Escuta, Zé Ninguém!

-- Wilhelm Reich

Introdução

Escuta, Zé Ninguém! não é um documento científico, mas humano. Foi escrito no Verão
de 1946, para os arquivos do Instituto Orgone, sem que se pensasse, então, em publicá-
lo. Resultou da luta interior de um cientista e médico que, durante décadas, passou pela
experiência, a princípio ingênua, depois cheia de espanto e, finalmente, de horror, do que
o Zé Ninguém, o homem comum, é capaz de fazer de si próprio, de como sofre e se
revolta, das honras que tributa aos seus inimigos e do modo como assassina os seus
amigos. Sempre que chega ao poder como “representante do povo”, aplica-o mal e
transformado em qualquer coisa ainda mais cruel do que o sadismo que outrora suportava
por parte dos elementos das classes anteriormente dominantes.
Escuta, Zé Ninguém! representa uma resposta silenciosa à intriga e à difamação. Ao ser
escrito, ninguém podia compreender que certas entidades governamentais com missão
de proteger a saúde pública fossem capazes, em conluio com politiqueiros, de atacar o
trabalho de investigação do Instituto Orgone. A tentativa, no ambiente de peste emocional
de 1947, de destruir o Instituto (não com provas de erro ou crime, mas atacando a sua
honra) levou a publicar, como documento histórico, Escuta, Zé Ninguém!.
As circunstâncias mostravam ser necessário, ao homem comum, saber o que se passa
nos bastidores de um laboratório científico e, ao mesmo tempo, verificar o que pensa a
seu respeito um psiquiatra experiente. Que conheça a realidade, único modo de vencer a
desastrosa paixão pelo poder que tanto o obceca. Que lhe seja dito, sem rebuço, que
responsabilidade assume, quando trabalha, ama, odeia ou difama. Que entenda como se
chega ao fascismo, negro ou vermelho, ambos igualmente perigosos para a segurança
dos vivos e para a proteção de nossos filhos. Isso, não apenas porque tais ideologias,
vermelhas ou negras, são intrinsecamente assassinas, mas também por transformarem
crianças saudáveis em adultos mutilados, autômatos e moralmente dementes.
Pois dão preferência ao Estado sobre a justiça, à mentira sobre a verdade, à guerra sobre
a vida. Para o educador, para o médico, existe apenas uma fidelidade: ao que há de vivo
na criança e no doente. Se esta fidelidade for estritamente respeitada, até os grandes
problemas da “política externa”, encontram uma solução simples.
Esta “conversa” não pretende apresentar receitas existenciais. Simplesmente, descreve
as tempestades emocionais por que passa um homem produtivo e satisfeito. Não visa
convencer, aliciar ou conquistar ninguém. Visa, sim, retratar a experiência, como um
guache pinta uma tempestade. O leitor não é chamado a testemunhar-lhe simpatia. Pode
ler ou não ler. Não encerra quaisquer intenções ou programas. Visa unicamente facultar
ao pesquisador e ao pensador o direito ao sentimento e a reação pessoal, nunca
disputado ao poeta e ao filósofo. É um protesto contra os desígnios secretos e ignotos da
peste emocional que, bem entrincheirada e em segurança, vem capciosamente
envenenando o investigador honesto e corajoso com as suas setas ervadas. Mostra como
é a peste emocional, como funciona e entrava o progresso. Testemunha ainda a
confiança na inexplorada riqueza que se oculta na “natureza humana”, pronta a servir as
esperanças do homem.

Escuta, Zé Ninguém!

Chamam-te “Zé Ninguém!” “Homem Comum” e, ao que dizem, começou a tua era, a “Era
do Homem Comum”. Mas não és tu que o dizes, Zé Ninguém, são eles, os vicepresidentes
das grandes nações, os importantes dirigentes do proletariado, os filhos da
burguesia arrependidos, os homens de Estado e os filósofos. Dão-te o futuro, mas não te
perguntam pelo passado.
Tu és herdeiro de um passado terrível. A tua herança queima-te as mãos, e sou eu que to
digo. A verdade é que todo o médico, sapateiro, mecânico ou educador que queira
trabalhar e ganhar o seu pão deve conhecer as suas limitações. Há algumas décadas, tu,
Zé Ninguém, começaste a penetrar no governo da Terra. O futuro da raça humana
depende, à partir de agora, da maneira como pensas e ages. Porém, nem os teus
mestres nem os teus senhores te dizem como realmente pensas e és, ninguém ousa
dirigir-te a única critica que te podia tornar apto a ser inabalável senhor dos teus destinos.
És “livre” apenas num sentido: livre da educação que te permitiria conduzires a tua vida
como te aprouvesse, acima da autocrítica.
Nunca te ouvi queixar: “Vocês promovem-me a futuro senhor de mim próprio e do meu
mundo, mas não me dizem como fazê-lo e não me apontam erros no que penso e faço”.
Deixas que os homens no poder o assumam em teu nome. Mas tu mesmo nada dizes.
Conferes aos homens que detêm o poder, quando não o conferes a importantes mal
intencionados, mais poder ainda para te representarem. E só demasiado tarde
reconheces que te enganaram uma vez mais.
Mas eu entendo-te. Vezes sem conta te vi nu, psíquica e fisicamente nu, sem máscara,
sem opção, sem voto, sem aquilo que fiz de ti “membro do povo”. Nu como um recém-
nascido ou um general em cuecas. Ouvi então os teus prantos e lamúrias, ouvi-te os
apelos e esperanças, os teus amores e desditas. Conheço-te e entendo-te. E vou dizer-te
quem és, Zé Ninguém, porque acredito na grandeza do teu futuro, que sem dúvida te
pertencerá. Por isso mesmo, antes de tudo o mais, olha para ti. Vê-te como realmente és.
Ouve o que nenhum dos teus chefes ou representantes se atreve a dizer-te:
És o “homem médio”, o “homem comum”. Repara bem no significado destas palavras:
“médio” e “comum”.
Não fujas. Tem ânimo e contempla-te. “Que direito tem este tipo de dizer-me o que quer
que seja?” Leio esta pergunta nos teus olhos-amedrontados. Ouço-a na sua
impertinência, Zé Ninguém. Tens medo de olhar para ti próprio, tens medo da crítica, tal
como tens medo do poder que te prometem e que não saberias usar. Nem te atreves a
pensar que poderias ser diferente: livre em vez de deprimido, direto em vez de cauteloso,
amando às claras e não mais como um ladrão na noite. Tu mesmo te desprezas, Zé
Ninguém, Dizes: “Quem sou eu para ter opinião própria, para decidir da minha própria
vida e ter o mundo por meu?” E tens razão: Quem és tu para reclamar direitos sobre a tua
vida? Deixa-me dizer-te.
Diferes dos grandes homens que verdadeiramente o são apenas num ponto: todo o
grande homem foi outrora um Zé Ninguém que desenvolveu apenas uma outra qualidade:
a de reconhecer as áreas em que havia limitações e estreiteza no seu modo de pensar e
agir. Através de qualquer tarefa que o apaixonasse, aprendeu a sentir cada vez melhor
aquilo em que a sua pequenez e mediocridade ameaçavam a sua felicidade. O grande
homem é, pois, aquele que reconhece quando e em que é pequeno. O homem pequeno é
aquele que não reconhece a sua pequenez e teme reconhecê-la; que procura mascarar a
sua tacanhez e estreiteza de vistas com ilusões de força e grandeza, força e grandeza
alheias. Que se orgulha dos seus grandes generais, mas não de si próprio. Que admira as
idéias que não teve, mas nunca as que teve. Que acredita mais arraigadamente nas
coisas que menos entende, e que não acredita no que quer que lhe pareça fácil de
assimilar.
Comecemos pelo Zé Ninguém que habita em mim: Durante vinte e cinco anos tomei a
defesa, em palavras e por escrito, do direito do homem comum à felicidade neste mundo;
acusei-te pois da incapacidade de agarrar o que te pertence, de preservar o que
conquistaste nas sangrentas barricadas de Paris e Viena, na luta pela Independência
americana ou na revolução russa. Paris foi dar a Pétain e Laval, Viena a Hitler, a tua
Rússia a Stalin, e a tua América bem poderia conduzir a um regime KKK – Ku-Klux-Klan.
Sabes melhor lutar pela tua liberdade que preservá-la para ti e para os outros. Isto eu
sempre soube. O que não entendia, porém, era porque de cada vez que tentavas
penosamente arrastar-te para fora de um lameiro acabavas por cair noutra ainda pior.
Depois, pouco a pouco, às apalpadelas e olhando prudentemente em torno, entendi o que
te escraviza: ÉS TU O TEU PRÓPRIO NEGREIRO. A verdade diz que mais ninguém
senão tu é culpado da tua escravatura. Mais ninguém, sou eu que te digo!
Esta é nova, hein? Os teus libertadores garantem-te que os teus opressores se chamam
Guilherme, Nicolau, papa Gregório XXVIII, Morgan, Krupp e Ford. E que os teus
libertadores se chamam Mussolini, Napoleão, Hitler e Stalin.
Mas eu afirmo: Só tu podes libertar-te.
Esta frase faz-me, porém, vacilar. Intitulo-me paladino da pureza e da verdade, mas agora
que se trata de te dizer a verdade, hesito, temendo a tua atitude em relação à verdade. A
verdade é um perigo para a vida quando é a ti que diz respeito. A verdade é a salvação
mas não há população que não se lance sobre ela para a espoliar, de outro modo não
serias o que és nem estarias onde estás.
Intelectualmente, sei que devo dizer a verdade a todo o custo. Mas o Zé Ninguém que se
alberga em. mim adverte-me: estúpido, expores-te, entregares-te, ao Zé Ninguém. O Zé
Ninguém não está interessado em ouvir a verdade acerca de si próprio. Não deseja
assumir a grande responsabilidade que lhe cabe, quer queira quer não. Quer permanecer
o que é ou, quando muito, tornar-se num desses grandes homens medíocres – ser rico,
chefe de um partido, da Associação dos Veteranos de Guerra ou secretário da Sociedade
de Promoção da Moral Pública. Mas assumir a responsabilidade do seu trabalho,
alimentação, alojamento, Transportes, educação, investigação, administração pública,
exploração mineira, isso nunca.
E o Zé Ninguém que se aloja dentro de mim acrescenta:
“És agora um grande homem, conhecido na Alemanha, Áustria, Escandinávia, Inglaterra,
América, Palestina. Os comunistas atacam-te. Os ‘defensores dos valores culturais’
odeiam-te. Os teus alunos estimam-te. Os doentes que curaste admiram-te. Os que
sofrem da peste emocional perseguem-te. Escreveste 12 livros e 150 artigos sobre as
misérias da existência, sobre o sofrimento do homem comum. As tuas idéias são
ensinadas nas Universidades; outros grandes homens igualmente solitários confirmam o
teu prestígio e põem-te entre os maiores intelectos da história da ciência. Fizeste uma das
maiores descobertas científicas desde há muitos séculos, a da energia cósmica da vida e
suas leis. Tornaste o cancro um fenômeno compreensível. Por tudo isto, andaste de pais
em pais por dizeres a verdade. Descansa agora. Goza os frutos do teu êxito, do teu
prestígio. Em poucos anos o teu nome será conhecida por todos. O que fizeste já basta.
Recolhe-te agora ao repouso, ao estudo da lei funcional da natureza”.
Esta é a conversa do Zé Ninguém dentro de mim e que te teme a ti, Zé Ninguém.
Durante muito tempo sintonizei contigo porque conhecia a tua vida através da minha
própria existência e porque queria ajudar-te. Mantive-me perto de ti porque via que te era
útil e que aceitavas o meu auxilio com prazer e, não raro, com lágrimas nos olhos. Só aos
poucos percebi que o aceitavas, mas que não eras capaz de defendê-lo. Defendi-o e lutei
para ti, por ti. Foi então que os teus chefes destruíram o meu trabalho e que tu os
seguiste em silêncio. Continuei então em comunhão contigo, tentando achar maneira de
ajudar-te sem soçobrar quer como teu dirigente quer como tua vítima. E o Zé Ninguém
que reside em mim tentava convencer-te, “salvar-te”, merecer-te o respeito que consagras
às “altas matemáticas” por não fazeres a mínima idéia do que sejam. Quanto menos
entendes, mais prezas. Conheces Hitler melhor que a Nietzsche, Napoleão melhor que a
Peslalozzi. Qualquer monarca significa mais para ti do que Sigmund Freud. E o Zé
Ninguém que vive em mim gostaria de ter-te nas mãos pelo processo costumeiro,
recorrendo ao rataplã dos chefes. Eu temo-te, porém, quando o meu Zé Ninguém deseja
“conduzir-te à liberdade”. É que poderias descobrir a mesma identidade medíocre em ti e
em mim, e, assustado, matares-te na minha pessoa. Foi por isso que deixei de ser
escravo da tua liberdade e desejar morrer por ela.
Sei que não me entendes ainda quando te falo na “liberdade de ser escravo de quem quer
que seja”, idéia que não é fácil. Para não ser escravo fiel de um único senhor, e ser
escravo de todos, ter-se-á em primeiro lugar que matar o opressor, digamos, por exemplo,
o Czar. Este crime político nunca poderia ser perpetrado sem um grande ideal de
liberdade e motivos revolucionários. É, portanto, necessário fundar um partido
revolucionário de liberdade sob a égide de um homem verdadeiramente grande, seja ele
Jesus Cristo, Marx, Lincoln ou Lenin. Claro está que este grande homem tomará a tua
liberdade muito a sério. Para a impor, terá que rodear-se de uma multidão de homens
menores, ajudantes e moços de recados, dada a imensidade de tarefa para um só
homem. Tu não, irias entendê-lo, e deixá-lo-ias de lado, se ele se rodeasse de gente um
pouco superior. Assim escudado, ele conquista para ti o poder, ou uma parcela da
verdade, ou uma nova e melhor crença. Escreve evangelhos, promulga leis liberais, e
conta com o teu apoio, seriedade e prontidão. Arranca-te do lameiro social onde te
encontras imerso. Para manter solidários os muitos acólitos de menor talhe, para
conservar a tua confiança, o homem verdadeiramente grande sacrifica pouco a pouco a
sua grandeza que ele só pôde cultivar na sua profunda solidão espiritual, longe de ti e do
teu bulício quotidiano mas em estreito contacto com a tua vida. Para te poder guiar, terá
de conseguir que o transformes num Deus inacessível, pois que jamais obteria a tua
confiança se permanecesse o simples homem que é, um homem a quem fosse, por
exemplo, possível amar uma mulher sem estar casado com ela. E assim engendras um
novo amo. Promovido ao seu novo papel senhorial, eis que o grande homem mingua, pois
que a grandeza lhe estava na inteireza, simplicidade, coragem e proximidade da vida. Os
seus medíocres acólitos, grandes mercê da aura dele, assumem os altos cargos das
finanças, da diplomacia, do governo, das ciências e das artes – e tu ficas onde estavas:
no lameiro, pronto a esfarrapares-te novamente em nome do “futuro socialista” ou do
“Terceiro Reich”. Continuarás a viver em barracas com telhados de palha e paredes
rebocadas de estrume, mas muito ufano dos teus palácios da cultura. Basta-te a ilusão de
que governas – até que sobrevenha a próxima guerra e a queda dos novos tiranos.
Em países distantes, homens medíocres estudaram com afinco a tua ânsia de ser
escravo e descobriram como tornar-se grandes homens medíocres com um mínimo de
esforço intelectual. Esses homens vêm das tuas fileiras, nunca habitaram palácios.
Passaram fome e sofreram como tu - mas aprenderam a encurtar o processo de mudança
dos chefes. Aprenderam que cem anos de árduo trabalho intelectual em prol da tua
liberdade, de grandes sacrifícios pessoais pelo teu bem-estar, de holocausto até da vida
nos interesses da tua libertação, eram preço demasiado alto pela tua próxima nova
escravatura. Tudo o que pudesse haver sido elaborado ou sofrido em 100 anos de vida de
grandes pensadores podia ser destruído em menos de cinco anos. Os homúnculos da tua
estirpe aprenderam, assim, a abreviar o processo: fazem-no mais aberta e brutalmente. E
dizem-te sem rebuços que tu, a tua vida, os teus filhos e a tua família não contam, que és
estúpido e subserviente e que podem fazer de ti o que lhe aprouver. E em vez de
liberdade pessoal prometem-te liberdade nacional. Não te prometem dignidade pessoal
mas respeito pelo Estado; grandeza nacional em vez de grandeza pessoal. E como
“liberdade pessoal” e “grandeza” são para ti apenas conceitos estranhos e obscuros,
enquanto “liberdade nacional” e “interesses do Estado” são palavras que te enchem a
boca, como ossos que fazem nascer a água na boca de um cão, não há amém que não
lhes dê. Nenhum desses homens medíocres paga pela liberdade autêntica o preço que
pagaram Giordano Bruno, Cristo, Karl Marx ou Lincoln. Nem tu lhes interessas a ponta de
um chavelho. Desprezam-te como tu te desprezas, Zé Ninguém. E conhecem-te bem,
muito melhor do que um Rockefeller ou os Conservadores. Conhecem os teus podres
como só tu próprio os devias conhecer. Sacrificam-te a um símbolo e és tu próprio quem
lhes confere o poder que exercem sobre ti. Ergueste tu próprio os teus tiranos, e és tu
quem os alimenta, apesar de terem arrancado as máscaras, ou talvez por isso mesmo.
Eles mesmo te dizem clara e abertamente que és uma criatura inferior, incapaz de
assumir responsabilidades, e que assim deverás permanecer. E tu nomeia-los novos
“salvadores” e dá-lhes “vivas”.
É por isso que eu tenho medo de ti, Zé Ninguém, um medo sem limites. Porque é de ti
que depende o futuro da humanidade. E tenho medo de ti. porque não existe nada a que
mais fujas do que a encarar-te a ti próprio., Estás doente, Zé Ninguém, muito doente,
embora a culpa não seja tua. Mas é a ti que cabe libertares-te da tua doença. Já há muito
que terias derrubado os teus verdadeiros opressores se não tolerasses a opressão e não
a apoiasses tu próprio. Nenhuma força policial do mundo poderia prevalecer contra ti se
tivesses ao menos uma sombra de respeito por ti próprio na tua vida quotidiana, se
tivesses aprofunda convicção de que, sem o teu esforço, a vida sobre a terra não seria
possível por nem uma hora mais. Será que o teu “libertador” te disse? Qual quê! Chamate
“Proletário do Mundo”, mas não te dizem que tu, e só tu, és responsável pela tua vida
(em vez de seres responsável pela “honra da pátria”).
Terás que entender que és tu quem transforma homens medíocres em opressores e torna
mártires os verdadeiramente grandes; que os crucificas, os assassinas e os deixas morrer
de fome; que não te ralas absolutamente nada com os seus esforços e as lutas que
travam em teu nome; que não fazes a menor idéia de quanto lhes deves do pouco de
satisfação e plenitude de que gozas na vida.
Dizes: “Antes de confiar em ti, gostaria de saber qual a tua filosofia da vida.” Quando
souberes a minha filosofia da vida vais a correr ao presidente da Câmara, ou ao “Comitê
contra as Atividades Antiamericanas”, ou ao F.B.I., ao G.P.U. ou à imprensa
sensacionalista, ou à Ku Klux Klan, ou aos “Líderes dos Proletários de Todo o Mundo”, ou
pura e simplesmente safas-te:
Não sou um Vermelho, nem um Branco, nem um Negro, nem um Amarelo.
Não sou nem cristão, nem judeu, nem maometano, mórmon, homossexual, polígamo,
anarquista ou membro de seita secreta.
Faço amor com a minha mulher porque a amo e a desejo e não porque tenha um
certificado de casamento ou para satisfazer as minhas necessidades sexuais.
Não bato nas crianças, não vou à pesca e não mato veados nem coelhos. Mas não atiro
mal e gosto de acertar no alvo.
Não jogo brídge, não dou festas com o fito de divulgar as minhas teorias. Se o que penso
é correto divulgar-se-á por si próprio.
Não submeto o meu trabalho às autoridades oficiais de saúde, a não ser que elas possam
entendê-lo melhor do que eu. E sou em quem decide quem pode manejar o conhecimento
e as particularidades da minha descoberta.
Observo estritamente o cumprimento das leis quando fazem sentido, e luto contra elas
quando obsoletas ou absurdas. (Não corras já para o presidente da Câmara, Zé Ninguém,
porque se ele for um homem decente faz o mesmo.).
Desejo que as crianças e os adolescentes experimentem com o corpo a sua alegria no
prazer tranqüilamente.
Não creio que para ser religioso no sentido genuíno da palavra seja necessário destruir a
vida afetiva e tornar-se crispado e encolhido de corpo e de espírito.
Sei que aquilo a que chamas “Deus” existe, mas de forma diferente da que pensas: é a
energia cósmica primordial do Universo, tal como o amor que anima o teu corpo, a tua
honestidade e o teu sentimento da natureza em ti ou à tua volta.
Ponho na rua quem quer que seja que, sob qualquer pretexto insignificante, tente
interferia no meu trabalho clínico e pedagógico com doentes ou crianças. Confrontá-lo-ia
em tribunal com algumas perguntas simples e claras a que não lhe seria possível
responder sem cobrir a cara de vergonha para o resto da vida. Porque eu sou um homem
de trabalho que sabe o que um homem é por dentro, que sabe o que o outro vale e que
deseja que seja o trabalho a governar o mundo, e não as opiniões sobre o trabalho.
Tenho a minha opinião e sei distinguir uma mentira da verdade que quotidianamente
emprego como instrumento e que sei manter limpo após uso.
Tenho muito medo de ti, Zé Ninguém, um enorme e profundo medo, e nem sempre foi
assim. Eu já fui um Zé Ninguém entre milhões de outros. Hoje, como cientista e
psiquiatra, sei ver que és doente e perigoso na tua doença. Aprendi a reconhecer o fato
de que é a tua doença emocional que te destrói minuto a minuto, e não qualquer poder
exterior. Há muito já que terias suprimido os tiranos se estivesses vivo e são no teu
íntimo. Hoje em dia os teus opressores vêm das tuas próprias fileiras, tal como outrora
vinham dos estratos mais altos da hierarquia social. Ainda são mais medíocres do que tu,
Zé Ninguém. Porque, tendo conhecido por experiência a tua miséria, é necessária muita
mediocridade para utilizar esse conhecimento com vista à tua supressão ainda mais
perfeita e eficaz.
Tu não tens sequer a capacidade de reconhecer um homem verdadeiramente grande. O
seu modo de ser, o seu sofrimento, as suas aspirações, raivas e lutas. em teu nome sãote
completamente alheios. Nem sequer entendes que existem homens e mulheres
incapazes de suprimir-te ou explorar-te e que genuinamente desejam que sejas livre, real
o verdadeiramente livre. Nem. te agradam, porque são de outra natureza. São simples e
diretos; para eles, a verdade corresponde às tuas tácticas. Vêem-te à transparência, não
em derisão, mas em mágoa pelo destino dos homens. Mas tu sentes apenas que olham
através de ti, e tens medo. Só os aclamas, Zé Ninguém, quando muitos outros Zés
Ninguéns te dizem que esses grandes homens são grandes. Tens medo deles, do tão
perto que estão da vida e do amor que lhe têm. O grande homem ama-te simplesmente
como criatura humana, ser vivo.
Deseja apenas que cesse o teu sofrimento milenar. Que cales o teu milenar cacarejo. Que
não mais sejas besta de carga como o tens sido, porque ama a vida e desejaria vê-la
liberta do sofrimento e da ignomínia. És tu que levas os homens verdadeiramente grandes
a desprezarem-te, a retirarem-se com tristeza do teu convívio medíocre, a evitarem-te e,
pior de tudo, a terem compaixão de ti. Se fosses psiquiatra, Zé Ninguém, um Lombroso,
por exemplo, tentarias esmagá-los como a criminosos irrecuperáveis ou psicóticos.
Porque os objetivos da vida dum grande homem são diversos dos teus - não consistem
na acumulação. de bens, nem no casamento socialmente adequado das filhas, nem na
sua carreira política, nem na obtenção de honras acadêmicas ou do Prêmio Nobel. E
porque não é como tu, chamas-lhe “gênio” ou “excêntrico”. Mas o grande homem apenas
se reserva o direito de ser um ser humano. Chamas-lhe “a-social”, porque prefere o seu
gabinete de trabalho ou o seu laboratório, a sua linha de pensamento e o seu trabalho às
tuas festinhas ridículas e destituídas de sentido. Chamas-lhe louco porque prefere gastar
o seu dinheiro na investigação científica em vez de comprar ações ou outros bens. Na tua
degenerescência, Zé Ninguém, ousas considerá-lo como “anormal” o homem
simplesmente reto, pois que o comparas contigo, o protótipo da “normalidade”, o “homo
normalis”. Ao medi-lo com a tua medida estreita não lhe encontras as dimensões da tua
normalidade. Nem entendes, Zé Ninguém, que és tu que o afastas das tuas reuniõezinhas
sociais, que apenas lhe são insuportáveis, quer nas tabernas quer nos salões de baile,
porque te ama e deseja genuinamente auxiliar-te. O que o torna aquilo que é após várias
décadas de sofrimento? Tu, na tua irresponsabilidade, na tua tacanhez, na tua
incapacidade de refletir, e os teus “axiomas eternos” que não sobrevivem a dez anos de
progresso social. Lembra-te.apenas de todas as coisas que tomaste por certas durante os
escassos anos que decorreram entre a primeira e a segunda guerra mundiais. Quantas
reconheceste como erradas, de quantas foste capaz de te retratar? De nenhumas, Zé
Ninguém. Porque o homem realmente maior pensa cautelosamente, mas quando se
apropria de uma idéia, pensa a longo prazo. E és tu, Zé Ninguém, que fazes do grande
homem um paria quando o seu pensamento correto e duradouro enfrenta a mesquinhez e
a precariedade das tuas convicções. És tu que o condenas à solidão, não à solidão que
gera grandes obras, mas à solidão do temor da incompreensão e do ódio. Porque tu és “o
povo”, a “opinião pública” e a “consciência social”. Já alguma vez pensaste na
responsabilidade gigantesca que estes atributos te conferem, Zé Ninguém? Já alguma
vez perguntaste a ti próprio se pensas corretamente, quer do ponto de vista da trajetória
social onde estás inserido, quer da natureza, quer até do acordo com os atos humanos de
uma figura como, por exemplo, a do Cristo? Não, Zé Ninguém, nunca te inquietaste com a
possibilidade do que pensas estar errado, mas sim com o que iria pensar o teu vizinho ou
com o preço possível da tua honestidade. Foram estas as únicas questões que puseste a
ti próprio.
E depois de condenares o grande homem à solidão é ainda teu hábito esquecê-lo.
Segues o teu caminho, perorando outras asneiras, cometendo outras baixezas, ferindo de
novo. Esqueces. Mas é da natureza do grande homem não esquecer nem vingar-se, mas
tentar entender A INCONSISTÊNCIA DO TEU COMPORTAMENTO.
Sei que também te é estranho que assim seja. Podes crer, porém, que o sofrimento que
infliges tantas vezes inconscientemente - e que quantas vezes logo esqueces - é para o
grande homem, mesmo se incurável, motivo de reflexão em teu nome, não pela grandeza
dos teus atos vis, mas exatamente pela sua pequenez. E é ele quem se interroga sobre o
que te leva a maltratar o marido ou a mulher que te desapontou, a torturar os teus filhos
porque desagradam a vizinhos odiosos, a desprezar e explorar alguém só porque é
bondoso; a receber quando te dão e a dar quando te exigem, mas nunca a dar quando o
que te é dado o é por amor; a bater em quem já está de rastos; a mentir quando te é
pedida a verdade e a persegui-la bem mais do que à mentira. Zé Ninguém, tu estás
sempre do lado dos opressores. Para que o estimasses e te caísse em graça, o grande
homem teria de se adaptar ao teu modo de ser, Zé Ninguém, falar como tu e gabar-se das
mesmas virtudes. A verdade é que se ostentasse as tuas virtudes, falasse a tua
linguagem e gozasse da tua amizade não mais seria grande, autêntico ou simples. Prova
é que os teus amigos que dizem exatamente o que esperas que eles digam nunca foram
grandes homens. Tu não acreditas que qualquer amigo teu possa conseguir o que quer
que seja de grande. No mais intimo de ti próprio, desprezas-te, mesmo quando – ou
particularmente quando – gabas mais da tua dignidade; e se te desprezas, como poderias
respeitar os teus amigos? Nunca poderias acreditar que quem quer fosse que se sentasse
à tua mesa ou vivesse na mesma casa contigo pudesse realizar o que quer que fosse de
grandioso.
Perto de ti é difícil pensar, Zé Ninguém. É apenas possível pensar acerca de ti, nunca
contigo. Porque tu sufocas qualquer pensamento original. Tal como uma mãe, tu dizes às
crianças que exploram o seu mundo: “Isso não é próprio para crianças”.Como um
professor de biologia, dizes: “Isso não é coisa para bons alunos. O quê, duvidar da teoria
dos germes do ar?” Como um professor primário, dizes: “As crianças são para ser vistas,
e não para se ouvirem”.Como uma mulher casada, dizes: “Há! A investigação! Eu e a tua
investigação! Porque é que não vais para um escritório, como toda a gente, ganhar
decentemente a tua vida?” Mas sobre o que se escreve nos jornais tu acreditas, quer
percebas quer não.
Garanto-te, Zé Ninguém, que perdeste o sentido do que mais vale em ti mesmo. Morre de
sufocação às tuas mãos, em ti e onde quer que o encontres nos outros, nos teus filhos, na
tua mulher, no teu marido, no teu pai e na tua mãe. Tu és medíocre e queres continuar a
sê-lo.
Perguntas-me como sei eu tudo isto? Eu digo-te:
Conheço-te. Experimentei-te e experimentei-me contigo. Como terapeuta libertei-te da tua
mesquinhez, como educador orientei-te no sentido da espontaneidade, da confiança. Sei
como te defendes da espontaneidade, sei o terror que te toma quando te pedem que
sejas tu próprio, autêntico e genuíno.
Eu sei que não és apenas medíocre, Zé Ninguém. Sei que também tens as tuas grandes
horas na vida, momentos de “júbilo” e “exaltação”, de “vôo”. Mas falta-te a coragem para
subir cada vez mais alto, para manter a tua própria exaltação. Tens medo de altos vôos,
medo da altura e da profundidade, Nietzsche já te disse isto muito melhor, há muitos anos
já. Só que não te disse porque é que és assim. Tentou transformar-te num super-homem,
um Übermensch que superasse o que tens de humano. O Übermensch (Além-Homem ou
Super-Homem) tornou-se “Führer Hitler”. Tu permaneceste Üntermensch. Eu gostaria
apenas que fosses tu próprio. Tu próprio, em vez do jornal que lês ou da balofa opinião do
vizinho. Sei que não sabes o que és e como és em profundidade. Sei que em
profundidade és como o animal acossado, como o teu próprio Deus, como o poeta ou o
sábio. Mas crês ser o membro da Legião ou do teu clube ou da Ku Klux Klan. E como crês
sê-lo, ages em conseqüência. Também isto já foi dito por outros: Heinrich Mann, na
Alemanha, há vinte e cinco anos, Upton Sinclair, Dos Passos e outros, nos Estados
Unidos. Mas tu nunca ouviste falar de Mann ou de Sinclair. Só conheces os campeões de
boxe e Al Capone. Se tivesses de escolher entre o ambiente de uma biblioteca e o de
uma taberna, escolhias o da taberna.
Exiges que a vida te conceda a felicidade, mas a segurança é-te mais importante, ainda
que custe a dignidade ou a vida. Como nunca aprendeste a criar felicidade, a gozá-la e a
protegê-la, não conheces a coragem do indivíduo reto. Queres saber o que és, Zé
Ninguém? Ouve os anúncios publicitários dos teus laxantes, das tuas pastas de dentes e
desodorizantes. Mas não ouves a música da propaganda. Não distingues a abissal
estupidez e o mau gosto de coisas que se destinam a ficar-te no ouvido. Já alguma vez
prestaste atenção às piadas que o intelectualóide larga a teu respeito nas revistas?
Piadas sobre ti e sobre ele, piadas de um mundo reles e desgraçado. Escuta a tua
publicidade aos laxantes e saberás o que és.
Escuta, Zé Ninguém: a miséria da existência humana é visível à luz de cada um destes
pequenos horrores. Cada ato mesquinho teu faz retroceder de mil passos qualquer
esperança que possa restar quanto ao teu futuro. E sentes isto tão penosamente que,
para não o saberes, inventas graças de mau gosto e chamas-lhes “humor popular”. Ouves
a piada que te humilha e ris-te com os outros. Ris-te do Zé Ninguém, sem entender que é
de ti que te ris, tal como milhões de outros Zés Ninguéns. Já alguma vez perguntaste a ti
próprio por que razão dá espaço ao longo dos séculos à tal brincadeira maliciosa? Já
alguma vez te chocou até que ponto “as pessoas” são ridículas nos filmes? Vou tentar
dizer-te por que razão és ridículo e vou dizer-te porque te levo muito, mesmo muito, a
sério:
Consegues sempre faltar à verdade naquilo que pensas, à imagem do excelente atirador
que, se assim o quiser, consegue acertar sempre mesmo abaixo do centro do alvo. Há já
muito que poderias ser senhor de ti próprio, se tentasses pensar corretamente. Só que tu
pensas assim:
“A culpa é dos judeus”. “Que é um judeu?” – pergunto eu. “São pessoas com sangue
judeu” – respondes. “Qual é a diferença entre o sangue judeu e o outro?” Aqui estacas,
hesitas, ficas confuso e respondes: “Quero dizer, dá raça dos judeus”.“Que é raça?” –
pergunto eu. “Raça? É simples, assim como existe uma raça germânica, existe a raça dos
judeus”. “Que é que caracteriza a raça dos judeus?” “Bom, um judeu tem cabelos pretos,
tem uma bossa no nariz e olhos muito vivos. Os judeus são avarentos e capitalistas.” “Já
alguma vez viste um francês do Sul ou um italiano ao Pé dum judeu? Sabes distinguí-
los?” “Lá isso não sei assim muito bem” “Bom, então que é um judeu? As análises de
sangue não mostram qualquer diferença, não se distingue de um francês ou de um
italiano. E já alguma vez viste judeus alemães?” “Já, pois, parecem alemães.” “E que é
um alemão?” “Um alemão pertence à raça ariana nórdica.” “Os Índios são arianos?”
“São.” “E são nórdicos?” “Não.” “E loiros?’ “Não.” “Bom, então não sabes o que é um
alemão e o que é um judeu.” “Mas há judeus.” “Pois há, tal como há cristãos e
maometanos.” “Eu refiro-me à religião judaica.” “Roosevelt era holandês?” “Não.” “Então
porque é que chamas judeu a um descendente de David, se não chamas holandês ao
Roosevelt?” Com os judeus é diferente. “Em que é que é diferente?” “Não sei.”
E é assim que tu desatinas, Zé Ninguém. E sobre os teus desatinos levantas exércitos
capazes de assassinar dez milhões de pessoas, porque são “judeus”, sem que tu saibas
sequer dizer o que é um judeu. E é por isso que és ridículo, que o melhor é evitar-te
quando se tem alguma coisa de sério para fazer, é por isso que permaneces no lameiro.
Quando dizes “judeu” sentes-te superior. E és forçado a dizê-lo pela tua própria miséria,
pois o que matas no judeu é o que sentes que tu próprio és. Mas isto é apenas uma
ínfima parcela da tua verdade, Zé Ninguém.
Quando dizes “judeu” cheio de arrogância e desprezo sentes menos a tua própria
mesquinhez. Só recentemente me dei conta de que assim era. Só chamas “judeu” a quem
suscita muito pouco ou demasiado o teu respeito. A tua concepção de “judeu” é
perfeitamente arbitrária. Só que eu não te dou o direito a usá-la, quer tu sejas judeu ou
ariano. Só eu próprio tenho o direito a determinar quem sou. Biológica e culturalmente sou
um rafeiro e orgulho-me de ser o produto intelectual e físico de todas as classes, raças e
nações, orgulho-me de não pertencer a uma “raça pura”, como tu, de não pertencer a
uma “classe pura”, de não ser chauvinista como tu, um fascistinha de todas as nações,
raças e classes. Constou-me que em Israel rejeitaste um técnico judeu pelo simples fato
de não ser circuncidado. Não tenho mais afinidades com os judeus fascistas do que com
quaisquer outros. Porque recuas apenas até Sem, e não até ao protoplasma? A vida para
mim tem início nas contrações plasmáticas, e não no escritório de um rabi.
Levou milhões de anos a tua evolução de água-viva a bípede terrestre. A tua aberração
biológica sob a forma de rigidez dura apenas há seis mil anos. Levará cem ou quinhentos
ou talvez cinco mil anos até que redescubras em ti a natureza, a célula inicial. Eu descobri
em ti a água-viva e, quando me ouviste pela primeira vez, chamaste-me gênio. Foi na
Escandinávia, andavas tu à procura de um novo Lenin. Mas eu tinha coisas mais
importantes a fazer e declinei a função.
Também me proclamaste novo Darwin, ou Marx, ou Pasteur, ou Freud. Disse-te já há
muitos anos que também tu poderias falar e escrever como eu, se não passasses a vida a
saudar os novos messias. Porque os teus gritos destroem-te a razão e paralisam a tua
natureza criadora.
Não és tu que persegues a “mãe solteira” como uma criatura imoral, Zé Ninguém? Não és
tu que estabeleces uma distinção severa entre as crianças “legítimas” e as crianças
“ilegítimas?” Pobre criatura, que não entendes as tuas próprias palavras - ou não és tu
que veneras o Cristo enquanto criança? Cristo menino, que nasceu de uma mãe que não
possuía certificado de casamento? Sem fazeres idéia de que assim seja, como.veneras
no Cristo criança o teu desejo de liberdade sexual! Fizeste do Cristo criança, nascido
ilegitimamente, o filho de Deus, que não reconhece a ilegitimidade de crianças. Para logo
em seguida, como Paulo, o Apóstolo, perseguir os filhos nascidos do amor e proteger sob
a alçada das leis religiosas os nascidos do ódio. És realmente um desgraçado, Zé
Ninguém!
Os teus automóveis e comboios atravessam as pontes que o grande Galileu inventou.
Sabias, Zé Ninguém, que o grande Galileu teve três filhos sem qualquer certificado de
casamento? Isso não dizes tu às crianças da escola. E não foi também por isso mesmo
que o submeteste à tortura?
Sabias, Zé Ninguém, que, na “Pátria dos Povos Eslavos”, o, teu grande Lenin, pai dos
proletários de todo o mundo, ao tomar o Poder aboliu o casamento compulsivo? E sabias
que ele próprio viveu com a mulher sem certificado de casamento? E foi então que pela
mão do chefe de todos os Eslavos restabeleceste as leis referentes à obrigatoriedade do
casamento, porque não sabias que havias de fazer da liberdade que te fora concedida por
Lenin.
Mas o que é que tu sabes de tudo isto, tu que não fazes a mínima idéia do que seja a
verdade, ou a história, ou a luta pela liberdade? Quem és tu para teres opinião própria?
Nem sequer te apercebes de que a opressão das leis que regulam a tua vida matrimonial
decorre naturalmente do teu espírito pornográfico e da tua irresponsabilidade sexual.
Sentes-te infeliz e medíocre, repulsivo, impotente, sem vida, vazio. Não tens mulher e, se
a tens, vais com ela para a cama só para provar que és “homem”. Nem sabes o que é o
amor. Tens prisão de ventre e tomas laxantes. Cheiras mal e a tua pele é pegajosa,
desagradável. Não.sabes envolver o teu filho nos braços, de modo que o tratas como um
cachorro em quem se pode bater à vontade. A tua vida vai andando sob o signo da
impotência, no que pensas, no teu trabalho. A tua mulher abandona-te porque és incapaz
de lhe dar amor. Sofres de fobias, nervosismo, palpitações. O teu pensamento dispersase
em ruminações sexuais. Falam-te de economia sexual. Algo que te entende e poderia
ajudar-te. Que te permitiria viveres à noite a tua sexualidade e que te deixaria livre
durante o dia para pensar e trabalhar. Que te faria ter nos braços uma mulher sorridente
em vez de desesperada, ver os teus filhos sãos em vez de pálidos, amorosos em vez de
cruéis. Mas quando ouves falar de economia sexual dizes: “O sexo não é tudo. Há outras
coisas importantes na vida”. És assim, Zé Ninguém.
Ou suponhamos que és um “marxista”, um “revolucionário profissional”, um futuro
“dirigente dos Proletários do Mundo”. Dizes querer libertar as massas do seu sofrimento.
As massas enganadas fogem-te desiludidas e tu gritas enquanto corres no seu encalço:
“Parai, massas proletárias! Sou o vosso libertador! Abaixo o capitalismo!” Enquanto eu
falo às massas, pequeno-revolucionário, e lhes digo da miséria das suas. pequenas vidas.
Ouvem-me, com entusiasmo e esperança. Acorrem às tuas organizações onde esperam
encontrar-me. É, então que dizes: “A sexualidade é uma invenção pequeno-burguesa. O
que conta é o fator econômico”. E lês os livros de Van de Velde sobre técnicas sexuais.
Quando um grande homem dedicou a sua vida a tentar dar à tua emancipação econômica
uma base científica, deixaste-o morrer de fome. Mataste a primeira via de verdade que
surgiu no teu desvio das leis da vida. Quando a sua primeira tentativa foi bem sucedida,
tomaste-lhe as rédeas da administração e cometeste segundo crime. Da primeira vez, o
grande homem dissolveu a organização. Da segunda, estava já morto e nada podia
contra ti. Não entendeste que ele havia descoberto no teu trabalho o poder de vida que
cria os valores. Não entendeste que a sua reflexão sociológica pretendia. ser a
salvaguarda da tua sociedade contra o teu Estado.
Não entendes nada!
E mesmo com os teus fatores econômicos não vais longe. Outro grande homem matou-se
a trabalhar para provar-te que terás de melhorar as tuas condições econômicas para que
a tua vida tenha sentido e gosto; que indivíduos com fome jamais farão progredir a
cultura; que todas as condições de vida terão de ter lugar aqui e agora, sem exceção, que
terás de emancipar-te, tu e a tua sociedade, de todas as formas de tirania. Este outro
grande homem apenas cometeu um erro ao tentar esclarecer-te: acreditou deveras na tua
capacidade de emancipação. Acreditou que uma vez conquistada a tua liberdade serias
capaz de a preservar. E cometeu ainda outro erro: consentir que tu, proletário, te
tornasses “ditador”.
E sabes o que tu fizeste, Zé Ninguém, do manancial de sabedoria e criação que te legou
este homem? Apenas guardaste no ouvido uma palavra: ditadura. De tudo o que te doara
um grande espírito e um grande coração apenas uma palavra restou: ditadura! Tudo o
mais deitaste fora, a liberdade, a clareza e a verdade, a solução dos problemas da
servidão econômica, a metodologia da planificação do futuro - tudo pela borda fora! E
apenas a escolha infeliz, embora bem intencionada, de só uma palavra, te caiu em graça:
ditadura!
Sobre esta pequena negligência de um grande homem construíste todo um sistema
gigantesco de mentiras, perseguição, tortura, deportações, enforcamentos, polícia
secreta, espionagem e denúncia, uniformes, marechais e medalhas - enquanto deitavas
fora tudo o mais. Começas a perceber como funcionas, Zé Ninguém? Ainda não? Ora
tentemos novamente: As. “condições econômicas” do teu bem-estar na vida e no amor,
confundiste-as com “mecanização”; a emancipação dos homens, com “grandeza do
Estado”; o levantamento das massas, com o desfilar da artilharia; a libertação do amor,
com a violação de todas as mulheres a que pudeste deitar a mão ao chegar à Alemanha;
a eliminação da pobreza, com a erradicação dos pobres, dos fracos e dos desadaptados;
a assistência à infância, com a “formação de patriotas”; o controle da natalidade, com
medalhas às “mães de dez filhos”. Não tinhas já sofrido bastante, com esta tua idéia da
“mãe de dez filhos”?
Mas também noutros países o infeliz vocábulo “ditadura” te ficou no ouvido. Aí, vestiste-o
de uniformes resplandecentes e geraste no teu próprio seio o funcionariozinho místico,
sádico e impotente que te levou ao Terceiro Reich e enterrou sessenta milhões da tua
espécie enquanto ias gritando “Viva! Viva!”.
És assim, Zé Ninguém. Mas ninguém se atreve a dizer como és. Porque se tem medo de
ti, Zé Ninguém, e se quer que te mantenhas pequeno.
Tu devoras a tua felicidade. Nunca foste capaz de a gozar com plenitude. É por isso que a
devoras avidamente, sem sequer assumires a responsabilidade de a assegurares. Nunca
te foi permitido aprenderes a cuidar das tuas alegrias, a alimentar. a felicidade, como o
jardineiro o faz com as suas flores, como o homem da terra com as suas colheitas.
Os grandes cientistas, poetas e homens de sabedoria sempre fugiram da tua companhia,
pois desejaram preservar a alegria que lhes fosse possível. É fácil devorar a felicidade na
tua companhia, Zé Ninguém, mas é difícil protegê-la.
Não sabes do que estou a falar, Zé Ninguém? Eu explico-te: um inovador trabalha durante
dez, vinte ou trinta anos sem desfalecimentos na sua ciência, ou máquina, ou concepção
da sociedade. Tudo o que é novo carrega-o consigo como pesado fardo. Terá de sofrer a,
tua estupidez, a mesquinhez das tuas idéias e valores, terá de entendê-las e analisá-las
e, finalmente, terá de substituí-las pelos seus atos. Não o ajudarás em nada, Zé Ninguém.
Pelo contrário. Não virás dizer-lhe, “ouve, camarada, bem vejo como trabalhas”.E
trabalhas na minha máquina, para os meus filhos, a minha mulher, os meus amigos, a
minha casa, os meus campos, para que as coisas sejam outras. Sofri durante muito
tempo por isto ou por aquilo, mas nada podia fazer. “Posso agora ajudar-te a ajudar-me?”
Não, Zé Ninguém, nunca ajudas quem te ajuda. Jogas às cartas ou esfalfas-te a berrar
em espetáculos de competição ou vais marrando no teu trabalho no escritório ou na mina.
Mas nunca ajudas quem te ajuda. E sabes porquê? Porque todo aquele que é inovador
nada mais tem a oferecer-te de início do que idéias. Nem lucro, nem um salário mais alto,
nem bônus de Natal, nenhum modo de vida mais fácil. Tudo o que pode oferecer-te são
preocupações, e isso já tu tens que chegue.
Mas se apenas te tivesses mantido afastado, sem oferecer ou dar ajuda, nenhum
inovador iria queixar-se de ti. Bem vistas as coisas, não é “para ti” que pensa, descobre,
inventa. Fá-lo porque o seu funcionamento vital o impele a que assim seja. Quanto ao
cuidado e à compaixão por ti, deixa-os a cargo dos lideres partidários e dos homens do
clero. O que realmente lhe seria agradável seria o ver-te capaz de cuidar de ti próprio. Só
que tu não te contentas com manteres-te à margem, sem oferecer ajuda. Quando o
inovador, após longa e árdua tarefa, finalmente entende os motivos por que és incapaz de
dar satisfação no amor à tua mulher, tu vens e chamas-lhe obsceno. Nem fazes a menor
idéia de que lhe chamas isso porque es permanentemente forçado a esconder a
obscenidade em ti próprio e que por isso és incapaz de amar. Ou então, quando o
investigador descobre por que motivo o cancro atinge em massa as populações e tu és,
por exemplo, Professor de Patologia do Cancro com um sólido salário, dizes que o
investigador é uma fraude, ou que não entende nada sobre os germes do ai-que gasta
verbas demasiado elevadas; ou perguntas se é judeu ou estrangeiro; ou insistes que tens
direito a examiná-lo a fim de saberes se é suficientemente qualificado para trabalhar no
teu problema do cancro, o problema que não consegues resolver; ou preferes ver
condenados muitos doentes cancerosos a ter de admitir que foi ele quem descobriu a
possibilidade de salvar os teus doentes. Para ti, a tua dignidade catedrática, a tua conta
no banco, ou as tuas ligações com a indústria do rádio, significam mais que a verdade e o
conhecimento. E é por isso que és medíocre e desgraçado, Zé Ninguém.
Isto é, não só não dás apoio como perturbas maliciosamente o trabalho que te é
destinado ou feito em teu beneficio. Entendes agora porque te é negada a alegria?
Porque é algo que se trabalha e se ganha. Mas tu apenas sabes devorar a alegria, que
por isso te escapa. Com o decorrer do tempo, o inovador consegue finalmente convencer
um grande número de pessoas de que a sua descoberta tem valor imediato, ou seja, de
que com ela é possível o tratamento de determinadas doenças, ou levantar pesos, ou
fazer explodir rochedos, ou penetrar o interior da matéria por meio de radiações. Acreditas
depois de ler nos jornais, porque o que vês, não. Respeitas os que te desprezam e
desprezas-te a ti próprio, por isso te não é possível crer por teus próprios meios. Mas se a
descoberta surge nos jornais, embarcas a correr. Passas a considerar o inovador um
“gênio”, embora seja o mesmo homem a quem ontem chamavas fraudulento, obsceno,
charlatão ou ameaça à moral pública. Agora é “gênio”. Tu não sabes o que é “gênio”, tal
como não sabes o que é “judeu”, ou “verdade” ou “felicidade”. Eu digo-te, Zé Ninguém, tal
como Jack London te disse no seu livro Martin Eden. Sei que o leste milhares de vezes,
mas sem o entender: “Gênio” é a marca registrada do produto quando passa a estar à
venda. Se realmente o inovador (que ontem era obsceno ou doido) é um gênio, passa a
ser possível devorar a felicidade que te oferece. Porque há agora uma multidão de Zés
Ninguéns que grita em uníssono contigo: “Gênio! Gênio!” E a multidão vem em cachos
comer o produto à mão que lho estende. E se és médico, terás muito mais doentes, aos
quais poderás oferecer melhores condições de tratamento e ganharás muito dinheiro. “E
então? - dizes tu, Zé Ninguém –, que mal tem isso?” Nenhum, está certo que se ganhe
dinheiro com um trabalho honesto e competente. O que não está certo é nada dar à
descoberta em si, não a desenvolver, explorá-la apenas. Que é exatamente o que fazes,
sem dar um passo para o seu desenvolvimento. Tomas posse do que te dão
mecanicamente, com avidez, estupidamente, sem lhe anteveres as possibilidades ou as
limitações. Quanto às Possibilidades, nem poderias entendê-las, e tentas ultrapassar as
limitações recusando-te a reconhecê-las. Se és médico ou bacteriologista, como sabes
que a cólera ou a febre tifóide são doenças infecciosas, passas a vida à procura do
microrganismo causador do cancro, perdendo assim estupidamente décadas de
investigação. Outro grande homem provou-te outrora que as máquinas obedecem a
certas leis; de modo que constróis máquinas de morte e que consideras a vida como mais
uma máquina. O teu erro nesta matéria não foi de três décadas, mas de três séculos;
conceitos perfeitamente errôneos passaram a fazer parte integrante da atividade científica
de centenas de milhares de investigadores; a própria vida se encontra ameaçada, porque
a partir deste momento - em nome da tua dignidade, ou da tua cátedra, ou religião, ou
conta no banco, ou rigidez de caráter – perseguiste, massacraste e tentaste por todas as
formas lesar todos aqueles que empreenderam prosseguir no estudo da função vital.
Sem dúvida que te agrada possuir “gênios” e render-lhes a devida homenagem. Mas
queres um gênio bom, um homem de moderação e decoro, sem fantasia, isto é, um gênio
comedido e adaptado, não um gênio rebelde e livre, capaz de quebrar as tuas barreiras e
limitações. Queres o gênio limitado, tratável, uma máscara que possas passear sem
medo e em triunfo pelas ruas das tuas cidades.
És assim, Zé Ninguém. Bom na acumulação e no dispêndio, mas incapaz de criar. E é por
isso que és o que és, toda a vida fechado num escritório solitário ou agarrado ao
estirador, preso no colete-de-forças conjugal, ou professor das crianças que odeias.
Incapaz de progredir ou de gerar algo de novo, porque és capaz de servir-te do que
outros te oferecem em bandeja de prata.
Não entendes porque é assim, porque não pode ser doutra maneira? Eu digo-te, Zé
Ninguém, porque eu aprendi a ver-te como o animal rígido que me trazia no seu vazio, na
sua impotência, na sua doença mental. Só sabes sorver e apanhar, não sabes criar ou
dar, porque a atitude básica do teu corpo é a retenção e o despeito; porque entras em
pânico de cada vez que sentes os impulsos primordiais do AMOR e da DÁDIVA. É, por
isso que tens medo de dar. A tua permanente avidez só tem um significado: és
continuamente forçado a encher-te de dinheiro, de satisfações, de conhecimento, porque
te sentes vazio, esfomeado, infeliz, ignorante e temendo a sabedoria. É, por isso que
foges da verdade, Zé Ninguém – ela poderia fazer-te amar. Saberias então o que tento,
inadequadamente, dizer-te. E isso tu não queres, Zé Ninguém. Só queres que te deixem
em paz como consumidor e patriota.
“Ouçam isto! Este tipo nega o patriotismo, a base do Estado e do seu órgão fundamental,
a família! Isto não pode ficar assim!”
É assim que gritas “aqui-d'el-rei” quando alguém te denuncia a prisão de ventre mental.
Não queres nem ouvir nem saber, queres berrar “vivas”. Mas porque não me deixas dizerte
por que razão és incapaz de alegria? Vejo-te o susto nos olhos - sente-se até que
ponto o assunto te afeta profundamente. A “questão religiosa”, por exemplo. Afirmas
defender a “tolerância religiosa”; afirmas o teu direito à liberdade em matéria religiosa.
Perfeito. Mas queres mais: queres que a tua religião seja a única. És intolerante quanto às
outras. Ficas desesperado quando encontras alguém que, em vez de um Deus pessoal,
adora a natureza e procura entendê-la. Preferes que os cônjuges em vias de separação
se processem judicialmente, se acusem de imoralidade ou de brutalidade quando já não
lhes é possível viver juntos. Tu, que és descendente de homens rebeldes, és incapaz de
reconhecer o divórcio por mútuo consentimento - porque a tua própria obscenidade te
assusta. Queres a verdade num espelho, algures onde não possas chegar-lhe. O teu
“chauvinismo” decorre naturalmente da tua rigidez, da tua prisão de ventre mental, Zé
Ninguém. E não o digo com sarcasmo, porque te estimo, embora seja teu hábito esmagar
os que te estimam e dizem a verdade.
Repara, por exemplo, nos teus patriotas: não andam, marcham. Nem odeiam o inimigo –
o que acontece é que têm “inimigos hereditários” que de dez em dez anos passam à
categoria de amigos hereditários, e vice-versa. Não cantam – berram hinos marciais. Não
fazem amor – “comem-nas” e têm um curriculum de “fudidas”, por noite. Estas são as
verdades que tenho para dizer-te, Zé Ninguém, e contra as quais nada tens a opor,
exceto o assassínio, o mesmo que perpetraste contra tantos outros homens que te
estimavam: Jesus, Rathenau, Karl Liebknecht, Lincoln e muitos outros. Na Alemanha
costumavas chamar-lhe “depuração”. A longo prazo foste tu que foste “depurado” aos
milhões – mas continuas a ser um patriota.
Desejas amar e ser amado, amas o teu trabalho e é dele que vives, e a base do teu
trabalho é o meu conhecimento e o de outros. O amor, o trabalho e o conhecimento não
têm pátria, não conhecem fronteiras nem uniformes. São internacionais, são o patrimônio
da humanidade. Só que tu preferes o teu patriotismo medíocre porque tens medo do amor
genuíno, do trabalho responsável, medo do conhecimento. E por isso exploras o amor, o
trabalho e o conhecimento dos outros, mas nunca poderás criar. Por isso usas a tua
alegria como um ladrão furtivo, por isso não consegues suportar sem azedume e inveja a
felicidade dos outros.
“Agarra que é ladrão! Não passa dum estrangeiro, dum imigrante. Eu não, eu sou alemão,
americano, dinamarquês, norueguês!”
Pára com isso, Zé Ninguém! Tu és e hás-de ser sempre o eterno imigrante e emigrante.
Vieste parar a este mundo por acidente e hás-de deixá-lo sem que ninguém dê por isso.
Berras porque tens medo. A pouco e pouco, o teu corpo devém rígido e seco. É por isso
que tens medo e chamas a polícia. Mas tão-pouco a tua polícia tem poder sobre a
verdade. Mesmo o teu polícia se me vem queixar da mulher e dos filhos doentes. Quando
se pavoneia de uniforme lá vai escondendo o homem; mas não de mim, que já o vi nu.
“O tipo tem registro criminal? Tem os papéis em ordem? Pagou os impostos? Passem-lhe
uma busca. O homem é uma ameaça ao Estado e à honra da Nação!”
Por acaso, Zé Ninguém, sempre foi possível identificar-me, sempre tive os papéis em
ordem e paguei os impostos. O que te rala não é o estado do Estado ou a honra da
Nação. Tens é medo que eu exponha em público o que de ti fui conhecendo no
consultório médico. É por isso que tentas inventar-me um crime político que me meta na
cadeia durante anos. Eu conheço-te, Zé Ninguém. Se por acaso és juiz de comarca estás
muito menos interessado em proteger a lei ou os cidadãos do que em fazer vista com o
“caso” que te há-de levar a juiz de primeira instância. Ao Sócrates aconteceu-lhe o
mesmo. Mas a história nunca te ensinou o que quer que fosse. Assassinaste Sócrates, e
como não sabes o que fizeste, continuas na lama. Acusaste-o de perverter o teu código
moral. Mas ele continua a fazê-lo, Zé Ninguém – assassinaste-lhe o corpo, não o espírito.
E continuas a assassinar, em nome da “ordem”, mas covardemente, pelas costas. És
incapaz de me encarar quando me acusas de imoralidade. -Porque sabes bem qual de
nós é imoral, obsceno e pornográfico. Alguém afirmou uma vez que de toda a gente que
conhecia só havia um que não contava piadas porcas – era eu. Quanto a ti, quer sejas juiz
ou chefe da policia, conheço -as tuas piadas porcas e sei de onde vêm, de modo que é
melhor não abrires a boca. Talvez consigas provar que paguei cem dólares a menos de
impostos, ou que atravessei a fronteira entre dois estados com uma mulher, ou que parei
para falar com uma criança na rua. Mas é na -tua boca que qualquer destes fatos assume
o caráter equivoco e reles de um ato vil. E,como não sabes mais nada, pensas que eu
sou da tua espécie. Não, Zé Ninguém, não sou, e nunca fui como tu nessas matérias. E
tanto me faz que acredites ou não, embora tu detenhas a força e eu o conhecimento – são
funções diversas.
É assim que dás cabo da tua existência: em 1924 sugeri um estudo científico da natureza
humana. Reagiste entusiasticamente.
Em 1928, o nosso trabalho apresentava os primeiros resultados tangíveis – continuaste
entusiástico e eu tive honras de spiritus rector.
Em 1933, os resultados em questão deveriam ser publicados pela tua casa editora. Hitler
acabara de subir ao Poder. Eu acabara de entender que a subida de Hitler ao Poder
estava ligada à tua rigidez de atitudes. Recusaste-te então a publicar o livro que te
demonstrava como havias produzido Hitler.
O livro, no entanto, foi publicado e continuaste entusiástico. Só que tentaste abafá-lo no
silêncio, pois que o teu “Presidente” se tinha declarado publicamente contra ele.
Tinha, aliás, também aconselhado às mães a que suprimissem a excitação genital das
crianças sustendo-lhes a respiração.
Durante doze anos mantiveste-te silencioso sobre o livro que tinha suscitado o teu
entusiasmo. Em 1946 foi reeditado e aclamaste-o então como “um clássico”. Ainda hoje
parece entusiasmar-te.
Passaram-se, entretanto, vinte e dois longos anos, carregados de ansiedades e trabalhos,
desde que comecei a transmitir-te que mais importante que o tratamento individual é a
prevenção da perturbação mental. Durante vinte e dois anos te afirmei que as pessoas
caem nesta ou naquela forma frenética de existir ou se enterram em lamentações estéreis
porque lhes são impossíveis o amor e o prazer. Porque os seus corpos, ao inverso do que
acontece nas outras espécies animais, não mais possuem a capacidade de contrair-se e
expandir-se no ato do amor.
Vinte e dois anos depois de eu o ter afirmado, di-lo tu agora aos teus amigos:
mais.importa a prevenção das perturbações mentais do que o seu tratamento individual. E
de novo ages como o tens feito há milhares de anos: falas dos grandes objetivos sem te
preocupares com a forma de os alcançar. Esqueces a dimensão afetiva da vida das
massas. Preconizas a “prevenção das perturbações mentais”, aspiração inócua e muito
digna. Mas julgas ser possível fazê-lo ignorando a prevalência generalizada da frustração
no domínio sexual. Nem sequer consentes que se fale nisso. E assim, também como
médico não tens saída.
Que pensarias tu de um técnico que revelaste a técnica de vôo e guardasse como
secretas as características do motor e da hélice? É assim que funcionas como técnico de
psicoterapia – covardemente. Aceitas o que das minhas Idéias te convém, mas rejeitaslhe
os espinhos. Vais-me chamando, cheio de subentendidos pornográficos, “o profeta do
bom orgasmo”.Ouve, psiquiatrazinho, nunca te impressionaram as queixas de mulheres
recém-casadas, com o corpo violado por maridos impotentes? Ou a angústia dos
adolescentes que sofrem de amor insaciado? Será que tens em maior conta a tua
segurança que a dos teus doentes? Até quando irás preferir a tua dignidade medíocre à
tua responsabilidade terapêutica? Durante quanto tempo mais serás capaz de
escamotear o fato de que as tuas táticas sacrificam milhões de vidas?
A segurança é-te mais importante que a verdade. A primeira vez que ouviste falar do
orgone, descoberta minha, não foste capaz de te interrogar quanto à sua utilidade, às
suas possibilidades de aplicação terapêutica, mas sim se eu possuía ou não
documentação que me permitisse praticar a medicina no estado do Maine. Nem entendes
que as tuas exigências burocráticas, se pouco ou nada perturbam o meu trabalho, ainda
menos o impedem. Será que nem sequer tens consciência do meu prestígio como
investigador, da ligação do meu nome à descoberta da peste emocional e da energia vital
- que ninguém menos qualificado que eu poderá examinar-me?
Vejamos quanto à tua avidez de liberdade. Nunca ninguém te perguntou porque sempre
te foi impossível alcançá-la ou por que razão, se alguma vez o conseguiste,
imediatamente a depositaste nas mãos de novos amos.
“Ouçam isto! Este monstro atreve-se a duvidar do levantamento revolucionário dos
proletários de todo o mundo, atreve-se a duvidar da democracia! Abaixo a contrarevolução!
Fora com ele!”
Não te excites, chefezinho de todos os democratas e de todos os proletários do mundo. É,
minha firme convicção de que a tua futura liberdade real depende mais da tua resposta a
esta pergunta do que de milhares de resoluções dos teus congressos de Partido.
“Fora com ele! Corrompe a honra da nação e a vanguarda do proletariado revolucionário!
Fora! Rua! Encostem-no à parede!”
Mas não são os teus “vivas” e os teus “morras” que te irão aproximar dos teus objetivos,
Zé Ninguém. Sempre acreditaste que a tua liberdade se acha assegurada através da
perseguição dos opositores. Ao menos uma vez na vida encara-te de frente.
“Fora! Fora!”
Pára. um minuto, Zé Ninguém. Não é minha intenção menosprezar-te, mas apenas
provar-te por que razão até agora te não foi possível alcançar a liberdade ou garanti-la.
Será que o tema não te interessa?
“Fora! Fora!”
Posso garantir-te que vou ser breve: tentarei, dizer-te como se comporta o Zé Ninguém
cada vez que se acha numa situação de liberdade. Suponhamos que és estudante num
Instituto que, entre outros, defende os, valores da saúde sexual das crianças e dos
adolescentes. A “extraordinária idéia” entusiasma-te, de modo que desejas participar na
luta. Vou contar-te o que aconteceu na minha escola: os meus alunos estavam sentados
ao microscópio a observar microrganismos. Tu estavas sentado no acumulador de
orgone, nu. Chamei-te para que participasses da observação. Foi então que decidiste sair
tal como estavas do acumulador, exibindo-te diante das raparigas e das mulheres.
Admoestei-te imediatamente, mas não pareceste entender porque o fazia. Parecia-me
inverossímil que o não entendesses. Mais tarde, em longa conversa, admitiste que na
base do teu comportamento estava exatamente a imagem que tinhas dum Instituto que
defendia a liberdade sexual. Tomaste então consciência do fato de que tinhas o maior
desprezo pelo Instituto e pela sua idéia de base e que havia sido por isso que te tinhas
comportado indecentemente.
Um outro exemplo que demonstra a forma como destróis a tua liberdade: tu sabes e eu
sei e todos, sabemos que vives num estado de permanente frustração sexual; que
facilmente encaras com avidez qualquer membro do outro sexo; que as conversas que
tens com os amigos sobre temas sexuais se resumem ao repertório de anedotas
obscenas; que, em suma, a tua imaginação é, sobretudo, pornográfica. Uma noite ouvi-te
passar berrando com os teus amigos pela rua fora:
“Nós queremos mulheres! Nós queremos mulheres!”
Dado que o teu futuro faz parte das minhas preocupações, tentei criar instituições onde
pudesses compreender melhor a tua miséria e modificá-la. Tu e os teus amigos vieram,
em magotes a reuniões que organizei no âmbito dessas instituições. E sabes porque foi
assim, Zé Ninguém? Ao início cheguei a pensar que te movia um genuíno interesse, a
vontade de dares novo sentido à tua vida. Só mais tarde entendi o que realmente te
motivara. Pensavas que irias encontrar uma nova forma de bordel, onde seria fácil
encontrar uma rapariga sem gastar um tostão. E quando o entendi, destruí por minhas
próprias mãos as instituições que criara tentando ajudar-te. Não porque me pareça que
haja algo de errado no fato de poderes encontrar uma rapariga nessas reuniões, mas
porque a intenção com que vinhas a essas reuniões era vil. Por isso as destruí, por isso
mais uma vez ficaste onde estavas... Tens alguma coisa a dizer?
“O proletariado foi corrompido pela burguesia. Os líderes. do proletariado são quem
poderá solucionar o problema. Irão sanear os costumes com um punho de ferro – o
problema sexual do proletariado só assim poderá ser solucionado”.
Eu sei o que tu queres dizer, Zé Ninguém. Foi exatamente o que se passou na tua pátria
dos proletários: deixar que o problema sexual se resolvesse por si próprio. O resultado
viu-se em Berlim, com os soldados proletários violando mulheres a torto e a direito. Sabes
que foi assim. Os teus campeões da “honra revolucionária”, “os soldados do proletariado
do mundo” prometeram-te o suficiente para a vergonha te durar uns séculos. Dizes que
estas coisas “só acontecem na guerra”? Então conto-te uma outra história:
Um outro chefe, cheio de entusiasmo pela ditadura do proletariado, não o era menos
quanto à economia sexual. Veio ter comigo e disse-me: “Você é extraordinário. Karl Marx
mostrou-nos como é possível a liberdade econômica; você aponta-nos a via para a
liberdade sexual; foi capaz de nos dizer: Fodam o mais que puderem”. Na tua mente tudo
se perverte. Aquilo a que eu chamo um ato de amor, é, na tua vida, um ato pornográfico.
E nem sequer sabes do que estou a falar, Zé Ninguém. E é por isso que sempre retornas
ao lameiro. Se por acaso tu, Maria Ninguém, dás em professora sem que possuas
quaisquer qualificações especiais para tal e apenas porque nunca tiveste filhos, os efeitos
da tua ação são desastrosos. O teu trabalho deveria ser comunicar com as crianças e
educá-las. Qualquer educação válida engloba um conhecimento da sexualidade infantil.
Mas para poder entender a sexualidade infantil é necessário conhecer por experiência
própria o que é uma relação de amor. E tu és obesa, desajeitada e sem qualquer atrativo,
o que necessariamente te leva a odiar qualquer corpo humano dotado de graça e
vivacidade. Não é evidentemente por seres gorda e pouco atraente que te censuro,.nem
por jamais teres conhecido o amor de um homem (nenhum que fosse minimamente
saudável to teria oferecido), nem sequer pelo fato de não entenderes o amor das
crianças. Mas porque tens na conta de virtude a tua total ausência de atrativos e a tua
incapacidade de amar e porque esmagas com o teu ódio a afetividade das crianças a teu
cargo, ainda que exerças as tuas funções numa “escola progressista”. O que é um crime
e te transforma numa monstruosidade, mulherzinha. A tua influência perniciosa consiste
em alienares a afeição que crianças saudáveis sentem por pais saudáveis; em
considerares o saudável afeto de uma criança como um sintoma patológico. Em
estenderes a toda a tua influência o formato de barril do teu corpo: pensas como um
barril, e educas como um barril; em não saberes retirar-te para um lugar modesto e
tentares impor aos outros a tua presença opaca, a tua falsidade e o teu ódio amargo sob
a máscara do teu falso sorriso.
E tu, Zé Ninguém, porque consentes que sejam estas mulheres a educar os teus filhos
ainda saudáveis, porque lhes permites, destilar a amargura no espírito, és o que és, vives
como vives, pensas como pensas e o mundo é como é. Vieste procurar-me para tentar
aprender aquilo que havia sido o fruto do meu trabalho, aquilo porque me bati e bato. Sem
mim terias sido um médico obscuro de clínica geral em qualquer aldeia ou cidade de
província. Engrandeci-te através do acesso ao meu conhecimento e às técnicas
terapêuticas. Ensinei-te a detectar o modo como é suprimida a liberdade, como a servidão
é imposta e mantida. Foi então que assumiste uma posição de responsabilidade como
expositor do meu trabalho num outro país - em total liberdade no sentido pleno da palavra
Confiei na tua honestidade. Mas tu mantinhas-te dependente de mim, pois por ti próprio
pouco ou nada eras capaz de criar. Precisavas de mim como base de conhecimento,
como fonte de autoconfiança, perspectiva do futuro e, sobretudo, desenvolvimento. Tudo
isto eu te ofereci com alegria, Zé Ninguém, sem nada pedir em troca. Foi então que
declaraste que eu te havia “violado”. Tornaste-te agressivo, na esperança de te tornares
livre. Confundir porém a imprudência com a liberdade sempre foi a marca do escravo. Na
tua tentativa de liberdade deixaste de me enviar relatórios do teu trabalho. Sentias-te livre
– liberto da cooperação e da responsabilidade. E é por isso, Zé Ninguém, que és o que
és, e é por isso que o mundo é o que é.
Fazes uma idéia, Zé Ninguém, de como se sentiria uma águia que estivesse a chocar
ovos de galinha? De começo a águia julga que está a chocar apenas pequenas águias
que virão a tomar volume idêntico ao seu. Mas o que acaba por sair são sempre frangos.
Desesperada, a águia espera que os frangos ainda possam vir a ser águias. O tempo
passa e o que finalmente surge são galinhas cacarejantes. Então, nasce na águia a
tentação de comer frangos e galinhas de uma assentada, e apenas uma pequena réstia
de esperança a impede de o fazer. A esperança de que um dia surja do bando de frangos
uma pequena águia capaz de sondar a distância a partir dos píncaros, de detectar novos
mundos, novas formas. de pensar e viver. E só esta esperança impede a triste e solitária
águia de devorar os frangos e galinhas, que nem sequer se dão conta de que uma águia
os sustenta e acolhe, que vivem num íngreme rochedo, bem acima dos vales perdidos.
Nunca olharam para a distância como a águia solitária. Limitaram-se a engorgitar dia após
dia o que a águia lhes trazia de alimento. Deixaram-se aquecer debaixo das suas asas
poderosas sempre que chovia ou trovejava, enquanto ela suportava a tempestade sem
qualquer proteção. Ou chegaram a atirar-lhe pedras pelas costas, nos piores dias.
Quando deu por isso, o primeiro impulso foi desfazê-los, mas, pensando melhor, encheuse
de compaixão. Esperava ainda que algum dia haveria de surgir dos muitos frangos
míopes e cacarejantes uma pequena águia capaz de a acompanhar.
Até hoje, a águia ainda não desistiu. De modo que ,continua a criar frangos. Tu não
queres ser águia, Zé Ninguém, e é por isso que és comido pelos abutres. Tens medo das
águias, e é por isso que vives em grandes bandos e és comido em grandes bandos.
Porque algumas das tuas galinhas chocaram os ovos de abutre e os abutres foram então
os teus chefes contra as águias, as águias que desejariam ter-te levado mais longe, mais
alto. Abutres que te ensinaram a comer cadáveres e a contentar-te com alguns grãos de
trigo, a berrar: “Viva, Viva, Abutre!”. E apesar das tuas privações e da tua condenação aos
milhares, continuas a ter medo das águias que protegem os teus frangos.
Construíste sobre a areia a tua casa, a tua vida, a tua cultura e a tua civilização, a tua
ciência e técnica, o teu amor e a tua educação de crianças. Não o sabes, Zé Ninguém,
nem queres sabê-lo, e abates o grande homem que intente dizer-te. Na tua agonia, são
sempre as mesmas questões que te afligem:
“O meu filho é obstinado, destrutivo, tem pesadelos de noite, não consegue concentrar-se
no trabalho escolar, sofre de prisão de ventre, tem má cor, é uma criança cruel. Que heide
fazer? Ajudem-me!”.
Ou: “A minha, mulher é frigida, incapaz de afeto. Agride-me, tem ataques histéricos, anda
por aí com vários homens. Que hei-de fazer? Diga-me que hei-de fazer.”
Ou: “Outra guerra, depois de termos lutado numa que deveria pôr fim a todas as outras.
Que havemos de fazer ?”
Ou: “A civilização de que tanto nos orgulhamos está a decair num processo de inflação.
Há milhões de pessoas com fome, gente que mata, rouba, destrói e abandona toda a
esperança. Que havemos de fazer?”
“Que havemos de fazer?” Eis a tua interrogação milenar.
O destino de toda a aquisição cultural importante, firmada na prevalência da verdade
sobre a segurança, é o de ser avidamente devorada e em seguida expelida pelo homem
comum. Muitos foram os homens corajosos e solitários que te disseram o que deverias
fazer. E sempre distorceste o que te era comunicado, sempre os conduziste à amargura e
à destruição. Sempre lhes pegaste na palavra pela ponta errada, preferindo como regra
de vida a pequena margem de erro à grande verdade; no cristianismo, na formação
socialista, no conceito de soberania popular, em tudo o que tocaste, Zé Ninguém.
Perguntas porque é assim, porque és assim? Não creio que ponhas a questão a sério e
vais odiar-me quando ouvires a verdade: construíste a tua casa sobre a areia e agiste
assim ao longo dos séculos porque és incapaz de respeitar a vida, porque até o amor dos
teus filhos destróis antes que tenha tido tempo de desabrochar, porque não suportas
nenhuma forma de espontaneidade viva, nenhum movimento livre e natural. E porque não
podes tolerá-lo, entras em pânico e perguntas: “Quem é o Sr. Silva e o que é que irá dizer
o Sr. Pereira?” És covarde na tua atividade intelectual, porque a atividade intelectual
fecunda acompanha a vitalidade e o movimento do corpo, e tu temes o teu corpo. Muitos
foram os grandes homens que te disseram: escuta a tua voz interior – segue a verdade do
que sentes – venera o teu amor. Mas tu não deste atenção a tais palavras. Foram
palavras perdidas no deserto, apelos mortos no vazio do teu nada, Zé Ninguém.
Foi-te oferecida a escolha entre a exigência de superação do Übermensch de Nietzsche e
a degradação do Üntermensch em Hitler. Berrando “Viva”, escolheste o Üntermensch.
Foi-te dado a escolher entre a constituição genuinamente democrática de Lenin e a
ditadura de Stalin escolheste a ditadura de Stalin.
Tiveste a escolha entre a elucidação de Freud da origem sexual das tuas perturbações
emocionais e a sua teoria da adaptação cultural. Escolheste a sua filosofia cultural, que
não te trazia qualquer apoio, e esqueceste a teoria sexual. Pudeste escolher entre a
magnificente simplicidade de Cristo e Paulo, com o seu celibato para os padres e o seu
casamento indissolúvel. Escolheste o celibato e o casamento indissolúvel esquecendo a
mulher simples que pariu seu filho, Jesus, apenas por amor. Tiveste a escolha entre a
concepção de Marx da produtividade do teu poder de trabalho como única fonte do valor
dos produtos e a concepção de Estado. Esqueceste a tua força de trabalho e escolheste a
idéia de Estado. Durante a Revolução Francesa tinhas a escolher entre o cruel
Robespierre e o grande Danton. Escolheste a crueldade e enclausuraste a grandeza de
alma e a bondade. Na Alemanha, tinhas a escolha entre Göering e Himmler, por um lado,
e Liebknecht, Landau e Mühsam, no pólo oposto. Deste a Himmler o cargo de chefe de
polícia e assassinaste os teus verdadeiros amigos. Tinhas a escolher entre Julius
Streicher e Walter Rathenau – assassinaste Rathenau.
Tinhas a escolher entre Lodge e Wilson - assassinaste Wilson. Poderias ter escolhido
entre a crueldade da Inquisição e a verdade de Galileu. Escolheste torturar Galileu, de
cujas descobertas ainda hoje beneficias, submetendo-o a toda a espécie de humilhações,
e, em pleno século XX, continuas a utilizar os mesmos métodos da Inquisição.
Tens a escolher entre a compreensão da doença mental e as terapêuticas de choque –
escolhes estas, de modo a não teres de enfrentar as dimensões monstruosas da tua
própria miséria, preferindo a cegueira onde só de olhos bem abertos te poderias salvar.
Tens de escolher entre a ignorância da natureza da célula cancerosa e o que me foi
possível desvendar dos seus segredos, a salvação possível de milhões de vidas
humanas. Mas continuas a repetir as mesmas asneiras acerca do cancro em jornais e
revistas, mantendo o silêncio sobre o que poderia salvar o teu filho, a tua mulher ou a tua
mãe. Morres de fome, mas defendes dos maometanos a sacralidade das tuas vacas, Zé
Ninguém indiano. Andas esfarrapado, Zé Ninguém de Itália e Eslavo de Trieste, mas o
que mais parece ralar-te é saber se Trieste é “italiano” ou “eslavo”. Sempre pensei que
Trieste fosse um porto internacional. Enforcas os nazis depois de terem assassinado
milhões de pessoas. Onde é que estavas antes? Dezenas de cadáveres não bastam para
fazer-te pensar, apenas milhões? Cada um destes atos mesquinhos dá sinal da tua
monstruosidade de animal humano. Dizes: “Mas porque diabo levas tudo isto tão a sério?
Sentes-te responsável por todo o mal?” Esta é a questão que te condena. Se tu, Zé
Ninguém, saldo das fileiras de milhões como tu, tomasses a teu cargo apenas uma
pequena parcela da tua responsabilidade, o mundo não seria o mesmo e todos os -
grandes que te estimam não seriam condenados à morte pela tua mesquinhez. É, porque
não assumes qualquer responsabilidade que a tua casa assenta sobre areia. O teto
abate-se sobre a tua cabeça, mas conservas a honra “proletária” ou “nacional”. O chão
esvai-se-te debaixo dos pés, mas continuas a berrar: “viva, grande chefe, viva a
Alemanha, a Rússia, o povo judeu!” Os teus filhos agonizam, mas continuas a preconizar
“a disciplina e a ordem” que lhes impões batendo. A tua mulher adoece, mas tu
consideras que construir a tua casa sobre um rochedo não passa de mais uma “fantasia
de judeu”.
Na tua enorme aflição vens ter comigo e dizes-me: “Meu Bom, Querido e Extraordinário
Doutor! Que hei-de fazer? A minha casa esboroa-se, o vento sopra-lhe dentro, a minha
mulher e os meus filhos estão doentes e eu também. Que hei-de fazer?” A resposta é:
constrói a tua casa sobre um rochedo. Rochedo que és tu próprio, a tua própria natureza
destorcida, o amor físico dos teus filhos, a esperança amorosa da tua mulher, o que
esperavas da vida aos 16 anos. Troca as tuas ilusões por um pouco de verdade. Manda
os teus políticos e diplomatas dar uma volta. Esquece o teu vizinho e escuta a tua própria
voz – o teu vizinho fica-te grato. Diz aos teus camaradas de trabalho que desejas
trabalhar em nome da vida, não ao serviço da morte. Não corras para assistir às
execuções dos teus carrascos e vitimas, cria as leis que protegem a vida humana e os
seus bens. Leis essas que serão os pilares de rocha viva onde assentares a tua casa.
Protege o amor das crianças de tenra idade dos ataques de adultos lascivos e frustrados.
Não aceites a solteirona intriguista - expõe publicamente os seus malefícios ou manda-a
para o reformatório, em vez de lá abandonares adolescentes carecidos de afeto; se a tua
posição profissional é de direção. Não tentes ser mais explorador que quem tenta
explorar-te. Deita fora as tuas calças de fantasia e o teu chapéu alto e não peças
autorização oficial para amares a tua mulher. Cantata com gentes de outros países, pois
são teus semelhantes, no que tens de bom e de mau. Deixa, pois, que o teu filho cresça
como a natureza (ou “Deus”) o gerou. Não tentes melhorar a natureza, mas antes
entendê-la e protegê-la. Vai às bibliotecas em vez de ires assistir a espetáculos de
competição, viaja por outros países e. vez de ires a Coney Island. E, acima de tudo,
procura PENSAR CORRECTAMENTE, ouve a tua voz interior e o seu murmúrio brando.
Tens a vida nas tuas mãos. Não a entregues a outrem e muito menos aos chefes que
elegeres. SÊ TU PRÓPRIO. Muitos foram os grandes homens a propor-te.
“Ouçam este pequeno-burguês reacionário e individualista! O tipo desconhece a marcha
inexorável da história. 'Conhece-te a ti próprio' – diz ele. A asneira burguesa do costume!
O proletariado revolucionário mundial, conduzido pelo seu bem-amado chefe, pai de todos
os povos, de todos os Russos, de todos os Eslavos, libertará o povo. Abaixo os
individualistas e anarquistas!”
E vivam os Paizinhos de todos os povos, de todos os Eslavos, Zé Ninguém! Ouve bem
agora, que tenho algumas predições graves a fazer-te: estás de fato em vias de te
apropriares do mundo, o que te aterra. Durante séculos, irás assassinar os teus amigos e
saudar como teus senhores os chefes de todos os povos, de todos os Russos. Dia após
dia, semana após semana e década após década, louvarás senhor após senhor,
esquecendo os gemidos dos teus filhos, ignorando a agonia dos teus adolescentes, as
aspirações dos teus homens e mulheres, ou, se acaso os escutares, chamar-lhe-ás
individualismo burguês. Em lugar de protegeres a vida, irás derramando o sangue atrás
dos séculos, na crença de que apenas alcançarás a liberdade com o auxílio de carrascos
– de novo e de novo enterrado na lama por tuas próprias mãos. Continuarás através dos
séculos a seguir embusteiros e energúmenos, cego e surdo ao apelo da VIDA, A TUA
PRÓPRIA VIDA. Porque tu temes a vida, Zé Ninguém, e a destróis na crença de que o
fazes em nome do “socialismo”, ou do “Estado”, ou da “honra nacional”, ou da “glória de
Deus”. Há algo, no entanto, que não sabes ou não queres saber: que és tu que geras a
tua própria miséria, hora após hora, dia após dia; que não entendes os teus filhos e que tu
próprio lhes partes a espinha antes de terem -sequer uma oportunidade de desenvolverse;
que devoras o amor; que és avaro e ávido de poder – que mantém o cão preso para te
sentires “dono”. Caminharás errante através dos séculos e estarás condenado à mesma
morte em massa dos teus iguais no meio da miséria social generalizada; até que do
horror da tua existência possa surgir-te um escasso núcleo de lucidez. Até que aprendas
a buscar o teu verdadeiro amigo no homem de trabalho, de amor e de sabedoria, até que
aprendas a entendê-lo e a respeitá-lo. Entenderás então que mais importa para a
verdadeira vida uma biblioteca que um desafio desportivo; o deambular pelo campo em
meditação do que o exibir-se onde quer que seja; o poder de sarar do que o de morte; a
saudável estima por si próprio do que a consciência nacional, e a humildade bem mais
que a exaltação patriótica ou qualquer outra.
Pensas que os fins justificam os meios, ainda que estes sejam vis. Enganas-te: o fim é a
trajetória com que o alcanças. Cada passo de hoje é a tua vida de amanhã. Nenhum
objetivo verdadeiramente grande poderá ser alcançado por meios vis – tens bem a prova
de que assim é em todas as revoluções sociais. A vileza ou a desumanidade duma dada
trajetória torna-te vil e desumano, e o fim inatingível.
“Como poderei então servir os objetivos do amor cristão, do socialismo, da Constituição
americana?”
O teu amor cristão, o teu socialismo, a tua Constituição americana assentam sobre a tua
vida quotidiana, sobre o que pensas no teu dia-a-dia, sobre o modo como fazes amor com
a tua companheira, sobre a tua atitude face ao trabalho como TUA RESPONSABILIDADE
SOCIAL, sobre a forma como evitas ser o supressor da tua própria vida. Mas és tu, Zé
Ninguém, que abusas das liberdades que te são concedidas pela Constituição e que
assim a destróis, em vez de tentares consolidá-la na tua vida quotidiana. Assisti à forma
com tu, refugiado alemão, abusaste da hospitalidade sueca. Eras nesse tempo o futuro
chefe de todos os povos suprimidos da terra. Lembras-te do costume sueco do
smörgasbord? Uma mesa cheia de pratos e doces diversos que cada um pode escolher
como lhe aprouver. Este costume parecia-te novo e estranho; parecia-te impossível uma
tal confiança na honestidade alheia. Disseste-me então, sem te dares conta da
perversidade da tua satisfação, que não tinhas comido durante todo o dia de modo a
poderes empanzinar-te de borla à noite. “Passei fome quando era criança” – disseste. Eu
sei, Zé Ninguém, porque te vi passar fome e sei o que é a fome. Mas desconheces que é
assim, roubando smörgasbord, que perpetuas a fome dos teus filhos, tu, futuro salvador
de todos os famintos. Há coisas que se não devem fazer, tais como roubar as colheres de
prata, ou a mulher, ou o smörgasbord de uma casa que'te oferece hospitalidade. Depois
da catástrofe. alemã, encontrei-te meio morto de fome num parque. Disseste-me que o
“Auxílio Vermelho” do teu partido se tinha recusado a ajudar-te, porque tendo perdido o
teu cartão de identidade não podias provar que eras membro inscrito. Os teus chefes de
todos os famintos distinguem a fome segundo a cor de quem a sofre. Nós reconhecemos
apenas a fome onde a encontramos. És assim nas pequenas causas. Vejamos nas
grandes: tomaste a grande decisão de abolir a exploração da era capitalista e o
menosprezo da vida humana, de fazer reconhecer os teus direitos, pois que há cem anos
a exploração, o desprezo pela vida humana e a ingratidão eram a regra generalizada.
Mas então havia respeito pelos grandes feitos e lealdade para com os que geravam
grandes, coisas, havia o reconhecimento dos talentos e dos dotes. E o que tens agora, Zé
Ninguém?
Por onde quer que hajas entronizado os teus pequenos chefes, a exploração da tua força
é ainda mais grave que o era há cem anos, o desdém pela tua vida mais brutal, e
desapareceu todo e qualquer reconhecimento dos teus direitos. E nos países em que
estás em vias de os pôr no poleiro, todo o respeito pela criação tende a desaparecer e a
ser substituído pela apropriação abusiva dos frutos do trabalho árduo daqueles que te
estimam. Recusas-te a reconhecer uma aptidão, porque pensas que, se o fizeres, não
mais serás um americano livre, ou russo, ou chinês, recusas-te a respeitar e a reconhecer
o que quer que seja. O que tentaste destruir - floresce mais vigorosamente que nunca; e o
que tentaste salvaguardar e proteger, como, por exemplo, a tua própria vida, caminha
para a destruição. Passaste a considerar a lealdade como mero “sentimentalismo” ou
“hábito pequeno-burguês”, e o respeito pela criatividade como simples servilismo. Não
entendes que és servil quando deverias ser irreverente e ingrato sempre que deves
lealdade.
Na tua estupidez obstinada julgas possuir o reino da liberdade. Hás-de acordar do teu
pesadelo estendido de borco no chão. Porque roubas o que te dão e das o que te
roubam. Confundes o direito à liberdade de expressão e crítica com o comentário
irresponsável e a graça parva. Desejas criticar, mas não queres ser criticado, o que te
destrói. Queres poder atacar a coberto de qualquer ataque. É por isso que jogas na
sombra.
“Chamem a polícia! O homem tem o passaporte em ordem? É realmente médico? O
nome dele não consta do Who's Who, e a Ordem dos Médicos está contra ele”.
A polícia aqui não te serve de nada, Zé Ninguém. Destina-se a apanhar ladrões e a
regular o tráfico, não a conceder-te a liberdade. Foste tu que a destruíste e continuarás a
destruí-la com inexorável consistência. Antes da primeira guerra mundial não havia
passaportes internacionais; podias viajar para onde quer que quisesses. A guerra levada
a cabo em nome da “Liberdade e da Paz” acarretou consigo o controle de passaportes,
que ficou para durar. Cada vez que queres percorrer trezentos quilômetros na Europa
tens de pedir autorização aos consulados de pelo menos dez países. E assim continua
sendo, anos depois de finda a segunda guerra, destinada a acabar com todas as guerras.
E assim continuará a ser após a terceira e a enésima guerra final.
“Ouçam isto! A conspurcação do meu patriotismo, da honra e glória da Nação!”
Cala-te, Zé Ninguém. Há dois tipos de tons: o rolar da tempestade sobre a montanha e –
o teu peido. Não passas de um peido e julgas-te perfumado a violetas. Se posso minorar
o teu sofrimento neurótico, como te atreves a perguntar se venho no Who’s Who?
Entendo a gênese do teu cancro, e os teus miseráveis comissários de Saúde Pública
proíbem as minhas experiências com ratos. Ensinei os teus médicos a entender-te
clinicamente, e a tua Ordem dos Médicos denuncia-me à polícia – e quando estás
mentalmente doente administram-te choques elétricos, tal como na Idade Média usavam
as grilhetas e o chicote.
Cala-te, desgraçado. Toda a tua vida é miséria. Não é minha intenção salvar-te, mas heide
levar esta conversa contigo até ao fim, mesmo que me venhas bater à porta
embuçado, pela calada da noite, trazendo nas tuas mãos sangrentas a corda para me
enforcar. Não podes enforcar-me, Zé Ninguém, sem te pendurares na corda. Porque eu
represento a tua vida, o teu sentimento do mundo, a tua humanidade, o teu amor e a tua
alegria de criar. Não te é possível assassinar-me, Zé Ninguém. Outrora tive medo de ti, tal
como anteriormente havia depositado em ti demasiada confiança. Mas consegui
ultrapassar-te e encaro-te agora sob uma outra perspectiva - a do tempo, milhares de
anos antes, milhares de anos depois. Quero que percas o medo de ti próprio, que vivas
com maior plenitude e alegria. Que o teu corpo seja vivo em vez de rígido, que ames os
teus filhos em vez de os odiares, que dês felicidade à tua mulher em vez de te entreteres
a torturá-la maritalmente. Sou teu médico e, dado que habito este planeta, sou médico
onde quer que esteja; não sou um alemão, ou um judeu, ou um cristão, ou um italiano,
sou um cidadão da Terra. Para ti, por outro lado, só existem americanos angélicos e
japoneses odiosos.
“Agarrem-no! Revistem-no! O homem tem licença para exercer medicina? Proclamem um
decreto real a fim de que ele não possa praticar a medicina no nosso país livre! O tipo faz
experiências com a função do prazer! Prendam-no! Expulsem-no do país!”
Fui eu próprio que granjeei o direito a exercer a minha atividade. Ninguém pode concederme.
Fundei uma nova ciência que finalmente permite entender a vida. Tu próprio a hás-de
usar dentro de dez, cem ou mil anos, tal como no passado devoraste avidamente outros
contributos, quando sentiste a corda a chegar ao fim. O teu ministro da Saúde não tem
poder sobre mim, Zé Ninguém. Apenas o teria se tivesse a coragem de conhecer a minha
verdade – coragem que não tem. E é sendo assim que volta para o seu país e comunica
ao público que eu me encontro internado num hospício na América e nomeia inspetorgeral
dos Hospitais um homem medíocre que, numa tentativa de negar a função de
prazer, tinha falsificado diversas experiências. Eu, por meu lado, Zé Ninguém, cá vou
alinhando esta conversa. Queres maior prova da impotência dos teus poderes?
As tuas autoridades, comissários de saúde e catedráticos não poderão levar mais longe
do que já levaram as proibições de que rodearam o meu trabalho de investigação do
cancro. Todo o meu trabalho de dissecação e de observação ao microscópio foi feito,
apesar de expressa proibição. As viagens levadas a cabo a Inglaterra e a França de nada
serviram para prejudicar-me. Só lhes era possível ater-se ao terreno que sempre haviam
conhecido – o da patologia. Enquanto eu, Zé Ninguém, salvei mais que uma vez a tua
própria vida.
“Quando eu conseguir dar o poder aos meus chefes do proletariado alemão, havemos de
o esmagar! Ele corrompe a nossa juventude proletária, afirma que o nosso proletariado
padece das mesmas insuficiências sexuais que a burguesia, transforma as nossas
organizações juvenis em bordéis! Afirma que sou um animal! Destrói a minha consciência
de classe!”
É verdade que tento destruir os ideais que constróis à custa de ignorares o teu bom senso
e a tua capacidade mental, Zé Ninguém. Só desejas a imagem irreal da tua esperança
eterna, a que não te será possível alcançar. Mas só armado da verdade poderás ter a
terra nas tuas mãos.
“Expulsem-no do país! É um sabotador da tranqüilidade e da ordem. É espião a soldo dos
nossos inimigos de sempre. Comprou uma casa com dinheiro de Moscou (ou seria de
Berlim?)!”
Tu não entendes, Zé Ninguém. Era uma vez uma velhinha que tinha medo de ratos. Era
minha vizinha e sabia que eu tinha ratos no laboratório instalado na minha cave. Tinha
medo que os ratos lhe trepassem pelas saias e por entre as pernas, medo que não teria
se alguma vez houvesse conhecido a alegria do amor. Eram esses ratos que eu utilizava
para tentar entender o processo de putrefação que é o teu cancro, Zé Ninguém. Acontece
que eras meu senhorio e que a mulherzinha em questão te pediu para me pores na rua.
Coisa que tu, com toda a tua coragem, a tua riqueza ética, fizeste de bom grado. Tive,
pois, de comprar uma casa para poder continuar a observar os animais em teu proveito,
sem que pudesses vir perturbar-me com a tua covardia. E que mais aconteceu depois
disto, Zé Ninguém? Como delegado de Justiça, ambicioso e mesquinho, desejoso de
utilizar a minha reputação de homem perigoso para tua promoção na carreira,
denunciaste-me como espião alemão ou russo e conseguiste que a acusação me levasse
à prisão. Mas valeu a pena assistir à tua perturbação e vergonha durante o julgamento.
Cheguei a ter pena de ti, pobre funcionário público, tão miserável era a tua presença. E os
agentes secretos que enviaste à minha casa com mandado de busca de “material de
espionagem”, não pereciam particularmente respeitadores da tua pessoa. Encontrei-te
mais tarde na pessoa de um pequeno juiz do Bronx, que albergava a frustração de não ter
alcançado ainda assento em mais altas esferas. Acusaste-me então de possuir livros de
Lenin e de Trotsky na minha biblioteca. Nem sequer sabes para que serve uma biblioteca.
Disse-te então que também lá poderias encontrar Hitler, Buda, Jesus Cristo, Napoleão e
Casanova. Porque, tal como tentei explicar-te então, a peste emocional deve conhecer-se
na sua gênese e em todas as suas formas, o que pareceu surpreender-te, magistradozito.
“Prendam-no! É, fascista, despreza o povo!”
Tu não és o povo, pobre juiz de província. És tu que desprezas o povo, pois que preferes
assegurar a tua carreira a tomar a defesa dos seus direitos. Muitos foram também os
grandes homens que to disseram, homens que nunca ouviste nem leste. Faz parte do
meu respeito pelas pessoas expor-me ao perigo de dizer-lhes a verdade. Posso jogar
brídge contigo ou trocar algumas graças; mas nunca me sentarei à tua mesa porque tu és
um defensor impotente dos Direitos do Homem.
“O homem é trotskista! Prendam-no! É, um agitador do povo, maldito comunista!”
Eu não agito o povo, mas sim a tua confiança em ti, a tua humanidade, e é isso que te é
difícil de suportar. Porque aquilo que deveras desejas é um maior número de votos, ou a
tua promoção social, ou um assento no Supremo, ou ser simplesmente o grande chefe de
todos os proletários. A tua justiça e a tua mentalidade de ditador são a corda que garrota
o progresso do mundo. Que fizeste a Wilson, esse grande e generoso Wilson? Para ti, juiz
do Bronx, era apenas um “sonhador”; para ti, futuro chefe de todos os proletários, era um
“explorador do povo”. Assassinaste-o, Zé Ninguém, com a tua indolência, a tua
ignorância, o teu medo da esperança.
Quase me assassinaste também, Zé Ninguém. Lembras-te do meu laboratório, há dois
anos? Eras então um simples assistente. Estavas desempregado e havias-me sido
recomendado como socialista eminente, membro de um partido governamental.
Recebeste um bom salário e eras livre, no pleno sentido da palavra. Inclui-te em todas as
minhas deliberações, porque acreditei em ti e na tua missão. Lembras-te do que se
passou? A liberdade subiu-te à cabeça. Durante dias, vi-te passeando de cachimbo na
boca, sem fazer literalmente nada e sem que eu entendesse porquê. De manhã, quando
eu chegava ao laboratório, esperavas em ar de provocação que fosse eu o primeiro a
saudar-te. Eu gosto de saudar as pessoas em primeiro lugar, Zé Ninguém. Mas se
esperam que eu o faça, isso aborrece-me porque, no teu entender das coisas, sou eu o
teu “superior hierárquico”, o teu “patrão”. Deixei-te abusar da tua liberdade durante alguns
dias e depois decidi-me a ter uma conversa contigo. Admitiste então, com lágrimas nos
olhos, que não sabias o que fazer integrado neste novo sistema. Não estavas habituado à
liberdade. No anterior local de trabalho nem sequer eras autorizado a fumar diante do teu
chefe, partia-se do princípio que só abrias a boca quando te dirigiam a palavra, a ti, futuro
chefe de todos os proletários. E quando te encontravas perante a liberdade genuína, a tua
atitude era de impertinência e provocação. Entendi-te e conservei-te no lugar. Pouco
tempo depois despediste-te e foste relatar tudo o que sabias das minhas experiências a
um psiquiatra “policial”. Foste tu o informador secreto, um dos hipócritas e delatores que
instigaram a campanha de imprensa que se desencadeou contra mim. És assim, Zé
Ninguém, sempre que te é dado a provar a liberdade-só que, contrariamente às tuas
intenções, a tua campanha fez o meu trabalho avançar dez anos no tempo. Por isso te
abandono, Zé Ninguém. Não mais estarei ao teu serviço, nem é minha intenção
condenar-me a morte lenta por teu amor. Não poderás seguir-me na trajetória que me
impus. Ficarias aterrorizado se tivesses alguma idéia do que te espera no futuro. Porque a
partir da agora és tu quem governa o futuro e as minhas conquistas solitárias farão parte
do teu futuro. Mas não te quero como companheiro de viagem – como companheiro, só és
inofensivo à mesa de um bar, nunca para onde eu vou.
“Fora com ele! Este homem ridiculariza a civilização que eu, o homem comum, ajudei a
Construir. Sou um homem livre numa democracia livre!”
Tu és o nada, Zé Ninguém, o nada absoluto. Não foste tu quem construiu esta civilização,
mas sim um punhado dos teus melhores mestres. Quando te encontras integrado num
processo de construção não fazes a menor idéia de que construção se trata. E quando
alguém te solicita para que tomes a responsabilidade da construção chamas-lhe “traidor
do proletariado” e corres a acolher-te junto do Pai de Todos os Proletários, que não te
solicita.
Nem és livre, Zé Ninguém. Não fazes a menor idéia do que é viver em liberdade. Não
foste tu quem disseminou a peste emocional na Europa e na América? Pensa em Wilson.
“Ouçam, mas este tipo acusa-me a mim, um Zé Ninguém! Que poder tenho eu para
influenciar o presidente dos Estados Unidos? Eu cumpro o meu dever, faço o que me
manda o meu patrão e não me meto em altas políticas”.
E quando arrastas milhares de homens, mulheres e crianças para as câmaras de gás,
mais não fazes que cumprir o que te mandam, não é assim, Zé Ninguém? És tão
inofensivo que nem sequer te dás conta do que se passa. És um pobre diabo que nada
tem a dizer, sem opinião própria; quem és tu para te meteres na política? Eu sei, já te ouvi
a mesma tirada com freqüência. Mas deixa-me perguntar-te: porque não cumpres o teu
dever quando alguém te afirma que és responsável pelo teu trabalho, ou que não deves
bater nas crianças, ou seguir ditadores? Onde está então o teu sentido do dever, a tua
inócua obediência? Não, Zé Ninguém, tu não ouves quando fala a verdade, só podes
ouvir o ruído sem sentido. E gritas então “Viva!”. És cobarde e cruel, sem o mínimo senso
do teu verdadeiro dever, o de ser humano e preservar a tua humanidade. És uma
medíocre imitação do sábio e extraordinária a da do ladrão. Os teus filmes, programas de
rádio e histórias de quadradinhos abundam em toda a espécie de crimes. Terás de
arrastar ainda durante séculos a tua mediocridade antes de poderes tornar-te senhor de ti
próprio. Se me separo de ti é a fim de melhor poder servir o teu futuro. Porque à distância
não podes atingir-me e tens mais respeito pelo meu trabalho. Desprezas o que te está
perto. Colocas os teus lideres em pedestais porque doutra forma não poderias “fazer de
conta” que os respeitas. É, por isso que, desde que a história é história, os grandes
homens sempre souberam manter-te à distância.
“O tipo é megalomaníaco! Está completamente doido!”
Eu conheço a facilidade com que diagnosticas de loucura toda a verdade que te
desagrada, Zé Ninguém. E como te consideras o espécime acabado do homo normalis.
Duma maneira ou de outra, condenas à reclusão os loucos, e são as pessoas normais
que governam o mundo. A quem pedir contas, então, de toda essa miséria? A ti, nunca, tu
apenas cumpres o teu dever, e quem és tu para poderes emitir uma opinião própria? Eu
sei, não precisas de o repetir. Não és tu que contas, Zé Ninguém. Mas quando penso nos
teus filhos recém-nascidos, no modo como os torturas a fim de os transformar em
criaturas “normais” à tua imagem e semelhança, sou tentado a aproximar-me de ti
novamente a fim de impedir os teus crimes. Mas sei também que tiveste o cuidado de
proteger-te a ti próprio através de uma instituição como o Conselho de Educação.
Gostaria de levar-te a dar uma volta comigo por este mundo, Zé Ninguém, e mostrar-te o
que és e o que foste, no presente e no passado, em Viena, em Londres, em Berlim, como
“representante do poder popular”, como membro de algum credo. Poderias encontrar-te
em toda a parte e reconhecer-te, quer fosses francês, alemão ou hotentote, se tivesses a
coragem de olhar para ti próprio.
“Ouçam-no! Agora insulta-me, ofende a minha honra! Ridiculariza a minha missão!”
Não é isso o que tento fazer, Zé Ninguém. Muita alegria me darias se me
contradissesses, se me desses provas de que és capaz de olhar para ti e reconhecer-te.
É, necessário que dês provas, o mesmo tipo de provas que se exigem dum construtor
civil: a casa tem de ser visível e habitável. Não tem o direito de berrar que alguém lhe lesa
a honra quando afirma que ele apenas discursa sobre a “missão do construtor civil” sem
realmente construir o que quer que seja. Do mesmo modo te exijo que proves que és o
suporte do futuro da humanidade. Deixa de usar covardemente os chavões da “honra da
nação” ou do “proletariado” para te esconderes – para mim, já tens à mostra demasiado
do que realmente és.
Tal como ia dizendo, aqui te deixo. A reflexão de muitos anos e muitas noites sem dormir
levaram-me à necessidade de o fazer. Os teus futuros chefes de todos os proletários são
bem menos complicados. Um dia são teus lideres, amanhã serão capazes de fazer o que
quer que seja para continuarem a desempenhar qualquer cargo. Mudam de convicções
como quem muda de camisa. Eu não. Continuo a estimar-te e a preocupar-me com o teu
destino. Mas uma vez que és incapaz de respeitar quem quer que seja que te esteja
perto, é necessário criar entre nós certa distância. Serão os teus bisnetos os herdeiros do
meu trabalho, e por eles esperarei a fim de poder gozar os meus frutos, tal como durante
trinta anos o esperei de ti. Tu, no entanto, continuaste berrando: “Abaixo o capitalismo!”,
ou “Abaixo a Constituição americana!”.
Vem comigo, Zé Ninguém. Vou mostrar-te alguns quadros da tua vida quotidiana. Não
fujas. Serão odiosos, mas salutares, e o todo não é tão terrivelmente perigoso. Há cem
anos, aprendeste a papaguear os físicos que construíram máquinas e te diziam que o
espírito não existe. Surgiu então um grande homem que te demonstrou o teu próprio
funcionamento psíquico, só que desconhecia a conexão entre o teu espírito e o teu corpo.
Disseste então: “Ridículo! Psicanálise! Charlatanices! Pode-se analisar a urina, não se
pode analisar a psique humana”. Disseste-o porque em matéria de medicina pouco mais
sabias para além da análise de urinas. A luta pelo espírito durou aproximadamente
quarenta anos. Conheço bem os meandros dessa luta, porque a partilhei em teu nome.
Descobriste então que se pode ganhar muito dinheiro com as perturbações da mente
humana. Basta fazer com que um doente venha diariamente durante uma hora ao longo
de alguns anos e que essa hora a pague caro.
Então, e só então, começaste a acreditar na existência do espírito, enquanto,
concomitantemente; se ia consolidando o conhecimento do teu corpo, Descobri que o teu
espírito é uma função da tua energia vital, isto é, por outras palavras, que existe uma
unidade entre o corpo e o espírito. Esta foi a linha de reflexão e investigação que segui,
chegando à conclusão de que expandes essa energia vital sempre que te sentes bem e
afetivamente seguro e que a retrais para dentro do teu próprio corpo sempre que tens
medo. Durante quinze anos mantiveste-te silencioso quanto ao conteúdo destas
conclusões. O que não me impediu de prosseguir a mesma via e de descobrir que esta
energia vital, à qual dei o nome de “orgone”, se encontra também presente na atmosfera,
fora do teu corpo. Consegui torná-la visível na escuridão e montar aparelhagem capaz de
a amplificar e tornar luminosa. Enquanto tu jogavas às cartas, ou te entretinhas a torturar
a tua mulher e os teus filhos, eu permaneci várias horas por dia, durante dois longos
anos, na minha câmara escura, procurando certificar-me de que havia realmente isolado a
tua energia vital. Gradualmente, aprendi a demonstrá-lo a outros e a constatar que lhes
era possível verificar o mesmo que eu.
Mas tu, na tua qualidade de médico crente de que o psíquico é apenas uma secreção das
glândulas endócrinas, apressas-te a afirmar a um dos meus doentes recuperados que o
meu sucesso terapêutico foi apenas a resultado de “sugestão”.Ou, sofrendo como sofres
de dúvidas obsessivas e fobias relacionadas com a obscuridade, afirmas em relação aos
fenômenos que acabas de observar que também eles se devem à “sugestão” ou que te
sentes como que saído de uma sessão espírita. És assim, Zé Ninguém. Em 1945 utilizas
as mesmas reflexões asnáticas sobre a “alma” que em 1922 utilizavas para lhe negar a
existência. Continuas sendo o mesmo Zé Ninguém. Em 1984 continuarás de ânimo leve a
ganhar dinheiro com o orgone e, igualmente de ânimo leve, a difamar, a abafar no silêncio
e a tentar destruir qualquer outra verdade, tal como o fizeste com a descoberta do
psíquico e da energia cósmica. E permanecerás o mesmo Zé Ninguém cheio de “espírito
crítico”, berrando “Viva!” a este e àquele. Lembras-te do que disseste da descoberta de
que a Terra não é imóvel, mas gira sobre si própria e se move no espaço? Não tiveste
outra resposta senão a graça estúpida de que, a partir de então, os copos passariam a
tombar das bandejas dos criados. Foi há alguns séculos, de modo que já esqueceste, Zé
Ninguém. Tudo o que sabes de Newton é “que lhe caiu uma maçã na cabeça” e tudo o
que sabes de Rousseau é que preconizava o “retorno à natureza”.A única coisa que
aprendeste com Darwin foi a “sobrevivência dos mais aptos”, não as tuas origens como
primata. Do Fausto de Goethe, que tanto te agrada citar, entendeste tanto como um gato
entende de matemática. És estúpido e vaidoso, vazio e macaqueante, Zé Ninguém.
Sempre encontras forma de desvirtuar o essencial e assimilar o errôneo. O teu Napoleão,
esse homenzinho de galões doirados, que nada nos legou senão o cumprimento
obrigatório do serviço militar, surge nas tuas livrarias todo encadernado a doirados,
enquanto o meu Kepler, que teve a intuição da tua origem cósmica, não se pode
encontrar em nenhuma livraria. É por isso que continuas no lameiro, Zé Ninguém. É, por
isso, que me vejo obrigado a contradizer-te cada vez que pareces estar convencido de
que eu trabalhei e lutei durante vinte anos, que sacrifiquei enormes quantias, apenas para
te “sugerir” a existência da energia cósmica do orgone. Não, Zé Ninguém, aprendi
realmente a sanear o mal que te aflige, coisa que não podes crer. Bem te ouvi afirmar na
Noruega que “quem quer que seja que gaste uma tal quantia em meras experiências deve
ser completamente louco”. Claro! Julgas por ti próprio. Só te é possível tirar, dar nunca,
por isso te é inconcebível que quem quer que seja possa ter alegria na dádiva, tal como te
é inconcebível a hipótese de estar com uma mulher sem que imediatamente se te ponha
a questão de a “comer”.
Talvez me fosse possível respeitar-te se fosses ao menos grande quando “roubas”
felicidade. Mas até nisso és medíocre. Não és ignorante, mas como o teu estado psíquico
habitual é de prisão de ventre, és incapaz de criar – roubas o osso e rastejas para o
primeiro buraco onde possas roê-lo em paz, tal como Freud um dia te disse. Atracas-te ao
primeiro indivíduo generoso que encontras e secá-lo até à medula no que tenha para darte.
E é a ele que chamas idiota. Devoras-lhe o que possa dar-te de sabedoria, de alegria,
de grandeza, mas és incapaz de digerir o que dele te venha. Sai-te nas fezes, e o fedor
que exala é pavoroso. Ou, para salvaguardares a tua dignidade após o que é realmente
uma violação e um furto, chamas-lhe alienado, charlatão ou perverso sexual.
Ora aí temos: “Perverso sexual”.Lembras-te, Zé Ninguém (eras tu presidente de uma
sociedade científica), de como te foi necessário espalhar o boato de que eu encorajava.os
meus filhos a assistirem ao ato sexual? Passou-se isto pouco depois de eu ter publicado o
meu primeiro artigo sobre os direitas da criança à atividade genital. De uma outra vez
(eras presidente temporário de uma espécie de associação cultural de Berlim) fizeste
correr que eu saía de carro para o campo com adolescentes a fim de as seduzir. Nunca
seduzi adolescentes, Zé Ninguém. A obscenidade da fantasia é tua, não minha. Amo a
minha mulher e a minha filha – é a tua incapacidade de amares as tuas que te leva ao
desejo inconfessável de andar pelos bosques seduzindo rapariguinhas.
E tu, rapariguinha, não é verdade que sonhas com o “másculo” ídolo cinematográfico?
Não és tu que levas a sua fotografia contigo para a cama? Que fazes o jogo da
aproximação e da sedução, afirmando-te como maior de 18 anos? E não és tu ainda que
o acusas em tribunal de crime de violação? E imaculada de culpas ou condenada, serão
as tuas avós que continuarão a beijar-lhe as mãos.
Querias ir para a cama com ele, mas foste incapaz de assumir a responsabilidade. Por
isso o acusas, pobre menina violada. Ou tu, mulher madura, também dita violada, que
conheceste maior prazer na relação sexual com o teu motorista que com o teu marido.
Não foste tu que o seduziste por lhe sentires mais sã a sua sexualidade de homem de
cor? E não foi então que o acusaste de crime, a ele que não possuía apoios, vitima da
sua condição de “raça inferior”? Evidentemente que não, tu és pura e branca, os teus
antepassados vieram no May-flower, és “Filha Desta ou Daquela Revolução”, Nortista ou
Sulista, cujo avô enriqueceu à custa da escravatura negra. Como és inocente, pura,
branca, como é inexistente o teu desejo do Negro, pobre criatura. Miserável cobarde,
descendente de uma raça de caçadores de escravos, descendente de um Cortês que
atraiu milhares de astecas confiantes à emboscada onde os exterminou. Desgraçadas
filhas desta ou daquela revolução. Mas qual é a vossa concepção da emancipação? Que
fizeram do esforço dos revolucionários americanos, dos esforços de Lincoln, que vos
libertou os escravos para serem entregues agora ao “mercado livre da competição”?
Olhem para o espelho, filhas de revoluções – vejam como são idênticas às “Filhas da
Revolução Russa”, meninas inocentes e castas.
Se ao menos uma vez na vida vos houvesse sido possível dar amor a um homem,
quantas vidas de negros, de judeus, de trabalhadores, poderiam ter sido salvas. Tal como
esmagais a vida de vossos filhos, assim vos aproximais dos negros para matar em vós
próprias o pouco que resta do impulso de amar, a fantasia pornográfica e frívola da
luxúria. Como eu vos conheço, filhas e mulheres da alta finança, e a toda a vileza contida
nos vossos sexos mortos. Não, filhas desta ou daquela revolução, não tenho a menor
intenção de me tornar um L.L.D. ou comissário, cargo que deixo de bom grado às rígidas
criaturas em uniforme que vos comandam. Guardo o meu amor para os pássaros e
esquilos, os animais livres que tão perto estão dos negros, não os negros de Harlem, com
os seus colarinhos engomados e fatiotas rígidas, mas os negros integrados nas suas
tribos na floresta. Não as rotundas mulheres negras de argolas nas orelhas, cujo prazer
negado lhes arredonda os flancos até ao absurdo, mas os corpos esbeltos e suaves das
raparigas dos mares do Sul, em cujas carnes se compraz a vileza dos homens deste ou
daquele exército, raparigas que desconhecem que o seu amor. puro é “usado” como
numa relação de bordel.
Não, menina, tu desejas a vida que não entendeu ainda até que ponto é explorada e
desprezada. Só que os teus dias estão contados. A tua versão “virgem da raça
germânica” foi extinta - ainda subsistes como “virgem da classe proletária” na Rússia, ou
como “filha da Revolução Universal”. Mas daqui a uns quinhentos, a uns mil anos, quando
rapazes e raparigas saudáveis puderem enfim proteger o amor e nele achar alegria, nada
mais restará de ti do que a memória do teu ridículo.
Não foste tu que recusaste ouvir a maravilhosa voz vibrante de vida de Marian Anderson,
tu, mulherzinha cancerosa? O seu nome permanecerá na música dos séculos, quando já
nada restar de ti. Pergunto a mim próprio se também a ela lhe é possível pensar em
termos de séculos, ou se faz parte do número dos que proíbem o amor de seus filhos.
Ignoro-o – os verdadeiros vivos ora correm ora vagueiam. A própria vida os satisfaz – a
verdadeira vida que tu desconheces, mulherzinha putrefata.
Inventaste o mito de que representas “A SOCIEDADE”, mito que o teu Zé Ninguém se
apressou a ratificar de alma e coração. Não o és. É verdade que continuas a anunciar
quotidianamente no teu jornal judeu ou cristão que e quando se vai a tua filha deitar com
um homem, mas qual é o indivíduo com o mínimo de senso a quem tal coisa interessa?
“A Sociedade” sou eu e o carpinteiro e o jardineiro e o professor e o médico e o operário.
Isto, e não tu, criatura rígida, dissimulando a tua putrefação. Tu não és a vida, mas sim a
sua distorção. Mas entendo porque te retiraste para a tua fortaleza de bens e poder - que
outra coisa poderias fazer face à mesquinhez dos carpinteiros, jardineiros, médicos,
professores e operários? Sendo o horror que é, a tua retirada justifica-se. Mas a
mesquinhez e a vileza estão-te nos ossos, na tua prisão de ventre, no teu reumatismo, na
tua dissimulação, na tua negação da vida. És desgraçada, mulher, porque os teus filhos
se destroem, as tuas filhas se prostituem, os teus homens secam. e a tua vida se
putrefaz, e com ela os teus tecidos. E não me inventes histórias, Filha da Revolução; eu já
te vi completamente nua.
És covarde e sempre o foste. Tiveste a felicidade nas mãos e deixaste-a fugir. Pariste
presidentes e infectaste-os com a tua vileza. Deixam-se fotografar a pendurar medalhas
nas pessoas em perpétuo sorriso, e não se atrevem a nomear as coisas pelo seu nome.
Tiveste o mundo nas tuas mãos e lançaste-lhe em Hiroxima e Nagasaqui as tuas bombas
atômicas – isto é, o teu filho fê-lo por ti. Cavaste o teu túmulo por tuas próprias mãos,
mulherzinha cancerosa. Com uma, só destas bombas, aniquilaste para sempre a tua
classe e toda a tua casta. Porque não tiveste sequer a humanidade de avisar os homens,
as mulheres e as crianças de Hiroxima e Nagasaqui. Nem um gesto de grandeza, e por
esse gesto não cumprido toda a tua espécie desaparecerá como um seixo largado no
oceano. Nem importa o que possas ter a dizer ou penses, pobre parideira de tantos
mentecaptos – daqui a; quinhentos anos serás motivo apenas de pasmo e gáudio. Que o
não sejas já é apenas parcela da miséria do mundo. Sei o que vais dizer, criatura. Todas
as aparências são a teu favor; “a defesa do país” etc. Usou-se o mesmo argumento
outrora na velha Áustria. Nunca ouviste um cocheiro vienense berrar: “Viva o meu Kaiser!”
Pois é a mesma música. Não, desgraçada, de ti não tenho medo -não há nada que
possas fazer-me. É verdade que o teu genro é vice-presidente da Câmara ou que o teu
sobrinho é alto funcionário do Ministério das Finanças. Mais chazinho, menos chazinho e
vais-lhes dizendo umas coisas a meu respeito. Ao indivíduo que quer passar a presidente
da Câmara ou a diretor-geral não há-de deixar de convir a utilização duma vítima em
nome da “Lei e da Ordem”. Bem sei como se mexem os cordelinhos, mas não há-de ser
isso que te safa – a minha verdade tem mais força do que tu.
“O homem é um obcecado, um fanático! Será que eu não tenho nenhuma função na
sociedade?”
Apenas te demonstrei que és medíocre e vil, Zé Ninguém, tu e a tua mulher - ainda nem
sequer mencionei a tua utilidade e importância. Ou julgas que arriscava o pescoço numa
conversa destas se não te achasse importante? Toda a tua mesquinhez e vileza é bem
mais grave se vista à luz da tua imensa responsabilidade e importância. Afirma-se
habitualmente que és estúpido – ora, eu sei-te inteligente, mas cobarde. Afirmam-te que
és a escória da humanidade – eu diria que és a sementeira. Diz-se ainda que a cultura
carece da experiência de escravos. Eu afirmo que nenhuma cultura pode ser edificada
sobre qualquer forma de escravatura. A monstruosidade deste nosso século tornou
ridícula toda e qualquer evolução cultural a partir de Platão. A cultura humana ainda nem
sequer existe, Zé Ninguém! Começamos agora a entender a patológica degenerescência
do animal humano. Esta “conversa com o Zé Ninguém” ou qualquer outro escrito válido
que possa ser publicado hoje em dia estará para a cultura de daqui a mil ou cinco mil
anos como a primeira roda de há milênios está para as locomotivas diesel dos nossos
dias.
Pensas sempre a curto prazo, Zé Ninguém, o teu tempo medeia de uma refeição a outra.
Terás de aprender a memória em termos de séculos, e a perspectiva do futuro em termos
de milênios. Terás de aprendê-la em termos da verdadeira vida, em termos do teu
desenvolvimento desde o primeiro floco plasmático até ao animal humano, capaz de
caminhar ereto, mas incapaz ainda de pensar com justeza. Porque a tua memória não
retém acontecimentos de há dez ou vinte anos, continuas repetindo as mesmas asneiras
de há dois milênios. E mais ainda: agarras-te a elas – à tua “raça”, “classe”, “nação”, aos
teus ritos religiosos compulsivos, à supressão do amor, como um piolho se aferra à pele.
Nem te atreves a ver até que ponto te encontras atolado na tua miséria. De vez em
quando, pões a cabeça pra fora e berras “Viva!”. O coaxar duma rã no charco tem pelo
menos mais sentido.
“Porque não me tiras então do lameiro? Porque não participas nas minhas reuniões do
partido, nos meus parlamentos, nas minhas conferências diplomáticas? És um traidor!
Dizes que lutaste por mim, que sofreste e que te sacrificaste, e agora insultas-me!”
