Entre as coisas.

#4. Do Vazio

How To Destroy Angels

Num mundo preenchido pelos seres e objectos talvez consigamos encontrar a verdade por entre eles, no espaço vazio. Sempre há algo para preencher em vez de nos limitarmos a acrescentar. A utilidade tem de ser um caminho, não um objectivo. As coisas úteis são apenas isso, úteis, e o trabalho nada mais é do que o mais destrutivo dos passatempos. Muitas das vezes deveríamos limitar-nos a apreciar o cenário em vez de teimarmos nas soluções.

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E já nenhum poder destrói o poema.

#3. H

Fumo - Autor desconhecido

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
— a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

— Embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.

— E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

– Herberto Helder (1930-2015), Sobre o Poema

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Balbucio, em silêncio: “Não se dão flores a quem morre de cancro. Não há tempo.” E sorrio, lembrando viagens de carro em que cantávamos isto em coro. Sorrio em silêncio, hirto aos pés da cama.

#2. IPO: Corredor da Morte – I

Imagem: IPO-Porto

Há um cheiro indeterminado e uma espécie de gemido desistente ao longo do corredor. Os vivos dividem-se em duas espécies: os que ganharam consciência da morte e os que a ultrapassam, transformando-se em fantasmas descolorados, carecas, arrastando garrafinhas e aparelhos electrónicos. Baixamos os olhos na recusa em enfrentar o Purgatório e seguimos olhando as paredes sem sentido e distribuindo sorrisos amarelos aos que passam. Nada mais podemos dizer, esgotamos as palavras e os sentimentos, quedamo-nos duros frente à cama, simplesmente olhando e reagindo inconsequentemente a cada sussurro, a cada ranger de dentes, a cada vómito, a cada solicitação gemida, a cada tremeluzir do fino pavio que parece desgastar-se mais e mais e mais e mais… E sorrimos. Sorrimos sempre. (Balbucio, em silêncio: “Não se dão flores a quem morre de cancro. Não há tempo.” E sorrio, lembrando viagens de carro em que cantávamos isto em coro. Sorrio em silêncio, hirto aos pés da cama.)

Aparte disto, acima de tudo isto, os indiferentes que trajam bata e smartphone de topo de gama, e mais os que reprovaram na admissão à polícia, vão passando, olhando através de tudo uns, os outros colando estúpidos autocolantes A4 nos vidros dos carros. Poucos há que valha a pena conhecer, a quem valha estender a mão. São, na sua maioria, a antítese do que parecem quando os vemos na TV, entusiásticos salvadores de vidas, distribuidores de carinho pelos desafortunados, almas sensíveis que fazem das tripas coração face ao sofrimento, ao atroz sofrimento com que se deparam diariamente. Antíteses que pairam em batas roçagantes e altivas, sem a mínima empatia, sem o mínimo de humanidade. “Endureceram”, dizem-me. “Mas endureceram mal”, respondo. E corremos atrás de um, e depois atrás do outro, que não era com o primeiro. E também não é com este, e não é com ninguém, e desatinamos, e gritamos com a assistente ou lá o que é que, ali frente a nós, sem tirar os olhos do monitor, apenas diz… o que diz ela?

O velho está ali há seis horas e não faz ideia porquê. O puto está ali há quatro horas e não sabe porquê. Perguntam, um e outro. Perguntam os filhos de um, os pais de outro, não há resposta.
Entro na sala de rompante e pergunto o que se passa, não é suposto o miúdo fazer um TAC? Olham assarapantados uns para os outros, procuram um papel qualquer, encontram-no no cesto, e desatam um simples “estava aqui, mas ninguém avisou”. Ninguém avisou durante quatro horas. E durante quatro horas ninguém estranhou a presença de gente – sim, gente – ali, parada, sem propósito aparente. Sai para o TAC, acompanhamos em procissão, sorrindo.
Cá fora, o carro parado à porta da urgência – “Urgência não, que aqui não há urgência. Isto é o SANP. Sabe o que quer dizer? Quer dizer Serviço de Atendimento Não Programado. Isto não é urgência, percebe?” – já deve ter o papel amarelo colado, avisando que não devia estar ali parado e assinado pelo IPO, Gestão Hoteleira. O raio do papel vai custar a sair, vão ficar os restos de cola no vidro. Já sabemos como é. Havemos de o tirar e colar numa tabuleta ou num sinal qualquer, num acto de pobre vingança e pagar uns vinte euros de parque que o dia já vai longo. (continua)

– Imagem: IPO Porto

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A televisão era útil para o ignorante, porque selecionava a informação de que ele poderia precisar, ainda que informação idiota. A internet é perigosa para o ignorante porque não filtra nada para ele. Ela só é boa para quem já conhece – e sabe onde está o conhecimento. Conhecer é filtrar.

#1. A Máquina Semiótica

Máquina Semiótica

“A internet não seleciona a informação. Há de tudo por lá. A Wikipédia presta um desserviço ao internauta. Outro dia publicaram fofocas a meu respeito, e tive de intervir e corrigir os erros e absurdos. A internet ainda é um mundo selvagem e perigoso. Tudo surge lá sem hierarquia. A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. O excesso de informação provoca a amnésia. Informação demais faz mal. Quando não lembramos o que aprendemos, ficamos parecidos com animais. Conhecer é cortar, é selecionar. Vamos tomar como exemplo o ditador e líder romano Júlio César e como os historiadores antigos trataram dele. Todos dizem que foi importante porque alterou a história. Os cronistas romanos só citam sua mulher, Calpúrnia, porque esteve ao lado de César. Nada se sabe sobre a viuvez de Calpúrnia. Se costurou, dedicou-se à educação ou seja lá o que for. Hoje, na internet, Júlio César e Calpúrnia têm a mesma importância. Ora, isso não é conhecimento.

Se você sabe quais os sites e bancos de dados são confiáveis, você tem acesso ao conhecimento. Mas veja bem: você e eu somos ricos de conhecimento. Podemos aproveitar melhor a internet do que aquele pobre senhor que está comprando salame na feira aí em frente. Nesse sentido, a televisão era útil para o ignorante, porque selecionava a informação de que ele poderia precisar, ainda que informação idiota. A internet é perigosa para o ignorante porque não filtra nada para ele. Ela só é boa para quem já conhece – e sabe onde está o conhecimento. A longo prazo, o resultado pedagógico será dramático. Veremos multidões de ignorantes usando a internet para as mais variadas bobagens: jogos, bate-papos e busca de notícias irrelevantes.

Seria preciso criar uma teoria da filtragem. Uma disciplina prática, baseada na experimentação cotidiana com a internet. Fica aí uma sugestão para as universidades: elaborar uma teoria e uma ferramenta de filtragem que funcionem para o bem do conhecimento. Conhecer é filtrar.”

– Umberto Eco, Revista Época Dezembro de 2011
— Imagem: Terry Gilliam, The Zero Theorem, 2014

Bem vindo ao semiose.net.

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