Arquivo: Qualia
Impressões de cunho estritamente pessoal acerca de tudo e, muitas vezes, acerca de nada. É por aqui que a vida na óptica do utilizador melhor se exprime.
A morte solitária é a mais comum das coisas. A Morte é um acto solitário, ninguém morre acompanhado, se bem que possa ter companhia nos últimos momentos de vida.
Da Morte e da Solidão
Diz-se da morte ser ela a única inevitabilidade, coisa certa para todos nós, o Fado por excelência. É ela a Grande Niveladora do Homem, transversal às classes e aos estratos.
A Morte é, talvez, o acto mais pessoal que cada um de nós terá, o tempo mais íntimo que conseguiremos.
Fala-se da morte na solidão, fazendo referência ao cada vez maior número de idosos que vão sendo descobertos já cadáveres, após dias de putrefacção solitária. Deles se diz terem morrido sós.
A morte solitária é a mais comum das coisas. A Morte é um acto solitário, ninguém morre acompanhado, se bem que possa ter companhia nos últimos momentos de vida. Mas o momento último, o que subitamente nos transporta para um estado de não-existência, esse é totalmente solitário. Não há quem nos acompanhe no culminar do processo.
The Backwater Gospel de The Animation Workshop
Poderíamos pensar que, como os crentes crêem, a Morte não é mais do que uma passagem. Mas esse raciocínio, se não errado, é atroz.
Perguntêmo-nos se queremos viver para sempre, e a resposta variará de pessoa para pessoa, consoante esta seja uma alma feliz, mais ou menos jovem, mais ou menos saudável, com mais ou menos conforto na vida. A verdade é que a vida eterna apenas é desejável aos jovens saudáveis e confortavelmente instalados. Os restantes apenas pedem algo mais da vida.
Leva-me isto a pensar que, para lá do choque que a descoberta de cadáveres de idosos, mortos há dias, sem que alguém desse pela sua falta, existe um choque muito maior do que a tal morte solitária: existe o choque da vida em solidão.
De cada vez que penso nesses velhos, penso na sua vida a sós, por detrás de janelas, ou nos bancos do jardim. E estas são as boas hipóteses dentro do contexto, já que existem também os que dormem ao relento, sem manta nem comida quente que os agasalhem.
Esta parece ser a vida que espera tantos que, como todos os outros, morrerão sós. E para o nihilismo ser perfeito, para além da falta de qualidade de vida, terão falta de qualidade de morte. De que nos serve tudo isto?, perguntêmo-nos então. É que, se como penso, a Morte é a consciência que nos separa dos restantes animais, que é feito da nossa vida?
O que restará de todos nós é uma imagem, uma percepção que viverá, primeiramente, na distorção das memórias de cada um dos que com nós partilharam o mundo e, seguidamente, mediada por uma qualquer tecnologia que deixará esbater as cores e, com elas, a ideia de algo que poderemos ter sido. E nem os actos, nem as palavras, poderão alguma vez dizer com segurança tudo aquilo que nós fomos, porque há coisas que a Morte leva com ela.
Imagem da Intro: ‘David Deuchar’s etchings (1786) after Hans Holbein’s Dance of Death’, Spaightwood Galleries
Trata-se de uma fluidez com cheiro de morte, nem almas apeadas se movem.
Fluidez no vazio
Seria normal sairmos por volta das sete e meia para podermos parar no Estrelícia para um café e, sem stress, chegarmos a Brito Capelo, em Matosinhos, por volta das oito e um quarto. Estamos a falar de uma viagem relativamente curta, na ordem dos quinze quilómetros, via Ponte do Freixo, Via Rápida, Circunvalação, Matosinhos-Sul.
Sabe quem usa normalmente estas vias a horas destas que o trânsito é tudo menos fluido: as coisas começam, no meu caso, na Ponte do Freixo, agravam-se frente ao Estádio do Dragão, vão a passo de caracol até à saída para a A3, tornam a parar na saída para a Via Rápida, via sacra feita a passo até à Rotunda dos Produtos Estrela, ficando finalmente soltos Circunvalação abaixo, no fim da qual se há de procurar o tal lugar de estacionamento por entre as centenas deles que já têm dono.
No entanto, de há umas semanas para cá, as coisas alteraram-se de uma forma radical: saindo à 7:55h do Estrelícia, e utilizando o mesmo percurso, chegamos por volta das oito e dez ao destino. Hoje, por exemplo, foi uma ida e volta, tendo eu chegado a Gaia às 8:32h. Não fosse o caso, e tivesse o carro que ficar estacionado em Matosinhos, tal não seria problema. Não faltavam lugares vazios, nem em Brito Capelo, nem no caminho de volta, pela Foz, e subindo pelo Fluvial, Campo Alegre, entrando na VCI pela Boavista. Trânsito parado, vi-o apenas a partir do nó do Fojo, em sentido oposto ao meu, mas devido a um acidente.
Video Montage: Urban Tranquility — Abu Dhabi, UAE (Canon EOS 7D) por mungkey
A minha (de)formação profissional leva-me sempre a reflectir sobre estas coisas da fluidez do tráfego. Durante os últimos anos trabalhei numa empresa de produção e venda de autocarros e soluções de transporte público, tendo por isso acedido a informação acerca do assunto, quer por conversas com operadores de transportes, quer por algumas palestras a que tive oportunidade de assistir. Assim, não sendo um perito na matéria, consigo entreter-me com pseudo-diagnósticos dos problemas ou com a apreciação de medidas que creio terem sido tomadas.
O caso presente é, sem dúvida, um caso que passo a denominar de ‘fluidez no vazio’, sem prejuízo de possíveis utilizações do termo noutras andanças, como a Física e a sua Mecânica de Fluidos, tão adequada ao tema.