Eu não posso arrancar-te do lameiro. Só tu podes fazê-lo. Nunca participei dos teus
círculos e conferências porque a regra de ouro consiste em “calar o essencial”, “falar
apenas do acessório”. É verdade que durante vinte e cinco anos lutei por ti, te sacrifiquei
a minha segurança profissional e a paz da minha família; financiei organizações tuas,
participei em marchas e manifestações de protesto. É verdade que, na minha qualidade
de médico, te dei milhares de horas, sem receber qualquer compensação – errei de país
em país por tua causa, substituindo-te muitas vezes quando a voz se te apagava no calor
dos brados. Fui literalmente capaz de arriscar a vida por ti, no tempo da grande praga
política, quando te transportava clandestinamente a melhor abrigo, sob pena de morte se
descoberto; ajudei a proteger os teus filhos das investidas da policia contra as suas
manifestações públicas - e gastei tudo quanto me restava na criação de instituições de
saúde mental onde fosse possível achar orientação e apoio. Mas tu nada tiveste para me
dar em troca. Querias ser salvo, mas nem uma só vez no decorrer destes trinta
monstruosos anos de peste emocional foste capaz de gerar uma única idéia fecunda. E
uma vez finda a segunda guerra mundial encontras-te exatamente no mesmo ponto onde
estavas quando ela começou; talvez uns milímetros mais à “esquerda” que à “direita”,
mas para frente, nada! Malbarataste as aquisições da luta francesa pela emancipação, e
até a extraordinária emancipação russa conseguiste transformar em aborto aos olhos do
mundo. O teu falhanço, que foi, e que só espíritos verdadeiramente grandes e isolados
podem entender sem cólera, sem desprezo, foi causa do desespero em todo o mundo de
todos aqueles dispostos a sacrificar-te tudo. Durante todos esses anos de horror, essa
sangrenta metade de século, nem uma só palavra se te ouviu que não fosse banal, nem
uma só palavra de bálsamo ou sequer de bom senso.
No entanto, não desanimei de todo, pois aprendi a conhecer-te ainda melhor e mais
profundamente. Entendi que não te era possível pensar ou agir de outro modo. Reconheci
então o medo mortal que te suscita toda a forma de vida, medo que sempre ameaça a
continuidade de tudo o que tentes de genuíno e certo. Tu não podes entender que o
conhecimento seja fonte de esperança. A esperança, para ti, sempre terá de vir dos
outros, nunca de ti próprio. É por isso que, face à minha atitude perante o colapso do teu
mundo, me chamas “otimista”, Zé Ninguém. E queres saber porque sou otimista e crente
no futuro? Ouve:
Enquanto fui ficando agarrado a ti, tal como foste e continuas sendo, fui levando
pontapés, vítima da tua curteza de vistas. Vez após vez esqueci as ofensas que se
seguiam ao apoio que te dava, mil vezes fui forçado a ter em conta a tua insanidade. Até
que abri os o lhos e te vi - o primeiro movimento foi de desprezo e cólera, mas aprendi
gradualmente a substitui-los pela compreensão do mal que te afeta. Não mais senti raiva
perante o colapso da tua primeira tentativa de possuíres a terra. Comecei antes a
entender que esse fora o único resultado possível após milhares de anos de repressão da
verdadeira vida.
Enunciei a lei funcional do que vive, Zé Ninguém, ao tempo em que andavas por ai
espalhando a minha insanidade. Eras então um psiquiatra insignificante, com uma certa
experiência de movimentos de juventude e com altas probabilidades de uma futura
afecção cardíaca, dado que eras impotente – morreste, pois, anos mais tarde, literalmente
de coração partido, pois não é impunentemente que se rouba e difama quem quer que
seja; na desonestidade é a própria vida que está em causa se um mínimo de pureza
ainda sobrevive escondido em ti. E tu possuías essa ínfima centelha, Zé Ninguém.
Quando te passaste de amigo para inimigo, pensaste que eu estava “pronto” e deste-me o
pontapé final, porque sabias que eu tinha razão e que não te era possível seguir-me.
Quando anos mais tarde eu voltei à liça, qual teimoso “sempre-em-pé”,. e agora mais
forte, mais exato e determinado que nunca, apanhaste o susto que te foi mortal. Tiveste,
porém, tempo de verificar quais os abismos que fui forçado a transpor, o terreno instável
que havias preparado para a minha queda. Porque proclamaste como teus, nas tuas tão
prudentes organizações, conhecimentos a que só eu te dera acesso? Afirmo-te que a
gente honesta que te rodeava o sabia; sei-o porque mo disseram. A tática, a tua, Zé
Ninguém, é a via mais rápida para a morte prematura.
E porque a vida a teu lado é demasiado arriscada, porque na tua proximidade é
impossível servir a verdade sem ser esfaqueado pelas costas e enlameado no rosto, optei
pela separação. E repito-o -não a separação do teu futuro, mas da tua proximidade. Não a
da tua humanidade, mas a da tua desumanidade e mesquinhez.
Mantenho-me capaz de sacrifício em nome da verdadeira vida - não por ti, Zé Ninguém.
Só há bem pouco me dei conta do tremendo erro no qual laborei durante vinte e cinco
anos: dediquei-me à tua pessoa e à tua forma de vida, crente de que tu eras a vida, a
inteireza simples, o futuro e a esperança. Tal como eu, outros foram os que,
desprevenidos e de boa fé, em ti procuraram achar o sentido da vida. Nem um só
sobreviveu. Sendo assim, decidi-me a não me deixar morrer vitimado pela tua estreiteza
de vistas e tua mesquinhez. Porque creio na importância do que faço. Descobri a vida, Zé
Ninguém - mas já não cometo o grave erro de confundir-te com o que de vivo pude achar
em mim próprio e em ti procurei.
A minha contribuição real para a segurança do que é deveras vivo e do teu futuro só será
possível se puder, de forma bem clara e nítida, fazer a separação entre a vida, as suas
funções e, características e a tua forma de vida. Sei que é necessária coragem para
entrar em conflito contigo – mas vou continuar a trabalhar pelo teu futuro, porque me
inspiras compaixão e porque não me move o desejo de ser içado à posição de “grande”
líder medíocre a que aspiram os teus miseráveis chefes. Há já algum tempo que a vida
em ti começa a dar sinais de rebeldia perante a distorção que lhe é imposta. Esta é a hora
primeira de um futuro maior, do fim de toda a forma de mediocridade. Porque entretanto o
modo como age a peste emocional se foi tornando demasiado óbvio. Acusa a Polônia das
intenções de agressão militar, depois de tomada a decisão de agredir a Polônia. Acusa o
rival da intenção de crime depois de decidir eliminá-lo. Acusa de pornografia a vida sexual
sã, "que tem em mente intenções pornográficas. Já te topamos, Zé Ninguém; vais-te
tornando transparente sob a tua fachada de desgraça e submissão. O que te é pedido é
que determines o rumo do mundo com o teu trabalho e a tua realização - substituir uma
forma de tirania por outra é que nunca. O que se te exige é que te submetas às leis da
vida tal como quererias que os outros fizessem; que te modifiques à medida que os vais
criticando. Cada vez é mais óbvia a tua predisposição para a tagarelice a tua avidez, a tua
irresponsabilidade - o mal de ti que conspurca toda a beleza da Terra. Sei que não te
agrada o que ouves, que preferes berrar “Viva!”, que és bem capaz de parir o futuro do
proletariado do IV Reich. Mas não é menor a minha convicção de que as coisas te vão
sendo mais difíceis hoje que no passado – embora sejas ainda brutal sob a tua máscara
de sociabilidade e gentileza, Zé Ninguém. Não acreditas? Deixa então que te refresque a
memória:
Lembras-te da magnífica tarde em que vieste, como lenhador que eras, pedir trabalho à
minha cabana na montanha? Depois de farejar-te, o meu cachorro saltou-te aos joelhos.
Viste que era cão de boa raça e disseste então: “Devia amarrá-lo para se fazer bravo. O
cão é manso de mais”. Ao que eu te respondi: “Eu não quero ter uma fera amarrada com
correntes. Não gosto de cães raivosos.” Ali, lenhador, tenho bem mais inimigos no mundo
do que tu, mas continuo a preferir o meu majestoso cão, meigo com toda a gente.
Lembras-te do domingo chuvoso em que a angústia perante o fenômeno da tua rigidez
biológica me levou a sair de casa, largando o trabalho, para me enfiar num dos teus
bares? Sentei-me a uma mesa e pedi um uísque (não, Zé Ninguém, não sou alcoólico,
embora goste de beber de vez em quando). Ia, pois, bebendo o meu copo quando te ouvi,
no teu paleio de recém-desmobilizado, descrever os Japoneses como “macacos
horrendos”. E foi então que afirmaste, com a expressão facial que eu tão bem conheço do
meu trabalho terapêutica: “Vocês sabem o que a malta devia fazer com os Japoneses da
costa ocidental? Estrangulá-los todos, um por um, mas devagar, lentamente, apertar-lhes
o garrote a pouco e pouco, assim...”, e ias fazendo o gesto com as mãos, Zé Ninguém. O
criado apoiava-te, fazia que sim em admiração perante a tua heróica masculinidade. Já
alguma vez tiveste um bebê japonês recém-nascido nos braços, patriótico de merda?
Durante muitas décadas continuarás ainda a estrangular espiões japoneses, aviadores
americanos, camponeses russos, oficiais alemães, anarquistas ingleses e comunistas
gregos – hás-de fuzilá-los, condená-los à cadeira elétrica, às câmaras de gás -, o que em
nada irá alterar a tua, prisão de ventre generalizada, a tua incapacidade de amar, o teu
reumatismo ou a tua doença mental. Não serão os crimes que possas cometer que irão
arrancar-te ao lameiro. Olha para ti, Zé Ninguém. É a tua única esperança. Lembras-te,
Maria Ninguém, do dia em que vieste ao meu consultório espumando de raiva contra o
homem que se tinha separado de ti? Durante anos e anos tiveste-o debaixo de mão, a ele
e à tua mãe, tias, sobrinhos e demais família, enquanto o desgraçado se ia encolhendo
cada vez mais, dando-te de comer a ti e a todos os outros. Até que num último esforço
para manter vivo em si o que a vida possa ter de sentido te deu com os pés e desandou;
só que como não se sentia suficientemente forte para poder libertar-se isolado do teu
jugo, me veio pedir auxílio. Pagou-te de boa vontade a pensão que lhe foi imposta pela
lei, três quartos do total dos seus ganhos – o preço do seu amor pela liberdade. Porque
este homem era deveras um grande artista, e a verdadeira arte, tal tomo a ciência
genuína, não sobrevive a quaisquer algemas. Tu, porém, na tua raiva cega, o que querias
era que fosse ele a sustentar-te totalmente, apesar de teres a tua própria profissão – e
sabias que eu o ajudaria a eximir-se a obrigações sem justificação possível. Enfurecestete.
Ameaçaste-me com a polícia porque, segundo dizias, era eu que lhe tirava o que tinha,
aproveitando-me da sua necessidade de apoio. Por outras palavras, tu, como mulherzinha
medíocre que és, acusaste-me das tuas próprias intenções. Nunca te ocorreu tentar
progredir na tua situação profissional, porque isso teria significado a tua independência do
homem por quem, há já tantos anos, nada mais sentias do que ódio. Achas que é assim
que se pode construir um mundo novo?, tu que te apresentaste como ligada a certos
meios socialistas que “saberiam tudo a meu respeito”? Não vês até que ponto o teu
comportamento é típico, que há milhões como tu dispostos a destroçar a Terra? Bem sei
que és “fraca” e “só”, “dependente da tua mãe”, “desamparada”, que te odeias a ti própria,
que não te suportas e estás desesperada. E é por isso que destróis a vida dó homem com
quem viveste, Maria Ninguém, e a tua vida segue o rumo medíocre da maior parte das
vidas. E sei ainda que os juizes e advogados estão do teu lado porque não possuem outra
resposta para a tua desgraça.
Revejo-te a ti também, secretariazinha dum tribunal de província, tomando notas sobre o
meu passado e o meu presente, sobre as minhas opiniões acerca do sentido da
propriedade, acerca da Rússia e da democracia. Perguntam-me qual a minha posição
social. Respondo que sou membro honorário de três sociedades científicas, entre as
quais a Sociedade Internacional de Plasmogenia, o que parece impressionar a audiência.
Na sessão seguinte, o oficial de diligências diz-me: “Há aqui uma coisa estranha – que o
senhor é membro da Sociedade Internacional de Poligamia. Isto está certo?” E ambos nos
rimos do teu engano, criaturinha medíocre. Percebes agora por que motivo as pessoas
me difamam? Na base estão as tuas fantasias, não a minha forma de viver. É ou não
verdade que tudo o que recordas de Rousseau é o seu apelo de “retorno à natureza”, o
fato de que pouca atenção deu a seus filhos e que os colocou num orfanato? A tua
natureza é perversa, porque apenas vês e ouves o que é desagradável, e nunca o que
possa ser bom ou ter beleza.
“Ouçam! Eu vi-o correr as persianas à uma da manhã. O que é que vocês pensam que o
tipo estava a fazer? E durante o dia tem-nas sempre abertas. Há! Ali há qualquer coisa!”
De pouco ou nada te servirá continuar a usar esses métodos contra a verdade. Nós já os
conhecemos. Não são as minhas persianas que te preocupam, o que te interessa é
ocultar a minha verdade. Tu queres continuar a ser difamador e delator, sempre que o teu
vizinho se não acomode ao teu modo de vida, ou porque é bondoso, ou livre, ou
simplesmente porque trabalha e pouco se incomoda contigo – por isso desejas que o
prendam. És demasiado intrometido, Zé Ninguém, metes o nariz onde não és chamado
para em seguida difamares, as costas quentes de saberes que a polícia não divulga a
identidade dos seus informadores.
“Ouçam, contribuintes! E é isto um professor de Filosofia que uma das grandes
universidades da vossa cidade quer contratar para ensinar a nossa juventude! Fora com
ele!”
E a tua não menos preclara esposa e contribuinte põe a circular um abaixo-assinado
contra o professor em causa, que, evidentemente, perde assim o lugar. Tu, virtuosíssima
esposa e contribuinte, honorável parideira de patriotas, assim consegues ser mais
poderosa que quatro mil anos de filosofia natural. Só que começamos a entender-te e,
mais tarde ou mais cedo, a tua hora há-de soar.
“Ouçam bem todos aqueles que se interessam pela moral pública. Na nossa esquina
mora uma mulher com a filha. E a filha recebe o namorado à noite. Vamos levá-la a
tribunal, acusá-la de manter uma casa de passe! Polícia! Queremos a proteção dos
costumes!”
E a mãe em causa é condenada, porque tu espias o que se passa na cama dos outros.
Demasiado claramente o expressas, demasiado claras são as motivações dos teus
apelos à “moral e à ordem”.Ou não é verdade que tentas beliscar o rabo a todas as
empregadas, Zé Ninguém moralista? SIM, DESEJAMOS PARA OS NOSSOS FILHOS A
EXPRESSÃO LIVRE E ABERTAMENTE ALEGRE DO SEU AMOR E QUE NÃO TENHAM
QUE VIVÊ-LO CLANDESTINAMENTE, EM BECOS ESCUROS, NA OBSCURIDADE DE
ENTRE PORTAS. Queremos respeitar os pais corajosos e honestos que entendem e
protegem o amor adolescente dos seus filhos e filhas. Tais pais e mães são o germe das
gerações futuras, cujo corpo e sentidos serão sãos, libertos enfim da obscenidade das
tuas fantasias, Zé Ninguém impotente do século XX.
“Ouçam a última! Houve um rapaz que foi ter com ele para se tratar e teve de sair
correndo com as calças na mão, porque, o tipo é homossexual!”
Não sentes o fedor do teu hálito, Zé Ninguém, quando espalhas por aí esta “verdade”?
Não lhe reconheces a origem no teu monte de esterco, na tua prisão de ventre e lascívia?
Eu nunca tive desejos homossexuais, tal como tu; nunca tentei seduzir rapariguinhas,
nunca violei uma mulher, nunca sofri de prisão de ventre; nunca roubei afeto, como tu; só
me liguei a mulheres que me queriam bem e a quem eu queria; nunca me exibi
publicamente, como tu fazes - nem me deleito como tu em fantasias obscenas.
“Mas ouçam esta: o tipo atreveu-se de tal forma com a secretária que a rapariga teve que
fugir de casa. Vivia com ela de persianas sempre corridas e a luz acesa até às três da
manhã!”
E De la Mettrie era um sensualão que morreu atochado de bolos, segundo a tua versão; e
o príncipe Rodolfo vivia em mancebia; e a Srª Roosevelt nunca foi muito certa da cabeça,
e o reitor da Universidade X encontrou a mulher em flagrante delito de adultério, e o
professor desta ou daquela escola de província tem uma amante. Não és tu que.o
afirmas, Zé Ninguém? Não és tu que espalhas tais “ditos”? Tu, miserável cidadão do
mundo, que durante. milênios assim malbaratas a tua própria vida, cavando tu mesmo a
fossa onde te manténs.
“Agarrem-no! O tipo é um espião alemão, ou talvez russo, ou mesmo da Islândia! Eu vi-o
às três da tarde na rua 86 de Nova Iorque e ainda para mais com uma mulher!”
Sabes qual é o aspecto dum piolho quando exposto a um foco de luz muito intenso? Bem
me parecia que não. Um dia virá em que a lei usará da sua força contra o piolho humano
– leis capazes de proteger a verdade e o amor. Tal como hoje se enviam para
reformatórios adolescentes carecidos de afeto, haverá um dia instituições onde isolar os
que enlameiam a reputação dos outros. Surgirão novos juízes e delegados de justiça, que
não mais administrarão em formalismo e impostura, mas sim em verdade e tolerância.
Leis novas hão-de erigir-se em proteção da vida, leis a que terás de obedecer, por muito
que isso te pese. Sei, porém, que durante três, cinco ou dez séculos teremos de suportarte
como o portador por excelência da peste emocional, o riúcleo da difamação, da intriga,
da inquisição abusiva. Mas acabarás por sucumbir à tua própria pureza; hoje enterrada
tão profunda e inacessivelmente no teu ser.
Posso contudo asseverar-te que nenhum Kaiser, nenhum Czar ou Pai do proletariado
pode jamais conquistar-te. Escravizar-te, sim, mas nenhum foi capaz de superar a tua
mediocridade. A única coisa capaz de conquistar-te será o teu sentido da pureza, a tua
aspiração à verdadeira vida – e quanto a isso, não tenho a menor dúvida. Uma vez
superada a tua mediocridade e mesquinhez, começarás a pensar – de início, sem dúvida,
errática, ridícula e erroneamente, mas pensarás com seriedade. Terás de aprender a
suportar a dor que todo o esforço de pensamento comporta em si mesmo, tal como eu e
outros suportamos a pena de pensar-te – durante anos, em silêncio, de dentes cerrados.
Esta nossa dor far-te-á pensar. E quando começares a fazê-lo sentirás a magnitude do
absurdo dos teus quatro milênios de “civilização”. Ser-te-á difícil entender como foi
possível que os teus jornais nada mais tivessem a relatar e comentar que paradas sem
sentido, condecorações, crimes, enforcamentos, diplomacias, calúnias, mobilizações
militares, desmobilizações, de novo mobilizações, pactos, bombardeamentos – e que não
tenhas nunca reagido com agressividade ou te tenhas sequer apercebido do perigo que
corrias. Talvez te houvesse sido possível entenderes-te a ti próprio se não tivesses
engolido bovinamente tudo o que te cala nas mãos. Mas o que deveras será difícil aceitar
é a verificação do fato de que tudo foste macaqueando e papagueando através dos
séculos; o fato de que o que no teu íntimo acharas certo o era realmente, e que tomaste
por patrióticos os teus erros. Terás vergonha da história que fizeste, e nisso reside a única
esperança de que os nossos bisnetos não venham a ser obrigados a ler a tua história
militar. E não mais será possível a montagem duma grande revolução apenas para pôr
em cena um novo “Pedro, o Grande”.
UM OLHAR AGORA PARA O FUTURO. Não saberia dizer-te ao certo como será. Não sei
se alcançarás a Lua ou Marte com o orgone cósmico que me foi possível isolar. Nem
posso saber de que forma se irão erguer no espaço e aterrar as tuas naves espaciais, ou
se utilizarás a luz do Sol para iluminar à noite as tuas casas. Mas sei O QUE NÃO MAIS
farás dentro de quinhentos, ou mil, ou cinco mil anos.
“O tipo é visionário! E ainda por cima ditador, a prescrever-me o que não farei!”
