Urro

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-- texto de Júlio do Carmo Gomes, via Utopie
-- performance interpretada por Castro Guedes e dirigida por Rui Spranger
-- crítica e calendário por Filinto Pereira de Melo no Porto24

E tu sabes que o teu destino é acabar a trabalhar na Ikea, a vender cadeiras e poltronas made in china com design sueco, agora que a ergonomia do espírito dos tempos modernos aboliu todas as fronteiras e tu te ocupas desses tronos sem deus nem lúcifer onde todos nos sentamos, agora que acordas meio ressacado para a vida mas bem-disposto, felicíssimo por o dia começar, assim como que ausente de ti face ao imprevisto e à pressão atmosférica, sem razões para te indignares com o Tempo, sem motivos para te importares com a meteorologia neoliberal que vem escarrapachada nas capas dos jornais, a tua bolha privada é uma máquina de despressurização mais inocente que os telejornais, mais lírica que os comunicados dos partidos da oposição, mais fantasiosa que a fábula das criancinhas comidas ao pequeno-almoço pelos vermelhos, tu só te indignas incidentalmente com a caniche da vizinha de baixo quando sais do prédio onde arrendas um quarto (ou será um loft?), sob a vídeo-vigilância do teu buraco-negro ideológico, mas o teu ódio canino face à caniche e aos cães de guarda é sol de pouca dura e desaparece melodiosamente ao ritmo com que atravessas incólume a grande via do cinismo interno, e assim esqueces invariavelmente a linha cravada que te traça o destino, esqueces que a linha que te traça o destino deixa na tua face o lastro do teu desespero e do teu falso conforto por não saíres do desespero, o mapa da tua genealogia espiritual, um abismo de neutralidade e resignação, paz ao teu buraco-negro ideológico,
paz aos teus neurónios higienizados
lipo-aspirados
liofilizados
e segues impassível para a tua bolha-escritório, em todas as manhãs disciplinárias por esse mundo fora,
passas o teu cartão digital pela banda magnética de uma porta de plástico, ouves um estalinho electrónico technology is everywhere e, abracadabra, luz de presença no hall, sorris para as câmaras do circuito interno, deslizas pela carpetezinha inofensiva a cheirar a pastilha elástica, chamas o elevador e, no compasso de espera, finges que não ouves a musiquinha de gaivotas no ar, finges que não estás enfiado num filme bem real do Tati, e atravessas outro corredor asséptico, escadas rolantes com eles, e mais corredores sem fim para aprenderes a respeitar essa grande ordem universal feita de soldadinhos e soldadinhas com aspecto de revendedores da Avon, direitamente sentados atrás de biombos, soldadinhos e soldadinhas que parece que saíram de um estúdio de tele-marketing, ou do museu de cera, onde dizem maravilhas do óleo de jojoba, do segredo para erradicar a celulite no mundo, do último milagre testado cientificaMENTE, ao mesmo tempo que eles e elas te piscam o olho, em uníssono como no comité central, viva a unanimidade!, tentas convencer-te que hoje já não há ideais, que vives numa época sem soluções globais, sem alvoradas nem amanhãs, não há barreiras ideológicas nem diferenças de classe, a tua maior barreira é o trânsito da VCI, não há fronteiras e o muro de Berlim caiu e somos todos iguais, e os pretos que vêm dar à costa não são pretos mas camarões, somos todos iguais, o que tu gostas é de mariscadas com maionese do Lidle, desde que produzamos, somos todos operários, tens de tirar o teu ao fim do mês, não é?, porque a vida e o nosso tempo livre é só uma forma de ganhar dinheiro como outra qualquer e o resto são favas,
