Deverei eu tomar como meu Ser aquele que actua ou, pelo contrário, será o meu Eu real algo intangível, espírito ditador que apenas quer dessa minha face pública o mecanismo para actuar fisicamente? E, se assim for, de que maneira estarão as limitações mecânicas do corpo a filtrar o eco desse Ser?

6: O Palco

06:09:2016 DEVEREI EU TOMAR COMO MEU SER AQUELE QUE ACTUA OU, PELO CONTRÁRIO, SERÁ O MEU EU REAL ALGO INTANGÍVEL, ESPÍRITO DITADOR QUE APENAS QUER DESSA MINHA FACE PÚBLICA O MECANISMO PARA ACTUAR FISICAMENTE? E, SE ASSIM FOR, DE QUE MANEIRA ESTARÃO AS LIMITAÇÕES MECÂNICAS DO CORPO A FILTRAR O ECO DESSE SER?

Suprimimos o mundo verdadeiro: que mundo nos resta? O mundo aparente, talvez?… Mas não! Com o mundo verdadeiro suprimimos também o aparente!

— Friedrich Nietzche, in O Crepúsculo dos Ídolos

Dizendo, como digo tantas vezes, que vejo a minha vida como se estivesse a ver um filme – uma condição um tanto ou quanto esquizofrénica em que o papel de espectador e actor se alternam e diluem – e que, como digo na entrada anterior, mais não sou do que o engenho de uma consciência ou que ele é a consciência deste meu eu mundano, não posso deixar de concordar com Nietzche: uma vez acabado um, se ao outro resta alguma realidade, esta não será visível ao mundo e, assim invisível, quanto dessa existência será real?

Na senda de Nietzche – ou assim me parece – diz-nos Anna Harendt, em “A Vida do Espírito“, que “Neste mundo em que chegamos e aparecemos vindos de lugar nenhum, e do qual desaparecemos em lugar nenhum, Ser e aparecer coincidem.”, acrescentando mais à frente que “Nada e ninguém existe neste mundo cujo próprio ser não pressuponha um espectador.” – a autora parece querer desta forma delimitar a vida ao plano da acção, eliminando algumas categorias filosóficas e a interpretação do pensamento platónico.

Deixa, desta forma, quer em Harendt, quer em Nietzche, de existir a dualidade entre pensamento e acção, mente e corpo, realidade e aparência, remetendo a nossa realidade para aquilo que de nós é conhecido.


Em casa que não tem pão, todos ralham e ninguém tem razão.

— Adágio popular

Acontece-me pensar isto de cada vez que me apanho a pansar na vida e, procurando respostas, recorro aos filósofos. Concluo facilmente que nada do que eles tenham dito está ausente do que sinto, dependendo do dia e do estado de espírito.
Como será fácil de concluir, estes textos não respondem, apenas colocam mais questões. E ainda bem que assim é: a Filosofia separa-see dela própria sempre que os filósofos ousam ser resposta, transformando-se em gurus de auto-ajuda.

Existirá contradição entre o texto de Borges e as considerações de Nietzche e Harendt? Existe decerto, já que o primeiro admite uma dualidade que, embora se confunda e troque de personagens, não deixa de separar o que “somos” da forma como “actuamos”, de maneira tal que a realidade poderá, em muitos casos, não ser a visível e, por tal, ser mesmo oposta ao que o mundo entende pela acção.

Assim, a minha dúvida consiste no seguinte: deverei eu tomar como meu Ser aquele que actua como vendedor, tipo pragmático, com substancial contributo para a sociedade enquanto criador de riqueza e recursos, para além de escriba num blog de terceirésima categoria ou, pelo contrário, será o meu Eu real algo intangível, espírito ditador que apenas quer dessa minha face pública o mecanismo para actuar fisicamente? E, se assim for, de que maneira estarão as limitações mecânicas do corpo a filtrar o eco desse Ser?

Pois bem, posta de parte a coincidência dos eventos Ser e Acontecer, com que concordo facilmente, resta-me pensar no que será então a minha própria pluralidade, melhor dizendo, multiplicidade, pensando eu, por oposição a Günter Grass, que não somos apenas uma cebola, mas múltiplas cebolas num multiverso existencial. E assim, pergunto: e se eu fosse “O Último Homem na Terra”?

— Imagem do cabeçalho: Henry Van der Weyde, Doppelgänger no Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde

Também eu, como Borges, tenho um doppelgänger que foge do espelho para se entranhar parede adentro e percorrer labirintos que só ele conhece, aparecendo aqui e ali para me ditar pensamentos e instruções.

5: O Filme

DEVEREI EU TOMAR COMO MEU SER AQUELE QUE ACTUA OU, PELO CONTRÁRIO, SERÁ O MEU EU REAL ALGO INTANGÍVEL, ESPÍRITO DITADOR QUE APENAS QUER DESSA MINHA FACE PÚBLICA O MECANISMO PARA ACTUAR FISICAMENTE? E, SE ASSIM FOR, DE QUE MANEIRA ESTARÃO AS LIMITAÇÕES MECÂNICAS DO CORPO A FILTRAR O ECO DESSE SER?

