6: Diário de um Caixeiro Viajante I: Via Rápida

Calha por vezes à conversa ir parar à viagem e à melhor forma de a fazer: o que levar na bagagem, que vacinas tomar e outros cuidados de saúde e higiene, como circular na vida de locais estranhos, quais os hotéis, que alimentação, enfim, a conversa revela-se uma inesgotável fonte de opiniões e conselhos, ao que não será estranha a quantidade de livros, artigos e blogs que por aí andam a falar sobre o tema.
E tudo vai bem na conversa assim fluída entre trejeitos de espanto e ohs! de admiração, que a viagem sempre os origina nem que seja pelo facto de afirmarmos com veemência babada que "eu a almoçar e o colibri ali mesmo, imóvel no ar qual aeróstato divino, sugando os sucos de uma flor de beleza necessariamente ímpar", a par de expressões de aborrecimento, já não pela viagem mas pelo relatório que vai longo e pormenorizado, dizia eu que tudo vai bem até ao momento em que se revela um voo em classe executiva. Logo uma voz geralmente mal informada se alevanta, alvitrando com o que aparenta ser conhecimento de causa, e afirma que "isso é um desperdício de dinheiro" e que "a económica está cada vez mais parecida com a executiva", isto para não falar dos que me chegam com as opiniões acerca da divisão das espécies como se falassem de classes, uns e outros sem saberem ainda que uma vez oferecida a oportunidade de tal estupidez decerto a aceitarão com um esgar de contragosto fingido e acabarão por ver o seu íntimo reconfortado.
A verdade é que a classe executiva, a julgar pela maioria das companhias que tenho usado e que já são algumas, é bastante diferente da económica: há espaço, há atenção, há serviço personalizado, há conforto e sossego. Não vamos encafuados num lugar lutando por espaço com o vizinho e comendo refeições piores do que ração de combate - vamos com espaço suficiente, que até os joelhos cabem no espaço entre cadeiras se cruzarmos as pernas, comendo refeições servidas em louça, com direito a hors d'oeuvre, entrada, principal ou conduto como já ninguém diz, sobremesa, café e xiripiti, que tanto pode ser brandy, whiskey, porto, ou simples água com gás, com direito a repetir um número de vezes indeterminado que creio ter a ver com o stock na aeronave, já que na classe executiva a questão do passageiro etilizado não se coloca, que somos todos confortavelmente finos, para não dizer sofisticados.
Mas as melhores vantagens da classe executiva ficam para o fim, como a cereja no topo do bolo ou a gema do ovo como sempre fazemos na procura de finais felizes: são elas, a saber e por ordem crescente de importância, o lounge e a via rápida, uma track que, fast ou green, é sempre mais rápida, estando ambas disponíveis nos melhores aeroportos.
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O lounge, de onde chego e daí as reticências acima que isto está a ser feito ao correr do tempo, divide-se em duas classes, a de executiva que se enche de engenheiros e vendedores que se misturam com ocasionais turistas relativamente endinheirados considerada a média, e a de primeira classe que comporta, por assim dizer, os VIP aerotransportados, sendo uma espécie de divisão como a que há nos hotéis e resorts ou clubes e restaurantes, cada um deles dedicado a um nicho específico, o dos milionários e o dos bilionários, que não haja misturas e que a única coisa em comum entre eles seja a indiferença para com os "all included" de pulseirinha plástica ou, no caso em apreço, os da económica que se ajeitam aeroporto fora nos bancos quase propositadamente duros.
Seja qual for o lounge, os sofás são confortáveis, há Wi-Fi, comida e bebida gratuita e à discrição, jornais, revistas, e em certos casos há mesmo chuveiro, sendo o sítio ideal para escapar à confusão de gente e ruído, trocando-a pela confusão de fios de carregadores de telemóveis e pelo ruído suave dos teclados de laptops onde incansáveis funcionários manipulam folhas Excel, apresentações PowerPoint e respondem a e-mails sem dúvida de importância desmedida e de urgência premente. Mas digamos que há cerveja, vinho e whiskey gratuitos e fiquemos por aí, que já é motivo suficiente.
Já a via rápida é algo totalmente diferente e diferenciador, passe a redundância aparente, consistindo num simples curto-circuito daquilo que melhor define a relação democrática e igualitária da sociedade ocidental, falamos aqui da fila ou bicha, estando a última designação a cair em desuso por mera homofobia linguística, fila essa que coloca atrás umas das outras as pessoas que se dirigem a um objectivo comum, ordenadas e ordeiras, por ordem de chegada, seja qual for o motivo que ali as leva, o sexo ou género, a raça ou etnia, a religião ou o clube, o partido ou a ideologia, levando-nos a nós, os frequentadores de lounges e viajantes com espaço para os joelhos, por um caminho lateral, longe da confusão e incomparavelmente mais rápido. Para quem viaja frequentemente esta é talvez a maior conveniência de um bilhete de classe executiva. São sempre as coisas mais simples que mais importância têm.
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Hoje de manhã, após o check-in prioritário - mais uma vantagem! - no Aeroporto do Porto, chamado Sá Carneiro em homenagem ao político falecido numa queda de avião, lá me dirigi ao controle da bagagem pela via rápida, evitando a enorme fila de gente que apenas a um metro de mim, no scanner ao lado, se contorcia penosamente. Tinha já despido o casaco, tirado o cinto, esvaziado os bolsos, tirado o laptop da mochila e preparava-me para passar o pórtico quando vejo o segurança a tirar-me o bilhete, melhor dizendo, o cartão de embarque do bolso num rápido movimento entre o salto felino e a língua do camaleão, submetendo-o a um scan. Perguntei-lhe o que fazia, respondeu-me que estava a fazer um controle, mas que direito tem de ir ao meu bolso buscar seja o que for, desculpe que me tinha esquecido, respondeu, deixei passar o abuso, o homem não é mais do que uma rodinha dentada do progresso como diria o Pessoa ou qualquer um dele, mas fiquei curioso, perguntando-lhe que tipo de controle era este que nunca me tinha acontecido.
Explicou-me que era para verificar se eu tinha mesmo direito a passar por ali, que "eles" às vezes passavam por debaixo da fita, que "este país tem coisas destas", que se fosse a deixá-los passar não faria sentido pessoas "como eu" pagarem mais por um bilhete... "eles" olhavam para nós tão atónitos como eu, um pouco mais indignados com as explicações que o "segurita" dava. Quem conheça o aeroporto sabe que a zona em que a fila e a via rápida se juntam separadas por uma singela fita tem cerca de dois metros de comprido, sendo perfeitamente visível seja de onde for dentro do perímetro útil dos scanners, pelo que objectei explicando que não faz sentido atrasar pessoas por não conseguir estar atento a dois metros de linha, isso para não dizer que ainda menos sentido faz ter ali três pessoas válidas sem fazer nada a não ser atender o mais ocasional passageiro de executiva, quando há tanta gente a morrer de desespero na fila ao lado, claro que não é nada consigo, que você só cumpre ordens, eu sei, mas já que estamos a conversar, deixe-me dizer-lhe que evite expressões como "eles", porque eles são como nós todos, apenas têm bilhete de económica como suponho que você tenha, caso viaje de avião, ao que ele não respondeu, limitando-se a um sinal para o lado, que eu estava pronto a passar, o que fiz para logo de seguida ver a minha bagagem mi-nu-cio-sa-men-te re-vis-ta-da, sabe-se lá, o gajo deve ser comuna ou pior, mas tem pinta de quem traz explosivos, podemos dizê-lo pela forma como fala, daqui a pouco ou sai ditadura do proletariado ou Allahu Akbar, que vai tudo dar ao mesmo, então mais vale prevenir do que remediar e enquanto prevenimos fodemos o gajo que é para a próxima não se armar em esperto.
Foi então que, enquanto fechava a bagagem e recolocava cinto e calçava as botas, reparei em alguns sorrisinhos de satisfação vindos do outro lado, da fila, como que com o ego recuperado pelo facto de estar eu ali, qual carro de segmento médio-alto empanado em plena via rápida.

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