e na tua meia-hora de almoço embuchas as favas e o salmão da Noruega com corantes púrpura do Burkina Faso, e vamos todos para a Ikea, essa obra de caridade que nos acolhe, que nos afaga o pêlo, que nos oferece um fato-de-treino para brincarmos ao operário de playground, e assim enganas a fome e escusas de perturbar esta paz podre, não resmungues, as favas estão encruadas?, sabe-te a chulé nórdico?, não reclames que podes vir a perder o emprego, não abras a boca que a fava cai-te do beiço e ainda perdes sem querer o teu esclavagismo de estimação, vem cá que eu dou-te a sobremesa, eu enfio-te o sushi e o feijão de soja e o smart pelo caralho acima para teres uma erecção macro-biótica, enfio-te tudo com muito jeitinho, um de cada vez, porque há sempre espaço para mais um esquentamento gourmet,
trufas é o que tu queres para enganares a fome
trufinhas trufinhas
enquanto das 9 às 5 essa grande ordem universal te trufla a vida, coração alma língua, tudo em nome da Arte, ou achas que a Grande Ordem Universal te gala o tempo todo,
cadeias de supermercados, cadeias de shoppings, cadeias de empresas de comunicação, cadeias do estado e de multinacionais, cadeias de cadeias, te chulam o coiro e o melhor da tua vida em nome de quê? É só por causa da Arte Pós-Materialista, ou já te esqueceste que há um buraco-negro ideológico, um abismo de ideais? Alguma vez te deixarias trapacear se o teu patrão e o teu governo não fossem uns artistas? Algumas vez te deixarias enganar pelas destilarias da Famous Grouse, pelos urinóis de malte invertidos?, descansa que a ti ninguém te engana, descansa que
a cultura não é a social-democracia da imaginação, nada disso!
antigamente,
nesse tempo antiquíssimo do Maio de 68,
havia sexo anal para acabar com o capital, agora vão-te à dignidade para acabar com a maternidade, é um trocadilho não é, mas não olhes para trás porque, neste exacto momento, podes estar a ser vítima do controlo de natalidade, ou será que já foste parido?; ou será que já berraste a plenos pulmões?; deixa que para a semana te ligam do call-center pré-existencial, fazes uns testes psicotécnicos e dão-te a resposta passado 15 dias que por enquanto é prematuro, mas tens de abaixo-assinar a revista pós-moderna da Danone, para ficares a par das inovações da indústria da pastorização dos rebanhos, q’uisto agora é quem mais quer ser guardador de iogurtes, é a pseudonímia do franchising monetário internacional,
mas isso sabes tu fazer, abaixo-assinar e fast-forward, que belo assinante digital do círculo de rebanhos, vamos,
assina a última campanha da Avaaz, agora é que é, agora é que tudo depende de ti, o mundo inteiro depende neste instante da ergonomia do teu indicador, a fome no Sudão e a paz na Ucrânia e a guerra na Síria estão suspensas à espera do teu gesto, o teu dedo indicador, teuzinho, é mais importante que a evolução do polegar oponente, vamos tecla, tecla, ou ficarás com um peso na consciência até ao próximo forward, vamos, não pares, afinfa-lhe na Avaaz,
na Greenpeace
nos Verdes
no Partido Pirata
nos bífidos-activos
na dietética,
nas banhas do Marinho e Pinto
no body-pump, tudo a ejacular no Health Club, espécie de erecção contínua, non-stop
acima e abaixo, não pares
como os corretores da Bolsa, como as flutuações do dólar e do preço do petróleo, uma espécie de orgasmo permanente em laboração contínua, não custa nada, é pró menino e prá menina, é o egosexo que está a dar, acabaram-se os chocolates com metafísica, é uma pechincha, é tão barato que não dá desejo nem tesão e mesmo assim
o mais deslambido dos cus arranja desplante para se esfregar e perguntar: então e tu orgasmo, também já és de direita?,
não me chateies, não perturbes esta paz podre,
querias um emprego, queres trabalhar, não é?