Por lo demás, yo estoy destinado a perderme, definitivamente, y sólo algún instante de mí podrá sobrevivir en el otro. Poco a poco voy cediéndole todo, aunque me consta su perversa costumbre de falsear y magnificar. (…) Así mi vida es una fuga y todo lo pierdo y todo es del olvido, o del otro.
No sé cual de los dos escribe esta página.

— Jorge Luis Borges, in Borges y Yo,

Entendo Borges. Entendo a plenitude deste texto que deve ser lido na íntegra, já que o recorte do excerto acima assassina a obra, como tantas vezes se faz em nome da logística e da comodidade do leitor.
Também eu, como Borges, tenho um doppelgänger que foge do espelho para se entranhar parede adentro e percorrer labirintos que só ele conhece, aparecendo aqui e ali para me ditar pensamentos e instruções. Ele é o ser que pensa e sente, eu sou o ser mundano de quem se espera o acto. Dizem os entendidos que mais não somos do que o produto das nossas acções, e talvez tenham razão. Afinal, é aos olhos dos outros que a nossa existência se revela, mesmo a nós próprios.
E no entanto não consigo deixar de pensar que este meu eu, que se resume ao processamento mecânico dos ditados daquele outro, é apenas um ser passivo, uma personagem secundária de um filme projectado num velho cinema ao qual já ninguém vai.

— Imagem do cabeçalho: Escultura de Juan Muñoz, via Serralves

Assim que se formam os quadros dos partidos, sem outros critérios que não sejam os exigidos a um batalhão de groupies.

4: Tudo isto é Silly, tudo isto é Fado

Assim se formam os quadros dos partidos

It’s not about whether or not you believe, asshole,
it’s about getting down and asking.

— David Foster Wallace, Infinite Jest, 1996

Wallace cita um dos seus companheiros do grupo de desintoxicação que frequentava, “Crocodiles“, a propósito do credo cego num “poder superior” que não existe para além dos seus desejos. A tentar livrar-se da dependência do álcool, que considerava deprimente, descobriu que a “reeducação” a que se sujeitou apresentava um elevado teor de hipocrisia à mistura. As ladaínhas, a classificação, a medida do sucesso, podiam ser tão intoxicantes como o álcool.

Vem este pensamento a propósito dos diversos eventos partidários que ocorrem durante a silly season, sempre a pretexto da formação de uma juventude e dos próximos arautos da partidarite. Porque, francamente, mais do que isso não conseguem.
Olhando para festas, universidades de verão, formação de quadros, acampamentos, ou o que lhes queiram chamar, e indo mais além furando a barricada do folclore e das bandeirinhas, a única coisa que se divisa é o pelotão em bicos de pés, cada um dos convivas procurando a oportunidade de ser visto diligente e leal. Porque é de diligência e lealdade – se não de fidelidade – que os partidos sobrevivem. Pelo que vejo – e por alguma experiência própria – não há desacordo ou divergência interna que não se pague, e qualquer “jotinha” sabe disso muito bem.

E então, o que se aprende nestes eventos? A coisa mais simples da política nacional: podes dizer o que quiseres acerca do que te venha à cabeça. Não importa o que dizes nem como o dizes, desde que a populaça ulule e bata palmas.
É assim que se formam os quadros dos partidos, sem outros critérios que não sejam os exigidos a um batalhão de groupies. Acríticos e conformados internamente, ultrajantes e demagógicos para o exterior. Obedientes à estrutura hierárquica, contestatários dos monolitismos. Lambe-botas dos barões, irreverentes nas campanhas.
São os velhos barões que, pela mão destes jovens, irão continuar a governar o país, política e economicamente. Escreverão os livros ideológicos que os rapazes transformarão em resumos de soundbytes partidários. E daí nada pode vir de bom. Daí nada vem de bom.

É um fado muito silly, este.

Whatever I’m about to say
The beast is in my throat

3: The Beast

This is the beast
If I close my eyes, the beast will close its eyes
If I stop swimming, the beast will dive
We sank a lot of ships together
Now the ocean is empty
But I’ll get through

I’ll make it for you
I’ll make it through
Against the numbers
Against all odds
I will get through

Whatever I’m about to say
The beast is in my throat

Even so, the beast doesn’t mimic me
In its movements, gestures, speech there is something similar to me

This is the beast
If I stop dreaming
It fully wakes the beast
If I stop pushing
The beast will close the door
And if I would start a fire
It would bring me giant trees

But I’ll get through
I’ll make it
For you
I’ll make it through
Against God
And the statistics
I will get through

I don’t know if the beast is there
To strangle or to embrace

— “The Beast“, Teho Teardo & Blixa Bargeld, 2016
— Imagem do cabeçalho: Autor Desconhecido

Por vezes
a Vida transforma-se num hábito que não conseguimos largar.
Numa situação de reféns.

