Arquivo: Opinião Pública
Impressões e opiniões acerca das mais diversas matérias: sociedade, comunicação, democracia, política, arte e cultura são os temas mais recorrentes desta diletância.
Não posso deixar de concordar com o seu afastamento da magistratura. E tenho pena.
Garzón: uma breve nota
Simpatizo com Baltasar Garzón, e ainda mais com a sua causa — como simpatizo, de resto, com qualquer luta por lei e justiça libertadoras de um povo das garras do fascismo, do terrorismo e da corrupção.
Por outro lado, não posso deixar de admitir que sendo verdade que o juiz ordenou escutas a conversas entre advogado e cliente, originando ‘confissões auto-recriminatórias’, Garzón não só prevaricou fortemente, como usou recursos que são mais próprios dos que acusava. Assim, e repito, sendo essa a realidade, não posso deixar de concordar com o seu afastamento da magistratura.
É fácil adivinhar a política por detrás deste desfecho, assim como será mais fácil ainda protestar contra a decisão, alegando tais pressões. Mais difícil será manter a objectividade e pensar que os fins, por muito nobres que sejam — que o eram — não justificam quaisquer meios.
Será que isto não passa de uma encenação?
Esta pergunta explica o post anterior relativo ao assunto, assim como o título e a citação de Shakespeare. É que o marketing político presta-se a estas coisas, e isso não é tão raro assim.
The play’s the thing
I’ll have grounds
More relative than this—the play’s the thing
Wherein I’ll catch the conscience of the King.
Hamlet, Acto 2, cena 2
Relativamente à notícia de abertura dos jornais, protagonizada por Vítor Gaspar e Wolfgang Schaube, fruto de um ‘apanhado’ dos repórteres da TVI no local, começo por estranhar os silêncios dos watchdogs habituais. Não encontro nos blogs habituais alguma reflexão sobre a legitimidade deontológica ou sobre a ética (ou a falta desta) da peça em apreço, a não ser breves apontamentos no Hobby: Repórter e no Vai e Vem (esteja à vontade para acrescentar links na caixa de comentários, se os encontrar relativos a este assunto). Também não ouvi ainda os pruridos de Lello, o homem que tão angustiado ficou por terem sido filmadas imagens dos monitores na Assembleia da República.
Estrela Serrano explica que, embora José Alberto Carvalho tenha explicado na introdução da peça que, apesar desta ter sido gravada sem o conhecimento dos dois ministros, a TVI optou por divulgá-la por se tratar de informação relevante, tal explicação não seria necessária. Segundo Serrano, «Ora, o local estava aberto à imagem e os conversantes não são cidadãos comuns nem estavam em espaço privado. Mas mais importante é o facto de o ministro alemão ter dito coisas muito relevantes.«
Já eu, que não sou jornalista, partilho a dúvida do Filinto Melo, que escreve «Para ser mesmo mau, só faltava que tivesse sido filmado, temo bem, sem conhecimento dos ministros de que o som estava a ser gravado.»

