Palavra-chave: desinformação

A inter­net é peri­gosa para o igno­rante porque não filtra nada para ele.
A longo prazo, o resul­tado peda­gó­gico será dramá­tico. Vere­mos multi­dões de igno­ran­tes usando a inter­net para as mais vari­a­das boba­gens: jogos, bate-​papos e busca de notí­cias irre­le­van­tes.
Seria preciso criar uma teoria da filtra­gem. Uma disci­plina prática, base­ada na expe­ri­men­ta­ção coti­di­ana com a inter­net. — Umberto Eco

Citação

Umberto Eco: Conhecer é filtrar

ÉPOCA - O senhor tem sido um dos mais ferre­nhos defen­so­res do livro em papel. Sua tese é de que o livro não vai acabar. Mesmo assim, esta­mos assis­tindo à popu­la­ri­za­ção dos leito­res digi­tais e tablets. O livro em papel ainda tem sentido?
Eco — Sou cole­ci­o­na­dor de livros. Defendi a sobre­vi­vên­cia do livro ao lado de Jean-​Claude Carrière no volume Não contem com o fim do livro. Fize­mos isso por moti­vos esté­ti­cos e gnose­o­ló­gi­cos (rela­tivo ao conhe­ci­mento). O livro ainda é o meio ideal para apren­der. Não precisa de eletri­ci­dade, e você pode riscar à vontade. Achá­va­mos impos­sí­vel ler textos no moni­tor do compu­ta­dor. Mas isso faz dois anos. Em minha viagem pelos Esta­dos Unidos, preci­sava carre­gar 20 livros comigo, e meu braço não me ajudava. Por isso, resolvi comprar um iPad. Foi útil na ques­tão do trans­porte dos volu­mes. Come­cei a ler no apare­lho e não achei tão mau. Aliás, achei ótimo. E passei a ler no iPad, você acre­dita? Pois é. Mesmo assim, acho que os tablets e e-​books servem como auxi­li­a­res de leitura. São mais para entre­te­ni­mento que para estudo. Gosto de riscar, anotar e inter­fe­rir nas pági­nas de um livro. Isso ainda não é possí­vel fazer num tablet.

Network, de Michael Rigley no Vimeo

ÉPOCA — Apesar dessas melho­rias, o senhor ainda vê a inter­net como um perigo para o saber?
Eco — A inter­net não sele­ci­ona a infor­ma­ção. Há de tudo por lá. A Wiki­pé­dia presta um desser­viço ao inter­nauta. Outro dia publi­ca­ram fofo­cas a meu respeito, e tive de inter­vir e corri­gir os erros e absur­dos. A inter­net ainda é um mundo selva­gem e peri­goso. Tudo surge lá sem hierar­quia. A imensa quan­ti­dade de coisas que circula é pior que a falta de infor­ma­ção. O excesso de infor­ma­ção provoca a amné­sia. Infor­ma­ção demais faz mal. Quando não lembra­mos o que apren­de­mos, fica­mos pare­ci­dos com animais. Conhe­cer é cortar, é sele­ci­o­nar. Vamos tomar como exem­plo o dita­dor e líder romano Júlio César e como os histo­ri­a­do­res anti­gos trata­ram dele. Todos dizem que foi impor­tante porque alte­rou a histó­ria. Os cronis­tas roma­nos só citam sua mulher, Calpúr­nia, porque esteve ao lado de César. Nada se sabe sobre a viuvez de Calpúr­nia. Se costu­rou, dedicou-​se à educa­ção ou seja lá o que for. Hoje, na inter­net, Júlio César e Calpúr­nia têm a mesma impor­tân­cia. Ora, isso não é conhecimento.

ÉPOCA — Mas o conhe­ci­mento está se tornando cada vez mais aces­sí­vel via compu­ta­do­res e inter­net. O senhor não acha que o acesso a bancos de dados de univer­si­da­des e insti­tui­ções confiá­veis estão alte­rando nossa noção de cultura?
Eco — Sim, é verdade. Se você sabe quais os sites e bancos de dados são confiá­veis, você tem acesso ao conhe­ci­mento. Mas veja bem: você e eu somos ricos de conhe­ci­mento. Pode­mos apro­vei­tar melhor a inter­net do que aquele pobre senhor que está comprando salame na feira aí em frente. Nesse sentido, a tele­vi­são era útil para o igno­rante, porque sele­ci­o­nava a infor­ma­ção de que ele pode­ria preci­sar, ainda que infor­ma­ção idiota. A inter­net é peri­gosa para o igno­rante porque não filtra nada para ele. Ela só é boa para quem já conhece – e sabe onde está o conhe­ci­mento. A longo prazo, o resul­tado peda­gó­gico será dramá­tico. Vere­mos multi­dões de igno­ran­tes usando a inter­net para as mais vari­a­das boba­gens: jogos, bate-​papos e busca de notí­cias irrelevantes.

ÉPOCA — Há uma solu­ção para o problema do excesso de infor­ma­ção?
Eco — Seria preciso criar uma teoria da filtra­gem. Uma disci­plina prática, base­ada na expe­ri­men­ta­ção coti­di­ana com a inter­net. Fica aí uma suges­tão para as univer­si­da­des: elabo­rar uma teoria e uma ferra­menta de filtra­gem que funci­o­nem para o bem do conhe­ci­mento. Conhe­cer é filtrar.

Excerto de entre­vista à Revista Época [pt_​BR]

28. Janeiro 2012 , por Carlos José Teixeira
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