Sincero, frontal, caminhando de cabeça erguida

A sinceridade, frontalidade e o passo de cabeça erguida não são sinónimo de integridade.

Cabeça Honesta

Há pouca gente que eu deteste mais do que os sinceros e/ou frontais e/ou caminhantes de cabeça erguida. Vários são os motivos que concorrem para este ódio de estimação. O primeiro deles é o mais simples: as pessoas sinceras e/ou frontais e /ou que caminham de cabeça erguida fazem disso gala e imagem de marca, não deixando passar uma oportunidade de se afirmarem como tal, como se passassem a partir desse momento a pairar sobre a restante humanidade, olhando para baixo com miserabilista compaixão. O motivo seguinte é o de a sinceridade, a frontalidade ou o caminhar de cabeça erguida não significarem honestidade ou lealdade. Depois, a sinceridade, a frontalidade ou o passo de cabeça erguida são frequentemente desculpa para a má educação, a ignorância, a boçalidade e a incompetência. Por fim, estes são os atributos das pessoas mais chatas que poderemos encontrar na vida. Nada é mais entediante do que uma pessoa cheia de qualidades.

Claro que há excepções, mas são tão poucas que acho que as conheço a todas.

Touros Lutando

Os outros

Pequeno discurso contra a humilhação, a violência, o medo e os muros que construímos.

O outro é uma complementaridade que nos torna a nós maiores, mais inteiros, mais autênticos. Essa é a minha própria vivência.

– José Saramago ao La Vanguardia, 1997.

Não há nada de errado nesta citação de Saramago, e mesmo a última frase é aplicável a qualquer um de nós: essa é a nossa própria vivência, quer estejamos conscientes dela ou não, quer queiramos ou não. A verdade é que, para todos os efeitos, apenas existimos como indivíduo se confrontados com o Outro. É nele que nos encontramos pela semelhança ou pela diferença, mas sobretudo pela aquisição de uma consciência do que somos, tão únicos e, no entanto, tão vulgares.
O acaso ofereceu-me a sorte (passe a redundância) de vir desde há anos a trabalhar com uma enorme diversidade de pessoas e, especialmente nestes últimos tempos, de o trabalho levar-me a conhecer gente de todas as latitudes e longitudes e, melhor ainda, a interagir com elas nos locais onde vivem. É-me fácil recordar conversas em inglês, língua franca, falada com as mais diversas pronúncias, assim como me é fácil recordar conversas em francês ou castelhano, da França e da Espanha, ou com tempero crioulo ou sul-americano.

Existem duas experiências de que gosto particularmente. Uma, é a de caminhar por uma qualquer rua de uma grande metrópole multicultural, escutando os linguajares familiares ou nem por isso e observando as particularidades étnicas de cada um dos transeuntes. A outra é a de caminhar por uma qualquer rua e, não percebendo uma palavra sequer da língua, entender ainda assim o sentido que a vida faz nessas bandas pela simples observação dos costumes e da forma como as pessoas interagem umas com as outras e com o ambiente que fabricam e que as molda,
Mas gosto ainda mais de apreciar como elas próprias me abordam a mim, o Outro. Essa é uma experiência particularmente gratificante se para ela estivermos abertos e conscientes, em vez de fechados e preconceituosos. Digo isto pois creio ser esse um dos maiores problemas da actualidade: já não se trata de nos reconhecermos no Outro, mas sim de o rejeitarmos liminarmente, como se ele fosse um intruso que, em vez de nos validar enquanto indivíduos únicos na diversidade, pretende anular-nos ou fazer-nos assimilar a sua verdade, o seu credo, enfim, a sua existência.

Não hesito afirmar que tal fechamento ou preconceito se deva, na sua maior parte, à ignorância. Mas convenhamos que a ignorância é um mal de que todos padecemos, uns relativamente a umas coisas, outros relativamente a outras. Falemos antes de falta de reflexão. Creio que o tempo que corre é propício a ela, dada a urgência que qualquer um de nós sente em dar uma opinião acerca seja do que for. Junte-se a isso o mal maior da formatação que séculos de obscurantismo formaram, e temos o caldo completo.
Conhecer o Outro, aceitá-lo como ele é e, por entre isso, saber distinguir o que é realmente bom e realmente mau, exige um certo distanciamento. Não falo de um distanciamento científico, deixo isso para sociólogos e antropólogos. Creio que quero dizer, em vez de distanciamento, uma equidistância, a mesma que consigo, por exemplo, enquanto ateu em relação às diferentes religiões. É esse exercício que me permite ter uma opinião acerca das religiões, fazer mesmo um julgamento, mas deixar de fora as pessoas que as praticam. A verdade é que há pessoas boas e pessoas más em qualquer religião.

Aprendi assim que as generalizações são perniciosas. Dizem-me, por exemplo, “Os alemães são frios.”, opinião que tendo a considerar generalizada. Mas eu pergunto a que alemães se refere a pessoa. A alemães de Hamburgo ou de Augsburg? A operários ou a gestores de empresas? A camponeses ou a universitários? E, de todos estes, quantos conhece a pessoa que tal afirma? A verdade é que, tal como acontece com os portugueses, há alemães para todos os gostos. Existirão, certamente, alguns factores que caracterizam uma determinada forma de estar. Podemos ver alguns deles explicados por Hofstede. Mas convém ter em linha de conta que estamos a falar de pessoas, com pessoas, e que cada uma delas nos vê a nós, o Outro, de uma forma diferente sendo, por isso, elas próprias, um indivíduo igualmente diferente.
O mesmo se passa quando falamos de religiões. Dizermos, como tanto se diz por ai, toda a espécie de vitupérios em relação aos muçulmanos, é um erro crasso. Conheço muçulmanos, sikhs, católicos, protestantes, hindus, xintoístas,… e de entre todos eles conheço gente de quem gosto e gente de que gosto menos. Conheço gente boa e gente má. Mas, sobretudo, reconheço que os seus receios e anseios são precisamente os mesmos que os meus.