a tua grande ideologia é o precariato, tadinho de ti sem emprego, não vês que o rótulo que pespegas em ti próprio é a antinomia do sistema?, é a pescadinha de rabo-na-boca que legitima o trabalho assalariado?, que reivindicares que és precário quer apenas dizer que queres exercer o direito a ser explorado,
mas com estabilidade, claro, não te preocupes que a Comissão Europeia está a pensar em ti e nos teus direitos laborais,
mas com permissão para consumir, claro, não te preocupes que o patronato, mal saias do trabalho, põe-te um hiper-mercado para te divertires, e se o shopping for demasiado primitivo para os teus anseios tens o Yoga e o Hare Krishna e o workshop de caril de chamuças para satisfazer a tua sofisticação,
e assim reivindicas a tua quota-parte à mesa antropófaga, porque mereces também ser devorado e tragado, e na verdade tu não queres ver que para chegares a vender a tua força de trabalho tens de antes
em permanência
em todo o lado
no workshop
no bar
na reunião de pais
no jantar de família
vender o teu tempo livre em acções de gestão e beneficência do teu capital,
mas gratuitamente, claro pá
mas à borla, claro meu,
mas voluntariamente, pois então, tu és um gajo à maneira meu,
tu és multi-task, um prodígio, alguém chamou a isso bio-poder,
tu sozinho, com o teu índice de empregabilidade a subir imparavelmente nas agências de rating,
consegues dar um salto quântico sobre a crise grega e portuguesa de uma só vez, embrulha!
o teu sonho é vires a ser a síntese perfeita entre operário e capitalista, de derrota em derrota até à mobilização final!, tu consegues, tu és capaz, a meritocracia serve para alguma coisa bolas, tu tens valores pá, os outros é que não querem trabalhar, os outros são uns preguiçosos, mandriões, a viverem à custa do trabalho dos outros, tu sabes do que falas, a tua consciência Kósmica consegue abarcar a solo mais do que as Nações Unidas juntas em sessão extraordinária, olé!,
o trabalho é muito lindo, não é?, nem sequer viste que a ideologia proletária morreu e foi enterrada há muito tempo na valsa fatal entre capitalismo e marxismo, o que tu querias era essa paz fabril no call center, um trabalho digno, edificante, o que tu querias era ser explorado full-time, e pensas às 8 da manhã como um executivo e às 6 da tarde com os teus amuletos celtas que este tipo é um reaccionário, este tipo quer tirar-me do sério, utopias?, deixa-te de lirismos e de políticas meu,
não me chateies, pronto, eu deixo-te em paz,
é só uma indisposição, ando mal da vesícula, são as pedras nos rins, mais nada, eu sossego, passa-me um copo de água com açúcar que eu já falei de mais, eu não te digo que ainda confundes a tua subsistência com a solidez da economia nacional, pronto, eu acredito na homeopatia e, na verdade, tu não precisas de um ministro das Finanças, mesmo se radical porque (alguma vez o Diário de Notícias tinha de acertar!) não usa gravata,
deixa que ele vai tratar de tudo por ti, ele conhece a economia Cambridge, ele vai estabilizar a tua moeda, ele vai ensinar-te a ler estatística de trás para a frente, deixa estar que ele vai passar noites a fio sem dormir a tratar de balancetes, orçamentos gerais, empréstimos do Banco Mundial, sim, ele com o dinheiro que poupa nas gravatas vai criar um programa exclusivo para dar um nó aos teus sonhos, vamos, reivindica políticos mais puros, e mais honestos, e anti-corruptos, para que assim eles nos roubem com maior transparência e legitimidade, deixa estar que o teu esquerdismo liberal dura tanto como a manchete do TAZ, e os títulos da dívida grega ainda vão salvar as tuas esperanças e o Obama e o Fidel ainda se vão beijar na boca mas agora ao vivo, pronto, viva o dólar cubano!... Wall Street Wall Sreet!!!...mas, mas afinal não tinhas dito que já não havia muros?, pronto, eu deixo-te em paz, eu vou investir na bolsa,
as condições objectivas ainda não estão maduras, não é?, talvez pró ano que vem,
com jeitinho, quiçá, pode ser que aquelas impressoras 3D imprimam revoluções, e se não gostares da versão oficial, deixa que os hackers tratam do assunto, We Share We Share… a tecno-ciência resolve tudo, por este andar, para a semana, tens orgasmos múltiplos a comunicar com o Osho através do Twitter, alguém tratará de tudo por ti, não é?, da tua democracia, dos teus princípios, da tua dívida (sobretudo, da tua dívida), dos teus sonhos... ou sonhar, no teu léxico liberal mas de esquerda, já é politicamente incorrecto?, não vem na constituição, não é?, é old fashion?
