meu, de cultura insuficiente para uma argumentação plenamente racional em relação ao objecto — a existência de uma divindade — a coisa torna-se uma armadilha. Não raramente sinto-me enredado na minha própria argumentação pois, ao não conseguir desenvolver uma teoria racional, com provas empíricas, caio na armadilha de, também eu, passar a argumentar apenas a minha fé no racionalismo e no ateísmo.
Na verdade, fácil é ter fé. Não a ter, pelo menos em divindades que se imiscuem nos nossos assuntos mortais, é que é difícil. E essa dificuldade nota-se ainda mais em períodos de intensa provação. Suponho que, por algum motivo cultural ou mesmo genético, seja mesmo possível que a humanidade esteja “programada” para ser um animal de fé. A nossa consciência da mortalidade assim o parece exigir. … ver “Templos e Tapas” »