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6: A Sombra de Phaeton – II

Estou parcialmente de acordo com a filosofia pop de Žižek que, a propósito do excerto de Brecht reproduzido anteriormente, nos diz:

Brecht is right here: we are never in a position directly to choose between theism and atheism, since the choice as such is already located within the field of belief. ‘Atheism’ (in the sense of deciding not to believe in God) is a miserable, pathetic stance of those who long for God but cannot find him (or who ‘rebel against God’). A true atheist does not choose atheism: for him, the question itself is irrelevant – THIS is the stance of a truly atheistic SUBJECT.
Slavoj Žižek, "Interrogating the Real"

Estou parcialmente de acordo porque não entendo como poderei não escolher ser ateu, mesmo se esta opção se enquadra no campo das crenças. Entendo que para um ateu a problemática da existência de deuses não se coloca e que, em princípio, não será coisa que o preocupe, assim como entendo o que diz Brecht, já que ao colocar a existência de deuses na mesa para discussão, essa mesma existência torna-se efectiva na minha realidade. Mas, ainda assim, o ateísmo é uma escolha, pelo menos enquanto a sociedade for permeável à religião - como o é - e a religião continuar a imiscuir-se na coisa pública, inspirando ou mesmo instituindo leis e ética.
Esta posição de Žižek vem um pouco a propósito do que se confirma ser uma moda, a de um niilismo condescendente para com os que não compartilham as nossas crenças. Neste caso, o simples facto de podermos encetar uma discussão em torno do fenómeno religioso adiantando a nossa posição de ateu, torna-se uma espécie de confissão de recalcamento - um dos argumentos que os religiosos proselitistas tanto gostam de usar.