e enquanto tenho de te pedir licença para sonhar,
não te apoquentes que o sistema que vai tratar com juros da tua depressão civilizacional e do teu mal-estar global não é o mesmo que te deixou só com essa imensa solidão biónica e nano-existencial, (e depois eu é que sou romântico!), tu só, de saquinho plástico na mão, coitadinho do ambiente, não é?, acredita que eles vão-te fazer crer que o problema do desenvolvimento sustentável é o teu saquinho de plástico, acredita que tens de comer bio para que o preço do petróleo não sofra flutuações, acredita que o bio-diesel só prejudicou a dieta dos orangotangos e a estabilidade de um ninho de térmitas no Bornéu, como se fosse por causa dos saquinhos de plástico que meia-dúzia de senhores bons pais de família e homens ordeiros andassem ao milho no médio-oriente, senhores ordeiros e bons pais de família sentam-se de cócoras em Ilhas muito a Ocidente para anunciarem mais um circo de ódio, ganância e sangue, porque estão empenhados na ordem mundial e nos altos desígnios da civilização, e o Saddam é o culpado de todo o mal no mundo, pelo teu desemprego, pelo teu recibo-verde, pelo teu part-time na PT, pelo teu décimo estágio compulsivo não-remunerado, pela tua hérnia-discal no crânio, pelo teu mestrado a crédito, porque o Saddam era um monstro e seiscentas setecentas oitocentas mil pessoas merecem morrer por causa de um monstro, que horrível trapaça, só monstros ordeiros e pais de família conseguem transformar um carrasco numa vítima, acredita que os senhores ordeiros e bons pais de família vão assinar um tratado de paz na TV satélite provando que é por causa do teu saquinho de plástico do Mini-Preço que hoje morrem mais meia dúzia de tordos, homens e mulheres que valem mais do que tu por saberem que o teu saquinho de plástico é a escória do petróleo, a defecação do petróleo, como tu és a escória do sistema pisgado,
acredita que eles vão fazer-te crer que há um terrorista à porta de tua casa, vais ver como eles são uns ases, lembra-te que não foi a América que descobriu Hollywood mas Hollywood que criou a América,
eu sei que tu gostas de contos de fadas, os terroristas estão a crescer esta noite em Neukoln, e no 19e arrondissement e na Cova da Moura, porque crescem como cogumelos, segundo após segundo, frame atrás de frame, dentro da CNN, acredita que o teu jornal de referência vai garantir que os terroristas tomam café no teu bairro, eles sentaram-se esta manhã ao teu lado, eles pediram-te amavelmente para lhes passares o açucareiro enquanto faziam um selfie,
descansa que o Estado vai enviar
sondas telepáticas
drones foto-sensíveis
patrocinados pela marca Eu sou Charlie e desenhar na tua mente o terrorista certo para o tamanho do teu medo, descansa que o ministério da Grande Verdade, na holotropia dos noticiários, vai esconder um terrorista debaixo da tua almofada, tudo pelo teu bem, enquanto o terrorista passeia no tapete da tua casa de banho tu exiges do Estado câmaras de vigilância para cada um dos teus olhos, e bandas magnéticas, e chips intra-cutâneos, para desse modo poderes viver em paz, mais segura, mais tranquila, para que a tua precariedade material fique mais apetrechada e menos austera, para que dessa forma a tua precariedade espiritual se sinta,
como dizer...
muito melhor, a sério meu anjinho,
eu sei, temos de salvar o Kuwait, e depois o Iraque, e a Geórgia, e Srebrenica, e as rugas da Madonna e os calos do Ronaldo, e o que pode Ala contra o profeta Mac-Donalds?, o que pode Ala contra o Estado makro-satélite?
