8: Pirografia

Foto: Paulo Cunha, manipulada posteriormente

De entre os elementos primordiais, venham eles de que filosofia vierem, o elemento comum que maior fascínio exerce no Homem é o fogo. Foi o fogo que, uma vez domesticado para uso doméstico, veio a permitir os maiores avanços tecnológicos e sociais. Foi ao fogo que recorremos para nos protegermos dos animais e para nos aquecermos no Inverno, para cozinhar e para transformar o ferro, para destruir frotas e cidades, para queimar bruxas e hereges. Uma das características do fogo é a de ser uma espécie de entidade ultra-moral à qual tanto importa estar a aquecer uma refeição ou a lamber um corpo banhado de napalm, não havendo nele alguma humanidade discernível a não ser a que nós próprios lhe emprestamos: o fogo é conforto, indústria, arma, carrasco, purificador ritual; madeiros, galheiros e cambeiros rivalizam com bigornas e autos-de-fé. E é por vezes um trasgo irrequieto que consome tudo em volta, em assomo de violência frenética que não poupa floresta, colheita, povoados, homens e animais. Talvez por isso seja também o elemento do Inferno, castigador das culpas mundanas.

É nesta última imagem que a generalidade das reacções à tragédia a que assistimos na zona de Pedrógão parece enquadrar-se: os incêndios nada mais são do que o castigo pelas culpas de moradores, autoridades, bombeiros, autarcas e governo. Os meios de comunicação social e restantes fora na internet tentam, a todo o custo, apontar um responsável. Fazem-se perguntas apontando culpa, escrevem-se pareceres técnicos clamando por justiça, que não fomos ouvidos, nós os que percebemos disto, alvitram-se opiniões avulsas e sem sentido, ainda os corpos estão quentes na mesa da morgue, ainda as famílias choram doridas e desvairadas, ainda os bombeiros lá andam em busca da salvação. É preciso um culpado porque o eucalipto, é preciso um culpado porque o pinheiro, porque a monocultura, porque a limpeza, é preciso um culpado porque a prevenção, porque os bombeiros, porque a protecção civil. É preciso um culpado, porque eu não o sou e, se aquilo ardeu, é porque culpa existe, que não morra solteira, porque eu, que recolhi dados dos mais diversos websites, sei; porque eu sou doutor das florestas, tenho papers; porque eu um dia enviei um e-mail já não me lembra a quem a falar do quintal do vizinho.

Se o número de vítimas aumentar, demite-se?, foi mais ou menos esta a pergunta de uma Judite depois de passear e fazer-se retratar junto ao cadáver infeliz de uma morte solitária. Os directos, horas a fio, o encher dos chouriços em voz frenética embargada pelo fumo, os comunicados de hora em hora para dizer nada mais do que o que já se sabe: há uma tragédia, estamos a combatê-la, há-de haver inquérito, as imagens dos carros carbonizados a oferecerem-nos, dia fora, o que pensamos ter sido a angústia e o terror sentido pelos que neles pereceram, essa espécie de pornografia que nos alimenta os juízos, a opinião, a solidariedade repentina e fugaz. Se o número de vítimas aumentar, demite-se? “Mais uma vez, os bombeiros não estavam presentes.” “Terá o problema de comunicação ocorrido no SIRESP influenciado...” E o cadáver da Judite ali, desde as seis da tarde, e ninguém o vem buscar, apesar de haver bombeiros nas proximidades, porquê?, porque é importante, não os corpos, mas aquele preciso corpo por detrás do umbigo da apresentadora veraneante que subitamente é promovida a repórter.

A verdade é que não há fogo que expie este estar da alma, nem sequer haverá chuva que a lave. Haverá, isso sim, mais incêndios, pontes a cair, cheias, toda uma imensidão de cataclismos possíveis que, evitáveis ou não, acabarão por acontecer – e por cada um deles, por cada um dos mortos, por cada um dos bombeiros, polícias, militares e civis que estiverem presentes na acção antes da palavra, haverá um milhar de espertos na matéria a mandar bitaites e um milhar de jornalistas a encher chouriços e a fazer perguntas parvas, todos eles à procura da culpa por detrás de um microfone, uma câmara ou um teclado de computador.
"Quem não sabe, ensina" – diz o povo.

Mais: