1: Em Branco

Estes meus últimos tempos quase poderiam ser medidos em resmas de papel amarrotado e atirado ao lixo logo ao primeiro parágrafo. Pareço escrever apenas pelo prazer de sentir o arranhar do aparo no papel, sem objectivo ou mesmo escolha de palavras, tentando apenas acertar a caligrafia cada vez mais ininteligível. Estou sem assunto e sem vontade de o arranjar. As coisas do mundo são demasiadamente complexas para que eu lhes dedique o pouco que sei e nesse parco saber fundamente uma opinião ou arrisque um acrescento. No fim de contas, não é esse o meu trabalho; deixo-o para outros que saibam mais do que eu e para tal tenham vontade - e para os muitos que, levando-se demasiadamente a sério, estão convencidos de que não conseguimos já passar sem as suas considerações acerca de tudo e sobretudo acerca de nada.
Para mim, escrever não faz sentido se não houver quem leia. Sou por isso avesso a diários encafuados em arcas encouradas para memória futura, já que a memória se encarregará de distinguir o essencial do acessório, pelo menos no que à importância do capítulo na vida diz respeito. Se escrevemos é para que outros leiam e, se o fazemos, terá necessariamente de haver um objectivo. Não o fazendo desta maneira apenas originamos desperdício. Creio que é precisamente desta forma de ver esta coisa da escrita que a dificuldade me surge. Não tendo coisas mundanas acerca do que escreva, escreverei eu o quê para que outros o leiam? Melhor perguntando, escreverei eu porquê?
Por entre o meu desejo de escrever e o de me afastar do burburinho inconsequente do éter, recordo a conversa entre o Frei Bartolomeu de Gusmão e o Mestre Domenico Scarlatti, a propósito do que consideram ser a melhor forma de louvar a divindade, tão bem magicada pelo génio de José Saramago.

"Se a música pode ser tão excelente mestre da argumentação, quero já ser músico e não pregador, Fico obrigado pelo cumprimento, mas quisera eu, senhor padre Bartolomeu de Gusmão, que a minha música fosse um dia capaz de expor, contrapor e concluir como fazem sermão e discurso, Ainda que, reparando bem no que se diz e como, senhor Scarlatti, se exponham e contraponham, as mais das vezes, fumo e nevoeiro, e se conclua coisa nenhuma. A isto não respondeu o músico, e o padre rematou, Todo o pregador honesto o sente quando baixa do púlpito. Disse o italiano, encolhendo os ombros, Fica o silêncio depois da música e depois do sermão, que importa que se louve o sermão e aplauda a música, talvez só o silêncio exista verdadeiramente."

Esta conversa tem uma conclusão que não me agrada. Embora dizer "Fica o silêncio depois da música e depois do sermão, que importa que se louve o sermão e aplauda a música, talvez só o silêncio exista verdadeiramente" nos fique muito bem enquanto falamos de louvar a deus ou publicamos a frase numa fotografia com um por-do-sol num meio social à escolha - a originar satisfação imediata num e noutro caso, seja por meio de amens ou de likes, que bem vistas as coisas são o mesmo -, não cabe ao silêncio existir enquanto expressão de algo que verdadeiramente importe. De facto, o silêncio, no que às coisas do mundo concerne, apenas reflecte a escusa ou o niilismo. Não saber e não querer saber são duas atitudes silenciosas face à realidade.
Por outro lado, sendo eu avesso à exposição de detalhes da vida privada ao mesmo tempo que não me vejo como "comentador da actualidade", fico a pensar se no meu caso o silêncio não será a melhor forma de, se não expressar-me, pelo menos não atrapalhar o caminho dos que buscam ou produzem conhecimento.

E assim a pergunta resiste, insistente: Escreverei eu acerca de quê, porquê? Se insisto que os outros leiam o que escrevo, que direi eu acerca de quê? Porque não me remeto ao silêncio do por-do-sol facebookiano, despejando deepities ou umas farpas de quando em quando, apenas para sinalizar a minha presença no universo?
Pois a verdade é que ainda não sei. Talvez continue durante uns quantos escritos a fazer como neste: publicar uma citação maravilhosa e escrever em cima dela coisas que, se não são deepities, são tanto ou menos relevantes do que isso. Que me auxilie o aparo e que não me falte papel.

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