Não me empurrem mais, não foi uma onda Atlântica que me empurrou (a mim e a milhares de pessoas), eu vim do Porto mas podia ter vindo de Mellilla, de Ceuta, de Lampedusa, do Benim, eu sou uma mulher preta grávida que trago no ventre a fome dos séculos e o arame farpado que tive de engolir para aqui chegar,
eu sou o corpo nu revistado contra a parede
eu sou o náufrago de todos os barcos
e os meus pulmões incham
e a minha boca cospe sal
porque eu respiro debaixo de água
porque eu sonho até debaixo de água
porque nós sonhamos debaixo de água
mas a mim ainda me não podes expulsar, a mim ainda não podes incluir no Pegida Estatal, a nós só nos chamas PIGS,
e vou para a rua por pura incompatibilidade com a espera sem data, vou para a rua por causa do pacto entre o Eurogrupo e o Syriza, eu recuso as imagens do mundo, eu recuso os sonhos-cadáver deste mundo mediado, porque o mundo só é mundo quando sobre ele exercemos a força vital da nossa paixão, essa é a minha estranha pátria, nenhuma alfândega por onde passo me confisca a revolta utópica dos meus passos e jamais me sentirei um refugiado porque desde que Platão expulsou os poetas, e comprou o Popper e o Fukuyama ao desbarato e por grosso, o karaoke desta república de escravos baixou tanto de nível que não chega aos calcanhares do meu sonho mais corriqueiro,

sim, tenho milhares de sacos de plástico na despensa, o buraco de ozono cresceu debaixo do meu colchão, o meu avô tinha o busto do Marx e do Engels em cima da televisão para controlar as locutoras cheias de laca no cabelo, e a minha avó espetava o Buda em cima do frigorífico para controlar a dieta, e aos 7 anos deixei de ter queda por ídolos e religiões porque, quando o autocarro passava na rua, estremecendo nos paralelos, as estátuas tremiam, suavam, ficavam brancas como a cal e em pânico, e durante a noite tinham medo do escuro e faziam xixi nas cuecas porque o grande sonho que partilhavam era a iluminação geral e privada, viva a EDP, a Iberdrola e o Dalai Lama, mais nada, nada, a ponta de um corno,
a ponta de um corno para agora andares às apalpadelas nesta escuridão histórica.

Pano.

Isso querias tu, que o Teatro acabasse, que o teu drama de parecer homem e mulher (ou vice-versa, ou homem-mulher, ou trans, que para o efeito tanto dá) terminasse.
Tu queres arranjar fé para acreditar que o fim está próximo, não queres perceber que a imagem de que o precipício está próximo é uma ilusão como os noticiários da SIC. Querias um precipício eterno como nos contos circulares do Borges, querias andar às voltas como os munduruku encantados pelo curupira, querias um ansiolítico, uma cantada, uma desculpa um álibi,
o que tu gostas é de imaginar por dentro que cais de um prédio muito alto, que metrópoles inteiras se afundam dentro das tuas chagas de pó-de-arroz e,
quando estás prestes a estatelar-te
vais imaginando apocalipses, nosferatus
que correm na tua fibra-óptica Sado-ma(so)cintosh
juízos finais, crimes perfeitos
e depois acordas e o que tu intimamente desejas é que no teu plasma apareça Game Over, de controlo remoto na mão ou a masturbares o teu peluche, o teu toystick, a mexeres na tua crica virtual até atingires o ponto G, o que tu queres é sabotar a tua existência como fazias com os jogos do spectrum para teres vidas infinitas,
e acordas de manhã meio nauseada por ouvires o canto da dança da morte e mexes os lábios superiores inferiores e não sai nada, silêncio, a todo o instante estrangulam-te a vida e tu já nada dizes, nem um estalinho de pescoço, nem um osso quebras por ti enquanto escutas esta eterna tosse como ruído de fundo, a constipação da pele pelo ar e do ar pelas paredes, esta tuberculose do ano passado mais grelada que a cona do ministério da Cultura, país da tuberculose por vocação e da desistência pela força da táctica que nem indo a banhos todo o ano em time-sharing aos Algarves abafa a bicharada
eu tuberculino tu tuberculina nós tubérculos
e não penses em derrubar governos porque assim como assim já muita gente se governa com isso, não penses em mandar yuppies e a mediocridade e a desonestidade e toda aquela corja de homens e mulheres engravatados para darem o nó ao vizinho de cima e subirem mais um degrau nessa história universal da infâmia e da ganância, não penses em mandá-los pró caralho,
tu queres lá saber se os sonhos dos teus filhos são mortos à nascença, engendrados em Bruxelas e postos à circulação a partir de Frankfurt, tu não vês que os sonhos dos teus filhos estão enrolados em arame farpado? Será o arame-farpado virtual? Apenas na medida em que ele cumpre com o seu objectivo mais profundo, o de controlar o teu imaginário e falar por ti quando respondes: são só os filhos dos outros.

eu quero a minha criança,

quero a minha criança

e este país não é socrático mas sórdido, um país que parece uma loja de conveniência, um país cheio de reposteiros com ar de caírem a todo o instante, a humidade dos frisos a alastrar como um corpo que respira entre nós, que se agarra à pele que se entranha nos ossos, os reposteiros a encobrirem os furúnculos com cartões de crédito, o chulé de espírito com o leasing do carro, a parolice com a junta de freguesia ou com a pós-graduação,
aqui
onde estou
avisto sombras e ruínas deste país cada vez mais horrível e onde apetece arrancar todos os reposteiros de uma só vez, e uma geração que não sabe o preço do pão, que não sabe que este país será terrivelmente mais pobre quando daqui a dias morrer a última ceifeira
Adelina
Patrocínia
Galantina
Aduzinda
Natália
Prezentina,
é uma geração cujas lágrimas não enchem meia chávena de nespresso,
e a Helena que cavalgou todas as Tróias rebentando artérias,
pesa-lhe o líquido que pôs nas veias e lhe gela o corpo,
a quem deceparam a perna gangrenada este Inverno, que me pede 5€ para substituir os calços às muletas e eu respondo que não tenho dinheiro e passo-lhe um livro de poemas para a mão como se isso lhe matasse a fome, a fome toda física da ressaca, e também eu lhe engano a fome com poesia, (que o meu desejo é que a Helena tenha orientado o livro na travessa de Cedofeita para salvar a minha face),
e por isso
tu,
tu que és a única razão para que te enfatotreinem, enquanto lês as crónicas do Lobo Antunes e te ris de ti própria através dos imigrantes ucranianos, dos que apregoas de suficientes, dos primos que esqueceste nas Beiras ou nos Arcos de Valdevez, como toda a gente da nossa geração se esqueceu da broa e de amassar o pão e do Chico Francês, uma vida inteira no mar-alto a trazer o peixe que tu levas à boca, antes da neo-austeridade, antes da troika, antes dos novos eufemismos para endrominar a malta, já haviam pendurado pelo pescoço milhares de pescadores e de peixeiras, e tu não viste, e tu não quiseste ver, e tu viraste a cara para o lado,
subo os degraus íngremes
ao mesmo tempo que chamo: Chico!,
tudo tão desamparado, ervas daninhas, moitas, a humidade entranhada no chão e nas paredes, e galgados cinco, seis degraus, começo a ver que a casa do Chico Francês é afinal um casebre de madeira enegrecido pelo Atlântico, a cheirar a podre, remendado com plásticos azuis e amarelos, à porta, no chão de terra batida, a tigela com os restos da massa do jantar para os gatos escanzelados (quantos gatos seriam necessários para afastarem todas as ratazanas que se aproveitam da miséria?),
e o Chico Francês vem mais velho, vem mais lento, mais triste, as calças pretas, a blusa preta comida pelas traças, a barba ainda por escanhoar, a mulher dele aparece à porta com o cabelo molhado e grosso sem ter tido ainda tempo de o apanhar num totó no centro da nuca, o velho pescador aproxima-se de mim, fixa-me com aqueles olhos morrinhentos, atacados de cataratas, de tristeza, de maresias, do salitre do mar-alto, começa a reconhecer-me e quando está a três passos de mim estaca e diz-me: morreu-me um filho no mar. Assim. Porque não tem mais nada para dizer. Mais nada. Diz-me nos olhos: morreu-me um filho no mar. Fala-me como se esperasse de mim a ressurreição do filho, como se a sua impotência e o seu vazio se quisessem agarrar a qualquer coisa que fosse. Olha-me com um olhar triste, mas pior do que a tristeza, olha-me com um olhar vencido, com um olhar de derrota. Assim: esta vida venceu-me.
Este homem que se levantou dias e dias sem fim durante a madrugada, que se fez ao mar com um griso do caralho, que nem o mata-bicho da taberna do Augusto a escorregar pelo buxo abaixo o aquecia por dentro, que vezes sem conta se benzeu antes de lançar as redes ao mar, este homem que trabalhou uma vida inteira, 50, 55, 60 anos, que passou noites e noites de vigia no porão do barco enrolado em mantas rançosas, este homem que apanhou o peixe que levamos à boca, que tu levas à boca, é um homem vencido que vive num casebre de um país chamado portugal.

Chico, eu não tenho nada para te dar. Não tenho nenhuma palavra que te traga aquilo que a vida te negou. A minha voz não vale um chavo. Nada. Hesitante, passo-lhe uma cassete de vídeo para a mão como passei o livro de poemas à Helena sabendo que é o mais inútil dos gestos. Enquanto agarra a cassete, o Chico Francês imagina o pulso gélido do filho a escapar-se-lhe, a fugir-lhe para o fundo dos mares. Eu, eu desvio o olhar para a tigela das sobras e despedimo-nos sem trocarmos o olhar. Desço as escadas com o pensamento diluído pela névoa, pelo Douro carregado, pelo cheiro a limo, à vazante e aos esgotos.
Vislumbro ao longe os estendais de roupa junto ao cais embarcadiço, os homens que pescam à cana as tainhas imundas, tristes animais paralisados de bigode e oleado.
De repente, ouço chamar, volto-me e
junto à porta,
onde a sua mulher continua imóvel com o cabelo grosso na nuca,
ele diz-me:

– Fico-lhe a dever alguma coisa?

***
Vai, vai mandar o teu currículo para os recursos-humanos da Ikea

vês agora a fundação da cidade: a cara de deus e de lúcifer: mil pedras
mil ruas desfeitas mil chagas reluzentes mil cães esmifrados
há o perigo último de passar horas e horas clamando a morte das palavras,
a morte do mundo,
mas clamar a morte das palavras é ainda uma ideologia – a mais pura inocência: pensar que existe um coração nas coisas quando apenas existe uma palavra encravada no coração,
e não me venham dizer que era depois da morte
porque depois da morte e por detrás do discurso há um cão a fornicar
tu, és a única razão para que te enfatotreinem e para que a indústria da suecada saia dos coretos e cresça nesta nação.
mas isto é tudo literatura, respira
respira e relaxa
porque isto são tudo pessoas imaginárias, o Chico Francês, o Saddam, o Charlie, o ministro das Finanças, o camarada Fidel, todos sorriem abraçados na tua Lomo, só falta a gravata para tudo bater certo e talvez a pernita da Helena volte a crescer pró ano
e os meus bolsos queimados me digam que,
a nós
só não nos decepam pernas braços língua
porque a nossa gangrena está bem guardada noutro sítio à espera que os dias passem.