Não sou ditador, Zé Ninguém, embora, quisesse eu sê-lo, a tarefa teria sido fácil perante
a tua mediocridade. Os teus ditadores só podem dizer-te o que não podes fazer no
presente, sob pena de seres enviado para a câmara de gás. Mas não podem dizer-te o
que farás no futuro distante, tal como lhes não é possível provocar o crescimento mais
rápido de uma árvore.
“E de onde te vem a tua sabedoria, tu, escravo intelectual do proletariado revolucionário?”
Do mais íntimo de ti mesmo, eterno proletário da razão humana.
“Essa é boa! Foi a mim que o tipo veio buscar a sabedoria, às minhas profundezas! Eu
não tenho profundezas! E que espécie de conceito individualista de ‘profundezas’, de
‘mais íntimo’, é esse?”
Digo-te que as tens, embora as desconheças. Tens um medo mortal da tua própria
profundidade, por isso nem sequer a sentes. Se te abeiras dela, tens vertigens, como se
fora um abismo. Temes a queda e a perda da tua “individualidade”, quando só terias a
ganhar com o abandono. Embora com as melhores intenções, a tua trajetória é, porém,
sempre a mesma: a de uma criatura ávida, cruel, malevolente, mesquinha. Se não te
achasse afundado em tua própria fundura não me teria dado ao trabalho desta longa
conversa. Conheço a tua capacidade de ir fundo, do tempo em que me procuravas como
médico, como alguém a quem entregar o teu sofrimento. O que tens de verdadeiramente
profundo é a pedra onde assentará a grandeza do teu futuro. É por isso que posso
nomear com segurança o que não mais farás no futuro, porque será então que tu mesmo
pasmarás perante o que fizeste durante toda uma era de quatro mil anos de incultura.
Quererás agora ouvir-me?
“Vamos a isso, porque é que eu não hei-de dar ouvidos a mais uma utopiazinha? Não há
nada, a fazer, meu caro doutor -sou e continuarei a ser um pobre diabo, o homem da rua,
que não tem opinião própria. Aliás, quem sou eu para...”
Ouve. Escondes-te detrás da lenda do Zé Ninguém, porque tens medo de mergulhar e de
ter de nadar no grande rio da vida, quanto mais não seja em nome dos teus filhos e dos
filhos dos teus filhos. A primeira de todas as coisas que não mais farás será consentir na
percepção de ti próprio como sujeito insignificante e sem opinião, que afirma a todo o
momento “mas quem sou eu...” Tu tens a tua opinião própria e no futuro que prevejo
passarás a considerar como vergonha não a conheceres, não a defenderes, não a
expressares.
“Mas o que dirá a opinião pública acerca da minha opinião? Os outros fazem-me em tiras
se eu me atrever a expressá-la”.
Aquilo a que chamas “opinião pública”, Zé Ninguém, nada mais é que o total de todas as
opiniões de todos os homens e mulheres ditos comuns. Todo o homem e mulher tem
opiniões erradas e certas. Expressa as erradas porque teme as igualmente erradas dos
outros homens e mulheres comuns – e esta é a razão fundamental porque as opiniões
corretas raramente são expressas. Tu já não crês, por exemplo, que a tua opinião “não
conte”. Um dia saberás e defenderás saber que és o suporte da sociedade humana. Não
fujas. Não fiques aterrorizado. Não é assim tão terrível ser a base responsável da
sociedade humana.
“Que é então necessário que eu faça para me transformar no suporte da sociedade
humana?”
Nada terás que fazer de extraordinário ou de novo basta que continues arando os teus
campos, usando o teu machado, examinando os teus doentes, levando os teus filhos à
escola ou ao campo de jogos, contando aos teus o teu dia-a-dia, tentando penetrar mais
fundo nos segredos da natureza. Tudo isso já és capaz de fazer – embora o tenhas na
conta de insignificante perante os feitos do general cheio de condecorações ou príncipe
“inchado”, cavaleiro de armadura reluzente.
“Mas o senhor é um visionário, doutor! Não vê que os generais e os príncipes são os
detentores dos exércitos e das armas com que se fazem as guerras, do poder de
convocar-me para o serviço militar, de destruir as minhas colheitas, o meu laboratório, o
meu gabinete de trabalho?”
És convocado para servir o exército e as tuas colheitas e fábricas são destruídas porque
berras “Viva!” enquanto lá andas, e tudo o que te pertence é feito em estilhas. Os teus
heróis de armadura reluzente não teriam soldados nem armas se claramente assumisses
o fato de que mais importam as tuas colheitas e. a produção das tuas fábricas, e que nem
campos nem fábricas existem para serem destruídos - coisa que os teus militares e heróis
desconhecem, porque nunca trabalharam nos campos, nas fábricas ou.em laboratórios, e
crêem que o teu trabalho se processa apenas para servir a honra da pátria alemã ou
proletária e não para alimentar e vestir os teus filhos.
“Que é que eu hei-de fazer? Odeio a guerra, a minha mulher chora de desespero cada
vez que me chamam, os meus filhos morrem de fome quando os exércitos proletários
ocupam as minhas terras e não tem conta o número dos mortos. Tudo o que desejaria era
que me deixassem trabalhar em paz nos meus campos, brincar com os meus filhos à
volta do trabalho, amar a minha mulher, e, aos domingos, poder tocar, dançar e cantar
com alegria. Que hei-de fazer?”
Tão-somente continuar a fazer o que fazes e o que desejas fazer-criar os teus filhos na
alegria, amar a tua mulher. SE PUDESSES FAZÊ-LO CLARA E FIRMEMENTE NÃO
MAIS HAVERIA GUERRAS – guerras que expõem a tua mulher aos ataques de soldados
brutalizados por longos períodos de abstinência sexual, guerras que levam à morte por
inanição os teus filhos tornados órfãos, guerras que só te oferecem a ilusória imagem de
um celeste “campo de glória”.
“Mas que espécie de homem sou eu se vivendo apenas para o meu'trabalho, para a
minha mulher e para os meus filhos os vir ameaçados pelos hunos ou alemães,
japoneses ou russos, ou quaisquer outros que me imponham a guerra? Não será meu
dever defender o que amo e me pertence?”
Tens razão, Zé Ninguém. Se te atacarem terás de pegar em armas. Mas poderás
entender que o “inimigo”, os hunos de todas as nações, nada mais são que milhões de
Zés Ninguéns como tu, que berram “Viva!” sempre que os seus príncipes (que
desconhecem o trabalho) os chamam às fileiras? Que, tal como tu, também cada um
deles se tem em pouca conta e se interroga: “... mas quem sou eu para ter opinião
própria?” Quando souberes um dia que és alguém, que a opinião que tens acerca de ti
próprio é correta, e que os teus campos e fábricas foram feitos para servir a vida, e não a
morte, então poderás responder tu próprio às questões que ora me pões. E para isso não
precisarás da seção dos teus diplomatas. Em vez de continuares a berrar “Viva!” e a
cobrir de flores o túmulo do soldado desconhecido, ou a consentir que qualquer príncipe à
pressa ou general de todos os proletários venha esmagar com o seu peso a tua
consciência nacional, deverás opor-lhe a tua auto-estima e a consciência do valor do teu
trabalho. (Conheço o teu Soldado Desconhecido, Zé Ninguém. Encontrei-o em combates
nas montanhas da Itália – é o mesmo Zé Ninguém que tu, descrente da existência de uma
opinião própria, dizendo, “mas quem sou eu etc...”) Poderias tentar conhecer o teu irmão,
o Zé Ninguém do Japão, da China, de qualquer país “belicoso”, e tentar dar-lhe a
conhecer a opinião justa que tens acerca do teu trabalho como operário, médico,
agricultor, pai ou marido, convencendo-o de que afinal tudo o que há a fazer é,
simplesmente, tornar qualquer guerra impossível, pela força do amor ao trabalho e aos
teus.
“Bom. Mas eles têm as bombas atômicas, e uma só delas pode matar centenas de
milhares de pessoas”.
Parece-me que ainda não entendeste bem, Zé Ninguém. Julgas que são os príncipes e
generais que fabricam essas bombas? Não, são homens como tu que as constroem
berrando “Viva!”, em vez de se recusarem a fazê-lo. Como vês, tudo se encontra ligado
ao fato de pensares certa ou erradamente. Se não fosses tão terrivelmente medíocre,
grande cientista do século XX, terias achado maneira de servir não à consciência
nacional, mas uma consciência internacional que pudesse para sempre impedir a
utilização de bombas atômicas; ou, se tal fosse impossível, terias exercido toda a tua
influência, por meio de palavras inequívocas, para que nem sequer fossem construídas.
Cego com a tua invenção, não vês sequer uma saída possível, porque a buscas no
sentido errado e porque pensas mal. E prometeste contudo a todos os Zés Ninguéns do
mundo que a tua energia atômica seria a culpa do seu cancro ou do seu reumatismo,
sabendo perfeitamente que tal não seria jamais possível, e que apenas tinhas entre mãos
as bases de uma arma criminosa. E assim, a tua cegueira é idêntica às dos físicos das
épocas anteriores. ESTÁS ARRUMADO PARA SEMPRE. Tu sabes, Zé Ninguém, que eu
te dei a conhecer as possibilidades terapêuticas da minha energia cósmica. Mas
mantiveste-te silencioso e continuas a morrer de cancro ou do coração berrando “Viva,
viviam a cultura e a técnica”. Afirmo-te, pois, Zé Ninguém, que vais cavando o teu próprio
túmulo de olhos abertos. Crês que chegou uma nova era, a “era da energia atômica”.
Chegou de fato, mas não do modo como a imaginas. Não no teu inferno, mas no meu
pequeno e recatado laboratório num recanto distante dos Estados Unidos.
A decisão é tua, Zé Ninguém, quanto a desejares ou não a guerra. Se ao menos
pudesses ter consciência de que o teu trabalho serve a vida, e não a morte. Se ao menos
pudesses saber que todos os Zés Ninguéns da Terra são exatamente como tu, no que
têm de mau e de bom. Mais tarde ou mais cedo -depende de ti não mais hás-de berrar
“Viva” a torto e a direito e não voltarás a trabalhar nas tuas fábricas e campos consentido
que possam vir a ser alvo de ataques militares. Mais tarde ou mais cedo aprenderás a
servir apenas a vida, e nunca a morte.
“Achas que devo fazer uma greve geral?”
Não sei se deves fazer isto ou aquilo. Uma greve geral é um meio arriscado, pois que te
expões à justa acusação de que deixas a tua mulher e os teus. filhos a morrer de fome.
Não é a greve que irá provar o teu senso de responsabilidade perante os males da tua
sociedade. Quando entras em greve não trabalhas. Um dia virá em que, em vez de
fazeres greves, saberás TRABALHAR deveras em nome da vida. Chama-lhe então greve
de trabalho, se tens apego à palavra “greve”. Mas greve trabalhando para ti, para os teus
filhos, para a tua mulher ou a tua rapariga, para a tua sociedade, a tua produção ou as
tuas terras. Vai dizer-lhes que não te sobra tempo para as guerras deles, que tens, mais
que fazer. Muralha cada cidade desta convicção e deixa então que diplomatas e
marechais se matem uns aos outros, pessoalmente. Tais seriam as coisas a ser feitas, se
não mais berrasses “Viva” e não mais te afirmasses como sendo ninguém, ou alguém
sem direito a opinião própria. Tens tudo nas mãos, a tua vida e a dos teus filhos, o teu
machado e o teu estetoscópio. Vejo-te abanar a cabeça, pensar que sou um utopista ou
talvez mesmo um “comunista”. Perguntas-me se poderei dizer-te quando saberás viver a
tua vida em paz e segurança; a resposta consiste no inverso da tua forma de ser atual:
viverás bem e em paz quando a vida significar para ti mais do que a segurança; o amor
mais do que o dinheiro; a tua liberdade mais do que as linhas diretivas do partido ou a
opinião pública; quando o modo de estar no mundo de um Beethoven ou de um Bach for
o tom habitual de toda a tua existência (e já o é, Zé Ninguém, abafado pelo rumor da tua
existência menor); quando a tua forma de pensar estiver de acordo, e não, como hoje, em
discordância, com a tua forma de sentir; quando te for possível reconhecer os teus dotes
a tempo e reconhecer a tempo o teu declínio, a tua velhice; quando te for possível viver o
pensamento dos grandes homens em lugar dos crimes dos ditos grandes guerreiros,
quando os professores dos teus filhos forem mais bem pagos do que os políticos; quando
tiveres maior respeito pelo amor entre um homem e uma mulher do que por um certificado
de casamento; quando puderes reconhecer os teus erros refletindo a tempo, e não
demasiado tarde, como o fazes hoje; quando sentires que o teu espírito se engrandece
conhecendo a verdade e as formalidades te inspirarem horror; quando comunicares
diretamente com os teus camaradas de trabalho, não mais tendo diplomatas por
intermediários; -quando: a alegria que a tua filha adolescente possa encontrar no amor for
também a tua alegria, e não motivo da tua cólera; quando souberes abanar apenas a
cabeça nas mesmas circunstâncias em que outrora se castigavam as crianças por
tocarem nos seus órgãos sexuais; quando finalmente a face humana do homem da rua
puder expressar a alegria, a liberdade e a comunicação, não mais a tristeza e a miséria;
quando os seres humanos não mais povoarem a terra com as suas ancas retraídas e
rígidas e os seus órgãos sexuais enregelados. Pedes orientação e conselho, Zé Ninguém.
Quantas vozes, boas e más, se ergueram, pelos séculos, em resposta... Não é porque
delas careças que permaneces na desgraça; é a tua própria mesquinhez que te condena.
Também eu poderia aconselhar-te, mas sendo como és e pensam o como pensas não
serias capaz de pôr em seção o que quer que te fosse aconselhado no interesse de
todos.
Imaginemos que eu te aconselhava a fazeres desaparecer toda a atividade diplomática e
a substituí-la, pela fraternidade profissional e pessoal com todos os sapateiros,
carpinteiros, mecânicos, técnicos, físicos, educadores, escritores, administradores,
mineiros e camponeses de todos os países; que fossem, pois, todos os sapateiros do
mundo os responsáveis pela decisão de qual o melhor modo de calçar todas as crianças
chinesas; os mineiros responsáveis pelas reservas de carvão para aquecimento de todos
os países frios; os educadores de todo o mundo volvidos guardiões da futura sanidade
mental de todas as crianças recém-nascidas. Que farias tu, Zé Ninguém, sé te visses a
braços com todos estes simples problemas da existência quotidiana?
Decerto que a tua resposta, ou a de qualquer dos representantes do teu partido, governo
ou sindicato, (a menos que me prendesses imediatamente como “comunista”), seria a
seguinte:
“Quem sou eu para poder substituir as relações diplomáticas por relações internacionais
ao nível do trabalho e do desenvolvimento social?”
Ou: “A eliminação das diferenças nacionais no domínio do desenvolvimento econômico e
da cultura não é possível”.
Ou: “Queres que se restabeleçam relações de qualquer espécie com os fascistas
alemães, ou japoneses, ou com os comunistas russos, ou com os capitalistas
americanos?”
Ou: “Acima de tudo interessam-me os destinos da minha Pátria – Rússia, Alemanha,
América, Inglaterra, Israel ou Comunidade Árabe”.
Ou: “Já me chegam os problemas que tenho para manter a minha vida em ordem e para
me entender com o meu Sindicato dos Alfaiates. Outros que se ralem com os sindicatos
de outros países”.
Ou: “Não dêem ouvidos a este capitalista, bolchevista, fascista, trotskista,
internacionalista, sexualista, judeu, estrangeiro, intelectual, mitómano, utopista,
demagogo, doido, individualista, anarquista. Onde está a vossa consciência de
americano, russo, alemão, inglês, judeu?”
Podes ter a certeza absoluta de que usarias qualquer destes slogans, ou outros, a fim de
evitar a tua responsabilidade na forma como se processam as relações entre os homens.
“Mas, então, eu não sou nada? Parece que não me reconheces um único traço positivo!
Afinal, que diabo, trabalho que me farto, sustento a minha mulher e os meus filhos, levo
uma vida decente e sirvo o meu país. Não posso ser tão estupor quanto isso!”
Sei que és uma criatura capaz, sólida, com qualidades de trabalho, tal como uma abelha
ou uma formiga. Tudo o que tentei foi pôr-te à mostra o que tens de medíocre e te destrói
a vida há já milhares de anos. És GRANDE, Zé Ninguém, quando não és medíocre e
mesquinho. A tua grandeza é a única esperança que nos resta a todos. És grande quando
desempenhas com gosto a tua tarefa quando trabalhas na alegria a madeira, quando
constróis, quando pintas e embelezas os teus espaços, quando trabalhas a terra, quando
contemplas o céu na quietude e te comprazes na existência dos animais simples, no
orvalho, quando danças e cantas, quando amas a beleza dos teus filhos, o corpo do
homem ou da mulher que escolheste; quando vais até um planetário tentar entender o
espaço ou a uma biblioteca ler o que pensaram da vida outros homens e mulheres. És
grande na tua velhice, com o teu neto no colo, dizendo-lhe de como foi outrora,
respondendo à sua curiosidade confiante. És grande quando és mãe, embalando o teu
filho nos braços, o coração cheio de esperança de que para ele venham melhores dias, a
felicidade que, hora a hora, lhe vais construindo.
És grande, Zé Ninguém, quando cantas as antigas canções do teu povo ou danças ao
som do acordeão, porque os cantos do povo são pacíficos, e são-no em todos os lugares
do mundo. E és grande quando afirmas ao teu amigo:
“Ainda bem que o destino me concedeu até hoje uma vida limpa e sem ambições, que
pude acompanhar o crescimento dos meus filhos, ouvir-lhes as primeiras palavras, vê-los
mover-se, andar, brincar, fazer perguntas, assistir à sua, alegria; ainda bem que não
deixei passar a Primavera sem a sentir, que pude gozar o vento ameno e o rumorejar dos
regatos e o canto das aves; que não perdi o meu tempo em mexericos com os vizinhos,
que amei a minha companheira e que senti correr no meu corpo o fluxo da vida; ainda
bem que, mesmo em tempo de perturbação, não perdi o norte nem o sentido da vida. Pois
que me foi possível escutar a voz que murmurava no meu intimo: ‘Existe apenas uma
única coisa que vale a pena: viver bem e alegremente a própria vida. Escuta a voz do teu
coração, ainda que tenhas de afastar-te do caminho trilhado pelos timoratos. E não
consintas que o sofrimento te torne duro e amargo.’ E assim, na quietude do cair da tarde,
quando me sento na erva em frente de minha casa, depois de um dia de trabalho, com a
minha mulher é os meus filhos, ouço no pulsar da natureza à minha volta a melodia do
futuro: ‘Humanidade inteira, eu te abençôo e abraço.’ E desejaria então que a vida
aprendesse a defender os seus direitos, que fosse possível modificar os espíritos duros e
os medrosos, que só fazem troar os canhões porque a vida os desapontou. E quando o
meu - filho instalado no meu colo me pergunta: ‘Pai, o sol desapareceu, para onde foi,
achas que volta depressa?’, respondo-lhe: ‘Sim, filho, há-de voltar amanhã para nos
aquecer.’”
***
Cheguei ao fim da minha conversa contigo, Zé Ninguém. Muitas coisas mais haveria, no
entanto, a dizer-te. Mas se me leste com atenção e honestamente descobrir-te-ás agindo
como Zé Ninguém mesmo em situações que te não referi, pois que todas as tuas ações e
pensamentos têm sempre o mesmo tom.
O que quer que me tenhas feito ou venhas a fazer no futuro, quer me glorifiques como
gênio ou me encerres numa instituição psiquiátrica, quer me adores como teu salvador ou
me enforques como espião, mais tarde ou mais cedo a necessidade forçar-te-á a
entender que descobri as leis da vida e que te depositei nas mãos o instrumento capaz de
orientar a tua existência para uma finalidade consciente, como até aqui pudeste fazer com
as tuas máquinas. Fui um bom engenheiro do teu organismo. Os teus netos seguirão as
minhas pegadas e serão bons engenheiros da natureza humana. Fui eu que te revelei o
campo infinitamente vasto da tua própria energia vital, a tua natureza cósmica. Essa é a
minha recompensa.
Os ditadores e os tiranos, os aduladores e difamadores e os chacais sofrerão a sorte que
outrora lhes foi anunciada por um velho sábio:
Plantei a semente de palavras sagradas neste mundo.
Quando muito depois de morta a palmeira aluir o rochedo;
Quando a magnificência de todos os reis não for mais que podridão das folhas secas;
Através dos dilúvios mil arcas guardarão a minha palavra:
Ela prevalecerá.