Fluidez no Vazio
O viajante ocasional por estas paragens poderia concluir que os governantes do burgo conseguiram, graças a uma política de reajustamento da rede viária, ou graças a uma sensibilização e motivação para o uso dos transportes públicos, resolver o imbróglio que torturava milhares de utentes diários destas vias. No entanto, ao entrar nas cidades, rapidamente descobriria que algo não está bem. Em plena hora de ponta, o único movimento perceptível é o da corrente de ar gelada nas ruas Norte-Sul, e o de alguns transeuntes a pé, enfiados em sobretudos, para além dos gestores surfistas e das tias confortáveis que fazem a sua caminhada matinal nos passeios da Foz. Para além destes, um cantoneiro ocasional, um pescador, ou um grupo de canalha que vai aos pinchos alegres rua fora.
Aqui há dias via a reportagem televisiva acerca da acção do Presidente da Junta de Matosinhos, António Parada, que resolveu atender os cidadãos da freguesia num café de Brito Capelo, numa acção de descentralização dos serviços que pretende continuar. Nessa reportagem foram entrevistadas algumas pessoas, utentes, entre as quais Joaquim Ventura, que referiu que «(...) tudo o que seja político devia vir para a rua, e não ficar fechado nos gabinetes das câmaras e juntas de freguesia... é na rua que as pessoas andam...».

Com efeito, os governantes da nossa praça, edis, ministros e demais gente importante, quando não estão enfiados nas suas bolhas anti-sépticas, passam rapidamente em qualquer artéria levados em carro artilhado de luzinhas azuis nervosas, em alta velocidade. Das ruas e das gentes nada vêem, e do ‘contacto com a população’ durante a campanha eleitoral já recordam apenas o desconforto que a custo conseguiram disfarçar.
Se existe surpresa física, esta é uma delas: estes políticos e governantes conseguem fluir originando o vazio por entre a vida das cidades, ou por entre a falta dela, como é o caso, sem sentirem o mínimo, sem se aperceberem do pulsar das gentes, ou a falta deste.
O facto é que esta ‘fluidez no vazio’, como lhe chamo, trata-se tão somente de uma fluidez originada pela falta de tráfego, raridade a que estávamos habituados em tempo de férias e de pontes, mas que agora parece persistir. Trata-se de uma fluidez com cheiro de morte, nem almas apeadas se movem.
Suponho que estes governantes venham a notar isto um destes dias, num qualquer relatório trimestral entregue com algumas semanas de atraso, notando aí que o fluxo de tráfego diminuiu consideravelmente, e que a utilização dos transportes públicos não reflecte aumento que contrabalance a queda na circulação automóvel.
Antes fosse assim, que tudo estaria a correr pelo melhor. As pessoas teriam, finalmente, aderido ao sistema de transportes públicos, poupando dinheiro, paciência e ambiente.

Mas embora se trate de mais um pseudo-diagnóstico meu, estou em crer que a balança se equilibra se dermos conta das portas fechadas e dos letreiros ‘trespassa-se’ ou ‘vende-se’, se dermos conta das filas cada vez maiores à porta dos centros de (des)emprego.
Seria bom que os nossos governantes, como os gestores à moda antiga, preocupados não só com os resultados, mas também com as pessoas que, no fim de contas, lhes dão razão de ser gestores, iniciassem o seu dia dando ‘uma volta pela fábrica’, saindo à rua e tomando um café num qualquer quiosque da cidade, que sentissem o pulso cada vez mais fraco dos que os elegeram anonimamente, dos que neles confiaram. Que com eles falassem e descobrissem, sem preconceitos elitistas, o que lhes faz doer a alma. E que entrassem no gabinete dispostos a fazer alguma coisa acerca do assunto.
... a experimentar...
Hello world!
A experimentar, a arranjar as coisas, uma vez mais, agora isto do feed rss que tinha desaparecido, depois aquilo dos iPads e dos iPods, mais os Androids e o diabo que os carregue, e mais uns Javascripts quaisquer que não deviam andar por aqui... e vá lá que, no meio das experiências, fiquei a conhecer um vídeo de uma menina que não conhecia (e da qual fiquei a conhecer apenas isto), a Lana del Rey a cantar ‘Video Games’, que se publica abaixo.
He holds me in his big arms, Drunk and I am seeing stars, This is all I think of.
Watching all our friends fall In and out of Old Paul’s, This is my idea of fun
Playing video gamesTell me all the things you want to do, I heard that you like the bad girls...
Honey, is that true?
Entretanto, o blog vai continuando, sem a sua história, é certo... Valha-nos a possibilidade de lhe inventar outra e ir apanhando o que ficou lá para trás.
Mas não é essa a ideia. Também não sei bem qual é, mas amanhã também será bom dia para pensar no assunto. Neste momento, o que interessa é experimentar isto, a ver se tudo funciona bem.
Até já.
RECORRÊNCIAS
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