Fechar fronteiras, construir muros, segregar pessoas tendo por base a sua nacionalidade, sexo, religião ou tendência política é um dos maiores retrocessos civilizacionais que podemos conhecer. No ano em que se comemora tão efusivamente o derrubar de um muro que dividiu um país, se não o mundo, esquecemos tantos outros muros de betão ou de arame farpado, de chapa ou de mar, que continuam a vitimar tanto os que não conseguem entrar como os que não conseguem receber, tanto os que não conseguem fugir como os que os impedem de tal.
“Barbarism begins at home”, cantavam os The Smiths. É bem verdade. Geralmente começa precisamente pela falta de entendimento do que é o Outro e, com ela, a falta de entendimento de nós próprios. A Europa, nós, – a julgar pelos comentários nas redes sociais, em blogs, na comunicação social e de alguns políticos e religiosos – está a chegar ao precipício que fundamentou a ainda recente guerra no centro da Europa, o nazismo, e que continua a servir de base a todos os fundamentalismos. E, à custa desse disparate, havemos de nos tornar no que acusamos os outros de ser tão indiscriminadamente.

É difícil para mim entender que não se compreenda ainda que, contra ventos e marés, o mundo há-de ser mulato. Isto se não o é ainda.

facebook

Tudo por dizer

O que dizer, por exemplo, quando sabemos do martírio de perto de cinquenta crianças e adolescentes numa escola secundária?

Está tudo por dizer. É uma constatação tão importante como qualquer outra, mas que me traz amargos de boca quando penso nisso. Anos de conversa, a aprender com os melhores e os piores, anos de conteúdos espalhados na internet, o já incontável tempo que tenho perdido em locais como o Facebook, e de tudo isto a única coisa que posso afirmar com toda a certeza é que nada disse que importe, nada acrescentei.
Pelo contrário, deixei-me levar pela serena bovinidade do espírito deste tempo.
A informação que me surge é uma sucessão de fotos de gatos humanizados com mais ou menos piada pintalgada aqui e ali com o sangue de mais um atentado terrorista ou com a vergonha e a falta dela de mais um desvio de dinheiros ou da ignorância e boçalidade de um político ou de um aspirante a tal. Salvo raras, raríssimas excepções, mais não é do que um desfiar de banalidades que o clicar em botões potencia, sem mais razão que não seja a de ser seguidor, ou de ser seguido, amigo, avatar.
A informação que disponibilizo nada mais é do que mais um byte amorfo para a imensa câmara de eco dos algoritmos que sobem as partilhas como balões de ensaio de conhecimento, reluzentes e vistosos, imponentes alguns, mas com nada mais do que ar por dentro, conhecimento que se esvazia com o tempo ou que nem chega a resistir-lhe venha a primeira alfinetada mais certeira.

Está tudo por dizer, dizia eu, enquanto inicio mais uma linha. É isto finalmente, escrever, escrever, escrever até deixar de fazer sentido. Gongórico, disseram-me um dia, acrescentei-lhe assémico. Creio que é esse o caminho: deixar de levar isto demasiadamente a sério e preocupar-me apenas com a satisfação deste velho vício da escrita pela escrita, palavras, imagens, sinapses traduzidas em martelar de teclas, produtos solitários, por vezes da solidão.
Como agora. O que dizer, por exemplo, quando sabemos da morte de perto de cinquenta crianças e adolescentes numa escola secundária, morte essa trazida por um qualquer estranho ser que se explode entre elas e com elas desaparece entre estalar de ossos e rasgar de carnes? Há algo que possa dizer a não ser que lamento, condeno, sou solidário? Há algo que possa fazer a não ser escrever o óbvio?
Há mais a fazer do que partilhar, partilhar, partilhar até à exaustão o recorte da notícia de cada um dos meios, mais a petição, mais o comentário pungente de um e de outros, fazer likes e likes a likes, para amanhã tudo deixar de existir na espuma dos dias apressados dos gatos que tocam piano e dos posters vintage e dos keep calm a abafarem a mais ligeira ressonância dos risos destes putos?

Provavelmente há. Mas eu não sei o quê. E será por aí que este blog seguirá.

Correria

É assim a moderna partilha das inspirações e do saber.

Querido blog: É verdade que tenho negligenciado a escrita. Ando por aí, dedicado aos likes e shares que a vacuidade inspira, sem algo de novo que, embora digno de nota, me faça voltar à tua companhia. É um pouco como falar sozinho, fazer sermões aos peixes, atirar pedras às nuvens: alguém há-de ouvir, um peixe há-de saltar ou um qualquer inocente há-de acabar com a cabeça rachada – e todos eles sem relação aparente com o meu acto de falar ou atirar pedras acabam por sofrer por tabela. Mas é assim a moderna partilha das inspirações e do saber.
Havemos e falar sobre tudo isso.