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7: A Sombra de Phaeton – III

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Nowa­days no­body bothers, and it is con­si­de­red in sligh­tly bad tas­te to even rai­se the ques­ti­on of God's exis­ten­ce. Mat­ters of re­li­gi­on are li­ke mat­ters of se­xu­al pre­fe­ren­ce: they are not dis­cus­sed in pu­blic, and even the abs­tract ques­ti­ons are dis­cus­sed only by bo­res.
John Se­ar­le, "Mind, Lan­gua­ge and So­ci­ety, Phi­lo­sophy in the Re­al World"

O de­sa­ba­fo de Se­arl acer­ca da pou­ca pro­du­ção de con­teú­dos em tor­no da dis­cus­são da re­li­gião é acer­ta­do. A re­li­gião pas­sou a ser dis­cu­ti­da den­tro de uma bo­lha po­li­ti­ca­men­te cor­rec­ta apa­ren­te­men­te re­gi­da pe­la "não-so­bre­po­si­ção dos ma­gis­té­ri­os", on­da tão bem apro­vei­ta­da re­cen­te­men­te por Jor­ge Ma­rio Ber­go­glio, o Pa­pa Fran­cis­co que, de for­ma bem cui­da­da, traz a luz ao mun­do con­ce­den­do que a Ci­ên­cia de­ve­rá ex­pli­car os fe­nó­me­nos na­tu­rais e que te­o­ri­as ci­en­tí­fi­cas, co­mo a do Big-Bang, não en­tram em con­fli­to com os en­si­na­men­tos da Igre­ja ou com a exis­tên­cia de Deus. "Dai, pois, a Cé­sar o que é de Cé­sar, e a Deus o que é de Deus", pa­re­ce di­zer, ou que "Há mais coi­sas en­tre o céu e a ter­ra, Ho­rá­cio, do que so­nha a nos­sa vã fi­lo­so­fia".

6: A Sombra de Phaeton – II

Estou parcialmente de acordo com a filosofia pop de Žižek que, a propósito do excerto de Brecht reproduzido anteriormente, nos diz:

Brecht is right here: we are never in a position directly to choose between theism and atheism, since the choice as such is already located within the field of belief. ‘Atheism’ (in the sense of deciding not to believe in God) is a miserable, pathetic stance of those who long for God but cannot find him (or who ‘rebel against God’). A true atheist does not choose atheism: for him, the question itself is irrelevant – THIS is the stance of a truly atheistic SUBJECT.
Slavoj Žižek, "Interrogating the Real"

Estou parcialmente de acordo porque não entendo como poderei não escolher ser ateu, mesmo se esta opção se enquadra no campo das crenças. Entendo que para um ateu a problemática da existência de deuses não se coloca e que, em princípio, não será coisa que o preocupe, assim como entendo o que diz Brecht, já que ao colocar a existência de deuses na mesa para discussão, essa mesma existência torna-se efectiva na minha realidade. Mas, ainda assim, o ateísmo é uma escolha, pelo menos enquanto a sociedade for permeável à religião - como o é - e a religião continuar a imiscuir-se na coisa pública, inspirando ou mesmo instituindo leis e ética.
Esta posição de Žižek vem um pouco a propósito do que se confirma ser uma moda, a de um niilismo condescendente para com os que não compartilham as nossas crenças. Neste caso, o simples facto de podermos encetar uma discussão em torno do fenómeno religioso adiantando a nossa posição de ateu, torna-se uma espécie de confissão de recalcamento - um dos argumentos que os religiosos proselitistas tanto gostam de usar.

3: A Sombra de Phaeton – I

A man asked Mr. K. whether there is a God. Mr. K. said: “I advise you to consider whether, depending on the answer, your behavior would change. If it would not change, then we can drop the question. If it would change, then I can at least be of help to the extent that I can say, you have already decided: you need a God.”
Bertolt Brecht, "Stories of Mr. Keuner"

Há algum tempo que deixei de discutir a possibilidade da existência de deuses porque embora a sua existência em si possa tornar-se uma entusiasmante esgrima de argumentos, já os deuses, existentes ou não, tornaram-se irrelevantes para mim. É-me indiferente que os deuses existam ou não - se não existirem, está tudo com dantes; se existirem não passam de uns psicopatas que não me merecem um segundo de consideração. Nada há a perder aqui.