2: Combustão Lenta

A vida transforma-se num hábito que não conseguimos largar. Numa situação de reféns.

Dizem-me bem intencionados que fica a memória e, indo mais adiante, localizam-na geralmente no coração. Talvez essa localização advenha da necessidade de um espaço físico para a memória, já que o coração bate e ao cérebro não lhe conhecemos outro propósito senão o de interpretar tais batimentos por entre obscuros labirintos sinápticos.
Mas a verdade é que a memória é realmente física. “Longe dos olhos, longe do coração” não será o melhor adágio para o que tento explicar pois destina-se principalmente às frágeis relações entre vivos, mas anda lá perto.
No caso dos desaparecidos do nosso tempo, chegamos à conclusão que estão longe de todo o resto: longe dos olhos, longe dos lábios, longe dos dedos. Longe do abraço.

Sim, a memória é coisa física. Se é certo que conseguimos escutar vívidas gargalhadas vindas de dentro de súbitas recordações, e quem diz gargalhadas diz um odor, um toque, certo é também que tudo isso tende a ser cada vez mais raro e impreciso. Chega mesmo a trair a realidade passada, passando a ser apenas uma fabricação nossa.
Esta necessidade física que se traduz em carícias a fotografias, em visitas a um quarto vazio, na procura de um resquício de odor numa almofada é sobretudo uma armadilha. É ao satisfazê-la que mais nos apercebemos da infinitude da ausência, é ao olharmos o vazio deixado que a certeza de que nada mais vai ser como antes nos atinge como um soco na boca do estômago – juntamente com as perguntas “Que irei fazer? Para quê? Para quem?”. E o Tempo não cura nada.

Há uma altura em que compreendemos que a vida se torna um hábito que não conseguimos largar, como a uma velha companheira depois de passada a paixão, depois de diluído o amor, mas a quem estamos ligados ainda por aquela espécie de afeição terna que perdura.
Mas pode também chegar a altura em que compreendemos que a vida se torna um hábito que não conseguimos largar porque há muito que dela somos reféns, desenvolvendo aquela síndrome a que chamam de Estocolmo, bom nome de invernoso que é.
Creio que tudo depende das recordações que temos, da memória que conseguimos guardar, e da forma que a sentimos. Conclusão tão óbvia quanto inútil.

— Imagem: Kent Klich

Desejos de uma viagem no Tempo, a um bom tempo, a um passado feliz ou a um futuro promissor.

1: Uma Relatividade Desejada

Desejos de uma viagem no tempo, a um bom tempo, a um passado feliz ou a um futuro promissor.

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But thought’s the slave of life, and life’s time’s fool,
And time that takes survey of all the world
Must have a stop.

— Hotspur, em Henry IV, part 1 | Act 5, Scene 4 de William Shakespeare, lido em Time Must Have a Stop de Aldous Huxley

Seria de esperar que para lá do meio século de idade eu fosse já capaz de transparecer aquela serenidade que os olhos dos homens do mar possuem, um olhar que convive com o infinito e que, em vez de nele procurar algo, o aceita como naturalmente se aceita o vazio de onde viemos e para onde havemos de ir, usufruindo da vida no entretanto. Mas a inquietude espreita e espicaça, a normalidade dos dias é áspera e a vida pesada. Sim, na verdade a vida tem sido pesada.

Creio que não há quem não tenha desejado que o Tempo parasse, pelo menos uma vez na vida. Ficar preso num momento de prazer, aguardar por melhores momentos enquanto nos ausentamos da corrida, sair e voltar à realidade num segundo e encararmos uma nova vida cheia de novas promessas – todas estas razões e mais as que cada um de nós é capaz de conceber são válidas para desejarmos sair da corrida.

Assim estou eu, desejando sair do Tempo e regressar a águas mais límpidas e a dias mais saudáveis. Sair agora e regressar passado um segundo aos que comigo partilhavam esse desejo de ter uma segunda oportunidade. Sim, essa seria uma boa viagem no Tempo, fosse ela a um passado feliz ou a um futuro promissor, não importa.

Mas a incapacidade de parar o Tempo, ou de pararamos no Tempo, dele saindo e regressando a uma nova vida não é a que mais me desilude. Isso apenas prova que não somos donos da nossa vida e do nosso futuro. A prova da nossa total impotência é querermos oferecer a outrém o tempo que nos resta e não sermos livres de o fazer.

It didn’t stop you from writing it.

0: Zero

It didn’t stop you from writing it.

It didn’t stop you from writing it. As if every thought that tumbles through your head was so clever it would be a crime for it not to be shared. The Internet’s not written in pencil, Mark, it’s written in ink. (…) You write your snide bullshit from a dark room because that’s what the angry do nowadays.

Erica Allbright, em The Social Network