Estamos, portanto, perante a dúvida de ter sido a reportagem feita por um jornalista ou por um paparazzo.
Como disse, não sou jornalista, nem tenho sequer o código deontológico à mão, pelo que este post é apenas uma opinião pessoal acerca do que considero ser jornalismo. E, desta forma, posso dizer apenas o que faria em tal situação.
- A acreditar em Estrela Serrano, supondo assim que os repórteres no local estariam autorizados a recolher imagens e som sem autorização expressa dos intervenientes (o que acho estranho), após a captação destas ira ter com os dois ministros e colocar-lhes-ia perguntas relativas ao tema, confrontando-os com a gravação. Esta atitude não só seria mais ética, como certamente daria uma muito melhor peça jornalística, com a possibilidade de aprofundar o tema, logo no local.
- Supondo uma recusa aos comentários, então endereçá-la-ia à edição, para que lá decidissem da sua publicação ou não.
Sendo eu o chefe da redacção (ou lá o que é), e recebida a notícia, decidiria consoante os ministros tivessem dado a tal entrevista ou não.
- Sim, deram a entrevista, explicando a conversa: publicá-la-ia, sem recurso às imagens dos ‘apanhados’.
- Não, não deram a entrevista: teria que decidir considerando as tais regras de funcionamento das reportagens, a deontologia jornalística, e o interesse público da matéria.
Ou seja, não é fácil.
Mas as coisas devem ser reflectidas, pois a percepção é o que é, e é ela que comanda a realidade. O que me leva à segunda questão, a da fiabilidade do ‘apanhado’.
A pergunta é legítima:
Será que isto não passa de uma encenação?#
Esta pergunta explica o post anterior relativo ao assunto, assim como o título e a citação de Shakespeare. É que o marketing político presta-se a estas coisas, e isso não é tão raro assim.
Neste caso, não me custa pensar numa espécie de ‘calmante’ para as massas: «Tenham calma, que se as coisas correrem mesmo mal, que não irão, mas se correrem, já temos quem nos dê a mão», ou em preparativos para o descalabro, uma espécie de comunicação de crise, que diga «Como podem ver, o governo andava já em conversações ao mais alto nível para superar quaisquer desvios no processo blá blá blá...».
Mas pode ser que não, e que Miguel Relvas, o Ministro da Propaganda, venha a terreiro condenar e, quem sabe, punir os paparazzi desta aberração. Aguardemos.
Efectivamente gosto de aparência, Aparentemente sem moralizar

Aparentemente escuto as conversas, Efectivamente sem moralizar
Adoro as conversas dos outros
O noticiário abre com as imagens e o som da conversa entre o nosso ministro e um dos seus patrões, que sim, que está connosco apesar dos outros fulanos de lá do parlamento, parabéns pá, estás a fazer um bom trabalho, muito obrigadinho meu Senhor.

E, sem entrar em considerações acerca de éticas e deontologias jornalísticas, ou acerca da forma como as coisas são feitas nas conversas de coffee-break, a única coisa que as imagens me sugerem é uns versos dos GNR.
Efectivamente escuto as conversas
Importantes ou ambíguas
Aparentemente sem moralizarAdoro as pêgas e os padrastos que passam
Finjo nem reparar
Na atitude tão clara e tão óbvia
De quem anda a engan(t)ar
Enquanto eles estão organizados socialmente, legalmente, mediaticamente e politicamente, nós continuamos a protestar ao sabor do tweet e do like, como se de um click, por si, pudesse resultar alguma coisa concreta.
E nós? Organizamo-nos?
Já quase tudo foi dito acerca de todos os acrónimos ameaçadores da Internet tal como a conhecemos. Já escutamos todos os argumentos a favor, todos os argumentos contra, já vimos acontecer prisões e bloqueios de websites, e temos manifestações marcadas.
Mas a verdade é que, enquanto eles estão organizados socialmente, legalmente, mediaticamente e politicamente, nós continuamos a protestar ao sabor do tweet e do like, como se de um click, por si, pudesse resultar alguma coisa concreta. A experiência diz-me o contrário e, esperando estar enganado, a correspondência click/presença nas manifestações do próximo Sábado será na ordem dos decimais. Os mais activistas estão divididos por não sei quantas associações.
Podemos dizer que temos, cá no burgo, algumas personalidades especialistas na matéria, para além das associadas: temos jornalistas, bloggers, engenheiros, juristas, sociólogos, políticos, para além de toda uma mole de utilizadores declaradamente contra o que consideram, em uníssono, um atentado à liberdade de expressão e de partilha na Internet, para além de um abuso inqualificável exercido sobre qualquer um compre um CD-R ou uma caixa de nimesulida de marca genérica.
Assim sendo, porque não se passa neste caso, o que se passa de cada vez que uma multidão de pessoas comungam os mesmos interesses? Porque não existe ainda uma associação de utilizadores em defesa da liberdade de expressão, criação e partilha, uma espécie de confederação dos grupos e indivíduos que lutam pela liberdade? Uma coisa, por assim dizer, tão organizada como a deles, mas com mais força, muito mais força...
Organizemo-nos. A indignação, só por si, não chega.
RECORRÊNCIAS
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